As mulheres que trucidaram Amber Heard

Entre um vampirismo emocional e o Efeito Lucifer.

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Sobre o mais recente, a nível mundial, sururu hollywoodesco, o reality show de Johnny Depp (JD) contra Amber Heard (AH), algumas mulheres questionavam-me sobre qual foi o julgamento a que assisti, pois seguramente não foi o mesmo. Elas tudo tinham visto desde a primeira sessão e durante aquelas 8h/dia. Não o disseram explicitamente, mas senti, sim, senti, que na sua racionalidade, eu não tinha direito a emitir nenhuma opinião pelo simples facto de assumir que não o acompanhei.

Sorri e silenciei-me para não alimentar polémicas desnecessárias, porém, não deixei de pensar que, por esta lógica, só podia ser contra a guerra se tivesse participado ativamente numa ou acompanhasse fervorosamente as noticias que todos os dias nos chegam via um ecrã.

Minhas queridas amigas, podem e devem ter a vossa opinião. Será bem vinda desde que, devidamente, fundamenta. Nunca em achismos absurdos. Lembro-vos os terraplanistas, onde depois – o jeito que deu -, foram ensacadas todas as pessoas que com bom suporte técnico questionavam esta última vacina e a vacinação massiva. É isso que querem? Ou aquelas que de um modo interesseiro, disfarçado, porém como diz o ditado “gato escondido com o rabo de fora” tomam partido pela Ucrânia, nesta horrível contenda, levando atrás de si, acriticamente, as galinhas depenadas em troca de uns grãos de milho, de uns likes, de uns corações e, porque não, de umas selfies e até convites para um jantar no meio de gente ligada ao poder político, financeiro, académico, da comunicação social…

Esta linha vermelha que tenho fica vincada: nunca pactuarei com alguém que emita opiniões sobre assuntos estritamente técnicos com base numas leituras das sebentas wikipédia e da universidade da vida, sobretudo se eles disserem respeito ao sofrimento humano. Não. Não. E não. Não é preciso tirarem nenhum MBA acelerado. É suficiente falarem com alguém que domine o assunto. A modéstia de assumir que não se sabe e pedir ajuda, é das qualidades que mais aprecio. Por exemplo, nunca irei permitir que alguém use a expressão gaslight como se se tratasse de uma birra infantil. A desvalorização resultante da ignorância é muito grave. No fundo está ao mesmo nível do típico achismo “sei que a fórmula da água é H2O mas eu acho que HO2 é que deve ser.” Como exemplo refiro-vos que não tive qualquer pudor em colocar algumas questões ao experiente realizador de diretos de futebol, Ricardo Espírito Santo, para perceber o mecanismo das filmagens neste julgamento especifico. Este confirmou as minhas suspeitas. Informou-me que há pelo menos três câmaras, “talvez quatro mas aí não tenho a certeza; precisava de mais tempo, de que não disponho, mas três são de certeza”. Logo é necessária uma régie e um ser humano que a cada minuto decide a imagem que irá para o ar. Ou seja, como tudo na vida, não há neutralidade. Quem é esta pessoa que decide onde se colocam as câmaras? Que ângulos captar? Que planos escolher para enviar? Relembro que estamos a falar de emissão em direto pelo que a edição está excluída. Quem é a pessoa que decide, a cada minuto, o que cada uma de nós verá no conforto do nosso sofá? Homem? Mulher? Branco? Negro? O que pensa do feminismo? Do #metoo? Da homossexualidade? Do racismo? É democrata ou republicana? Pró-vida? Pró-aborto? Pró-armas? Ou o contrário disto tudo? Concluí que precisei de vos lembrar que não estiveram na sala de audiências. Viram e ouviram aquilo que alguém decidiu o que vocês deviam visionar. Não estou a afirmar que existiu manipulação intencional. Isso ficará para os entendidos na matéria, mas é um facto que há um intermediário, nunca neutral, esteja do lado que estiver, entre a sala de audiências e os espetadores.

