Sobre o sururu hollywoodesco do julgamento de Johnny Depp contra Amber Heard, algumas mulheres questionavam-me sobre qual tinha sido o julgamento a que assisti, pois seguramente não foi o mesmo. Elas tinham visto tudo desde a primeira sessão, ao longo de oito horas por dia. Não o disseram explicitamente, mas senti que, na sua lógica, eu não tinha direito a emitir opinião pelo simples facto de assumir que não acompanhei o caso.

Ver não é o mesmo que compreender
Sorri e silenciei-me para não alimentar polémicas desnecessárias, mas não deixei de pensar que, por essa lógica, só poderia ser contra a guerra quem tivesse participado ativamente numa. Minhas queridas amigas, podem e devem ter a vossa opinião — desde que devidamente fundamentada, e nunca em achismos absurdos. A modéstia de assumir que não se sabe e de pedir ajuda é das qualidades que mais aprecio.
Por exemplo, nunca permitirei que alguém use a expressão gaslight como se se tratasse de uma birra infantil: a desvalorização resultante da ignorância é muito grave. Não tive qualquer pudor em colocar questões ao realizador de diretos de futebol Ricardo Espírito Santo para perceber o mecanismo das filmagens deste julgamento específico.
Quem decide o que se vê
Este confirmou as minhas suspeitas: há pelo menos três câmaras, e é necessária uma régie e um ser humano que, a cada minuto, decide a imagem que vai para o ar. Ou seja, como tudo na vida, não há neutralidade. Quem é esta pessoa que decide onde se colocam as câmaras, que ângulos captar e que planos enviar? Homem ou mulher? O que pensa do feminismo, do #metoo, do racismo? Estamos a falar de emissão em direto, pelo que a edição está excluída. Concluí que precisei de vos lembrar que não estiveram na sala de audiências: viram e ouviram aquilo que alguém decidiu que vocês deviam visionar.
O lado do direito de defesa
Depp tem uma brilhante inteligência, um traço dos agressores, e sobretudo muito dinheiro para pagar a excelentes profissionais que o aconselharam na estratégia mais eficaz. Não foi por acaso que o julgamento foi onde foi, nem que a defesa de Depp foi entregue a uma mulher. Sendo gente que vive da imagem, sabe usá-la com mestria e, estando em curso uma revolução com o movimento #metoo, esta tática configura uma situação real da experiência de Philip Zimbardo conhecida como Efeito Lúcifer: como é que pessoas boas se tornam más.
Depp e a sua equipa encontraram na gestão da manipulação do medo, à escala mundial, a única saída viável para a condenação de Amber — e acertaram. É um país em que um júri composto por três homens e duas mulheres, que não ficou em isolamento, não foi imune a uma horda ávida de emoções fortes e catárticas. Todos lemos os mesmos artigos; a diferença está em uns usarem o conhecimento para introduzir mudanças positivas e outros fazerem mau uso dele, mantendo tudo como sempre esteve: a submissão das mulheres aos homens, bem camuflada de liberdades.
Duas leituras do mesmo julgamento
| Elemento | O que muitos viram | O que a autora sublinha |
|---|---|---|
| Comportamento de Amber | Instabilidade e contradições | Respostas típicas de trauma e de alerta máximo |
| Transmissão televisiva | Acesso direto à verdade | Mediação de uma régie nunca neutra |
| Estratégia jurídica | Busca de justiça | Gestão científica do medo coletivo |
| Júri | Decisão imparcial | Pressão de uma opinião pública catártica |
O epíteto de louca
É este o grande erro de que padecem as duas leituras. Num processo em que uma mulher é acusada de ser louca, a intuição diz-me que a razão está do lado dela: podendo, sim, ficar louca, isso não nega que toda a história da psicologia, da psiquiatria e da antropologia sobre o género feminino mostra a falsidade desse epíteto. Mesmo nos casos em que a loucura eclodiu, foi como sequela e não como causa.
Tenho um dogma de que dificilmente abdico: sempre que num divórcio uma mulher é acusada de ser louca, a minha intuição diz-me que a razão está do lado dela. A história da psicologia, da psiquiatria e da antropologia sobre o género feminino mostra a falsidade desse epíteto e, mesmo nos casos em que a loucura eclodiu, foi como sequela e não como causa. Mulheres, não podemos tirar conclusões sobre a violência doméstica numa perspetiva atomizada: ela tem de ser forçosamente global.
- Não confundir trauma com mentira: as memórias apagam-se ou confundem-se como estratégia de sobrevivência.
- Não amplificar pequenas contradições ignorando as distorções graves do outro lado.
- Não usar o ódio misógino disfarçado de crítica política.
- Não esquecer que existe sempre um intermediário, nunca neutro, entre a sala de audiências e os espetadores.
O grande erro é este: onde muitos conseguiram ver uma agressora, uma mentirosa compulsiva, uma manipuladora ou uma “gaslither”, eu perceciono uma mulher acossada, em alerta máximo, numa atitude defensiva de sobrevivência. Deixo um desafio: de que lado querem estar — na continuidade da submissão ao patriarcado ou na mudança, que é obrigatoriamente de paridade e nunca de reversão? No mundo, a neutralidade não existe.
