O esplendoroso machismo de Miguel Sousa Tavares, azedo e ultrapassado

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Às vezes encontramos um texto tão perfeitamente horroroso e tão inteiramente defensor de amoralidades que sinceramente nos questionamos como ainda há quem, em 2019, não tenha vergonha de o escrever. Pior: escreve-os com orgulho, prenhe de razão e superioridade da sua amoralidade. A coisa que Miguel Sousa Tavares escreveu sábado no Expresso está nesta estirpe de amontoados de letras e palavras maldosos.

Começa por criticar o Público. Por que razão (além de provavelmente estar ressabiado de alguma sova que levou de alguém que lá escreve)? Porque este jornal é ‘desprovido de um mínimo de testosterona editorial ou jornalística’. Testosterona, a hormona dos machos, a qualidade essencial do bom jornal. Além disso, ‘o “Público” está transformado numa tribuna feminista’ – DESMAIEM DE HORROR SE FAZ FAVOR. Um jornal a dar palco ao feminismo – essa coisa imunda para Sousa Tavares, percebemos, um insulto daqueles de mão cheia (considera ele) – onde é que já se viu? Como é possível um jornal descer tão baixo? Os ‘únicos resquícios de masculinidade’ – que é o que traz qualidade a um jornal, notemos bem – são as crónicas de Miguel Esteves Cardoso. (Esta referência releva que está quiçá ainda a exorcizar a tareia épica que um dia levou de Vasco Pulido Valente sobre um dos seus fracos livros.) O Público está num nível tão subterrâneo que ‘até os homens se esforçam por escrever como mulheres’ – as mulheres, presume-se não são suficientemente boas para escrever em jornais.

Portanto, só num parágrafo, temos uma criatura a informar-nos que os jornais devem ser feitos por homens muito machos, que as mulheres não sabem escrever, que o que se procura num jornal (ou se deve procurar) é testosterona e masculinidade. E que dar palco a feministas e a feminismos é um abastardamento de um jornal.

Poucas vezes li, de forma tão clara – porque geralmente têm noção de que fica mal e dizem exatamente o mesmo mas enrolado em hipocrisias e sonsices – um homem a proclamar que as qualidades masculinas são superiores às femininas e que são estas (as masculinas) que fazem um bom produto.

Até compreendo que um homem goste mais de ler homens ou os assuntos tipicamente masculinos. Eu geralmente gosto mais de ler mulheres (até tendo mais para pintoras mulheres) e aprecio muito ler sobre temas que interessam mais a mulheres – maquilhagens, moda,… Há textos fabulosos nas boas revistas. Porém o que tem piada (quer dizer, não tem nenhuma) é Sousa Tavares evidentemente considerar os assuntos e pontos de vista masculinos interessantes, válidos e bons, mas os femininos são menores e reduzem qualidade.

Um homem que escreve sobre futebol – que tantas vezes é desinteressante, sobretudo nas aldrabices e politiquices que inspiram MST – falar com menosprezo de ‘tribunas feministas’ e de ‘homens que escrevem como mulheres’ é demasiado risível. Um péssimo escritor como Sousa Tavares (Equador é um livro sem qualquer piada, a tentar reproduzir os bons livros anglo-saxónicos com descrições explícitas de sexo – algo que Sousa Tavares deve supor muito masculino – com uma historieta desinteressante e personagens insípidas; os restantes não li) gozando com quem ‘escreve como mulheres’ é demasiado tonto.

Mas vai além do machismo ridículo, isto. Trata-se de um homem que não aceita que um produto – no caso, um jornal – se destine a homens e mulheres, com as suas preferências umas vezes iguais outras vezes diferentes. É um homem que quer impor a supremacia apenas do ponto de vista masculino – e as mulheres são aceites e elogiadas tanto quanto se conformem a essa masculinidade. Na verdade, Sousa Tavares – tanto quanto recusar um jornal que se destina ao público inteiro e que dedica páginas a vidas de mulheres e às vicissitudes das vidas femininas (quem quer saber? Sousa Tavares não quer, portanto ninguém tem de querer) – exige que sejam as mulheres a escreverem como os homens para terem lugar à mesa. É o argumento do costume, que sempre me traz ataques de nervos: usar os homens e a masculinidade como se fosse a norma universal perfeita, e obrigar as mulheres a condicionarem-se aos temas, à forma de escrever e aos interesses dos homens. Porque, lá está, os homens são a medida de todas as pessoas (homens e mulheres) e são melhores que as mulheres.