Quanto à experiência de vida: valorizo-a imenso seja no presente seja em tudo aquilo que trazemos e somos. Ajoelho-me em reverência perante as nossas ancestrais que, com todas as suas circunstâncias, nos permitiram chegar aqui. Não foram perfeitas. Certamente que muitas erraram imenso mas foi através delas, enquanto sobreviventes que aqui chegamos. Numa encarnação, para quem acredita (eu acredito), temos apenas três opções de escolha:

1. Repetir os erros;

2. implodir essa cadeia;

3. Dar continuidade e ampliar

aquilo que de bom nos legaram – foi tanto.

Nesta, onde cada uma de nós se encontra,

o paradigma mantém-se:

que caminha queremos escolher?

Embasbacada com as vossas certezas pois repetiram e repetiram…

Eu estive lá na sala de audiências, tudo vi e ouvi. Tu não.

…fui visionar, ao acaso, excertos dos diretos. Aqueles que o algoritmo escolheu para mim e decidiu presentear-me. Ele lá saberá o motivo pelo qual devo ver aquela sequência e não outra.

Numa primeira fase retirei o som e a seguir o inverso. Sim, não vi as centenas de horas que vocês, nem tal era preciso. Qual o motivo? Porque tenho um dogma do qual dificilmente abdico:

sempre que num divórcio uma mulher é acusada de ser louca

a minha intuição diz-me

que a razão está do lado dela…

…podendo, sim, ficar louca, não o nego pois toda a história da psicologia, psiquiatria e antropologia sobre o género feminino nos mostra a falsidade desse epíteto e, mesmo nos casos em que a loucura eclodiu, foi como sequela e não como causa. Sabemos bem que dificilmente alguém escaparia, com saúde mental, às torturas a que foi sujeita nas relações de intimidade e até familiares.

Mulheres, não podemos tirar conclusões seja do fenómeno da Violência Doméstica (VD) seja outro qualquer numa perspetiva atomizada. Ela tem que forçosamente ser “gesltáltica”. Se assim não for corremos o enorme risco de sermos profundamente injustas para com todas as vitimas neste segmento ou outro.

É esse o grande erro de que padecem.  E, por isso, onde vocês conseguiram ver uma agressora, uma mentirosa compulsiva, uma manipuladora, uma narcisista, uma “gaslither” eu perceciono uma mulher acossada, em alerta máximo numa atitude defensiva de sobrevivência em absoluto congelamento físico das emoções como terror, pânico, raiva…

Feitos estes esclarecimentos vamos lá falar do que penso sobre o assunto.

Nesta feira mundial de emoções há uma primeira ação contra o The Sun que JD perde. Jurou vingança. (Lá voltaremos mais tarde)

Se há coisa que Depp tem é uma brilhante inteligência, um traço dos agressores e, sobretudo, tem muito dinheiro para pagar a excelentes profissionais que o aconselharão na estratégia mais eficaz para cumprir a sua ameaça de macho ferido. Se bem pensou melhor o fez.

Eles sabem como fazer a gestão emocional do medo coletivo neste caso em concreto aplicado a questões de género. A este propósito leia-se a excelente reflexão de António Garcia Pereira sobre a gestão cientifica do medo em contexto laboral. É só mudar as categorizações que a validade e eficácia do “modus operandi” é a mesma.

Não foi por acaso que o julgamento foi onde foi. Assim como não foi a defesa de Depp ser entregue a uma mulher. Os argumentos apresentados para o fazer, sendo legais, tratando-se de uma questão tão intima, poderiam ter optado por não realizar uma transmissão direta para o mundo. Qual o motivo para JD necessitar desta estratégia? Seria a única possível para recuperar a credibilidade de macho, humilhado por uma mulher, ao perder a ação contra o The Sun que o carimbou como “batedor da esposa”?

Ora, sendo gente que vive da imagem sabem usá-la com mestria e, estando em curso uma revolução com o movimento #metoo, na minha opinião, esta tática configura uma situação real da experiência feita pelo psicólogo Philip Zimbardo a qual é mundialmente conhecida como Efeito Lucifer:

“Como é que pessoas boas se tornam más”.

Ao fazer uso do despoletar de pulsões de vingança para abusos, roubos, assassinatos, abandonos, suicídios, prostituição, fome, mendicidade, tortura, prisão, abortos provocados, paixões não correspondidas, infanticídios, escravidão… que todos e todas temos nas nossas memórias genéticas eles sabiam, à partida, que a possibilidade de usar as pessoas a seu favor estava garantida. É o que se designa por gestão do medo muito bem estudada em contexto organizacional mas que se pode estender a tudo na vida. A pulsão em jogo não difere da que referi a propósito da violência no parto em meio hospitalar.

Depp e a sua equipa, encontrou como a única saída viável para a condenação de Ambar a gestão da manipulação do medo, à escala mundial: acertou. É os EUA em que um júri composto por três homens e duas mulheres, que não ficou em isolamento, não foi imune a uma horda ávida de emoções fortes, catárticas. Como na maioria dos seus filmes, e daí o grande sucesso, Depp e a sua equipa está capacitado para mexer com esta emoção. Todos lemos os mesmos artigos, autores, livros. A diferença traduz-se em uns usarem o conhecimento para introduzir mudanças positivas na sociedade outros fazerem mau uso dele ou manterem tudo como sempre esteve: a submissão das mulheres aos homens embora bem camuflada de “liberdades”. A história está a abarrotar destes exemplos dos quais a grande maioria são os referentes à maternidade e todas as confissões religiosas, de todos os tipos, incluindo aquelas que se dizem não pertencer a nenhuma. Não há neutralidade. Nem no fio elétrico conhecido como neutro, numa instalação elétrica, ela existe. A sua função está muito bem definida.

No caso concreto que aqui estou a analisar: como é que mulheres inteligentes, cultas, com mente muito aberta e que tenho por humanistas conseguem, no conforto do seu sofá, jurar a pés juntos que viram o julgamento e que viram bem que Amber mentia, que era destrambelhada, louca, que metia os pés pelas mãos, que o que ela queria era ter visibilidade à custa dele, sacar umas massas valentes…

Confesso que fiquei estarrecida com a total perda de lucidez. Como é que mulheres que eu considerava boas de repente viraram “facínoras” de outra mulher que apenas conhecem dos média e, claro, dos seus trabalhos enquanto atriz?

O que senti nesta egrégora mundial, foi o medo a sair dos seus túmulos céreos, imaculadamente limpos e decorados com flores de plástico. Nesta demanda explosiva, vampiresca, de sede de sangue vingativo teletransportaram-se para dentro da sala de audiências. Ai de quem ousasse contestar aquilo que viram, ouviram. Elas estiveram lá. Juram a pés juntos que conseguiram cheirar o after shave do seu homem e o cheiro putrefato daquela mulher, magra, loira e bonita.

O que levou as mulheres a focalizarem a sua atenção e amplificarem pequenas contradições de Amber (quem estuda sobre trauma sabe perfeitamente como as memórias se apagam ou confundem como estratégia de sobrevivência) e a passar uma total borracha nas distorções mentais graves, gravadas, de JD, algumas delas antes de casarem?

E em coro, de faca na mão as mulheres gritavam:

Amber, como é que tu te atreveste a relatar o que sofreste!?

Amber, como foi possível teres conseguido ganhar!?

Amber, isso não podia ter acontecido.

Amber, esse não é o nosso lugar.

Na minha mente, imaginei uma orgia de felicidade pela condenação de uma mulher corajosa. Não consegui deixar de pensar no filme

“O baile das Loucas”.

Vejam. Pensem.

Deixo um desafio: de que lado querem estar?

Na continuidade da submissão ao patriarcado?

Na mudança que é, obrigatoriamente, de paridade e nunca de reversão?

Lembrete:

No mundo a neutralidade não existe.

Nada é neutro.

Ninguém é neutro.

Todos e todas temos os nosso gatilhos.

Eu conheço os meus.

Conheces os teus?

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As mulheres que trucidaram Amber Heard

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