Perante este homem, escritor e jornalista pequeno e ridículo, trago aqui uma frase de um texto sobre a editora da BBC na China que descobriu que ganhava consideravelmente menos que os colegas equiparados homens: ‘more women lessens the preponderance of male viewpoints and allows a clearer presentation of how things are. Certainly female reporters who covered the Vietnam War have made the case that their gender frequently helped them look beyond a near-fetishistic coverage of guns and bombs to the real costs of war.’ Mas talvez Sousa Tavares julgue que contar os dissabores da guerra para as populações, em vez de ficar pelo aparato militar, é falta de testosterona e masculinidade. Pobre homem.

Adiante. O que enfureceu mesmo Sousa Tavares no Público? Que contassem essa renovação do #metoo com Placido Domingo. Disse renovação? Não, Sousa Tavares assevera que é ‘perseguição‘ e é ‘abominável‘ – a-bo-mi-ná-vel, nem um bocadinho menos! Reparem: ‘Que aos 74 anos de idade, uma das maiores vozes de sempre da Ópera seja perseguido, exposto, silenciado, banido das salas e dos concertos para que fora contratado, porque sete ou oito mulheres o acusam de há trinta anos lhes ter passado a mão pelas coxas ou de se ter permitido outros avanços com elas, seja verdade ou não, é intolerável.’ (Os bolds são meus.)

Ei, mas não pensem que Sousa Tavares é um apologista de assediadores e de homens que abusam do seu poder para constranger mulheres para obterem sexo, lá agora. Pelo menos, ele diz que não: ‘Não se trata de consentir ou menorizar o assédio sexual,’ – eheheheheheheheheh, mega gargalhada (de nojo) – ‘mas de ter a noção da proporção das coisas, da facilidade das acusações fora de contexto e da violência das penas‘ – quais penas? Placido Domingo foi preso? torturado? ou afinal os homens, cheios de testosterona e masculinidade são tão sensíveis que não toleram que digam coisas desagradáveis sobre eles? – ‘decretadas sem mais.’

Enfim. Apologistas de assediadores. Sousa Tavares não quer saber se Placido Domingo abusou do seu poder de estrela que podia terminar carreiras para obter sexo. Não lhe interessa se é verdade ou não, que mesmo que seja verdade o ‘intolerável’ e ‘abominável’ é as mulheres queixarem-se e jamais o abuso de Placido Domingo. Ao mesmo tempo que despreza absolutamente as consequências destes assédios na vida e nas carreiras das mulheres – as mulheres são seres menores para Sousa Tavares, já reparámos – fica sufocado de sofrimento com as ‘penas’ decretadas a Placido Domingo. Novamente: as vidas dos homens valem, as carreiras dos homens valem, as das mulheres não, e era o que faltava um homem ser confrontado com os danos sérios que causou a mulheres.

(Neste momento refreio-me de escrever o que penso de Sousa Tavares.)

Haveria ainda mais a dizer da proposta das pensões de Sousa Tavares, mas vou ficar por aqui, que o texto vai longo. De resto uma das mais antigas memórias que tenho de Sousa Tavares é a criatura na televisão, há umas décadas, queixando-se (é queixinhas há muito tempo, portanto) da discussão de os homens não participarem nas tarefas com os filhos. Dizia a criatura que os pais brincavam com os filhos e jogavam à bola. Já nessa altura a criatura era tão arguta que considerava dar banho, cozinhar, mudar fraldas e outras atividades equiparadas ao tempo divertido de brincar com os filhos.

O que fazer perante isto? Cada um faz o que quer. Eu não faço nada. Porque não posso: Sousa Tavares já era daquelas pessoas que esta vossa amiga fazia questão de não ler, de não ver na televisão, de não comprar os livros. Só vos posso avisar do que vai na cabeça da dita pessoa. Isso já está.

 

 

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