PARTE I :  Tudo começa por um primeiro passo, de preferência português!


Texto de Mariana Beleza Tavares, fotorreportagem de Marta Gonzaga.

A(s) travessia(s) entre Valença e Tuy

O caminho começa por um simples passo, e foi português!

Todos as grandes caminhadas começam por um simples passo. E quantas vezes este simples passo implica um ato de coragem. Coragem que não é a ausência de medo, e, sim, avançar, apesar do medo. Medo do cansaço, medo do desconhecido, medo das dores, medo do peso da mochila, medo de não conseguir chegar ao destino, medo de me perder numa vida interior ainda tão governada pela mente, sobretudo medo de não desfrutar do caminho.

Tive medo quando comecei este meu primeiro Caminho de Santiago; e talvez por isso o tenha adiado, desde que me comprometi a percorrê-lo. Comprometi-me em 2018, aquando da recaída de um episódio de dor neuropática que me limitou a mobilidade da perna direita na sequência de uma cirurgia mal sucedida a uma hérnia quatro anos antes. Comprometi-me a, quando ficasse bem – NÃO SE ficasse bem, MAS QUANDO FICASSE BEM – a caminhar até Santiago de Compostela para agradecer à Virgem Peregrina e ao Apóstolo Santiago, bem como a todas as benditas árvores que ladeiam os trilhos e nos atestam de oxigénio, pelo DOM DA SAÚDE.

Ainda levei dois anos a mentalizar-me de que seria capaz de percorrer uma média de 20 quilómetros diários durante sete dias seguidos.  A companhia e a pandemia acabaram por dar o mote perfeito. Companhia porque a Marta se predispôs a acompanhar-me em Outubro de 2020, ela que cinco anos antes tinha sido o meu suporte numa consulta de dor quando a antevisão era somente «mitigar a dor crónica». Pandemia porque, se ia agradecer pelo dom da saúde, não existia melhor altura do que agora que a Humanidade enfrenta o desafio de uma pandemia e tanto precisa de ©oração.

Há muito que tinha curiosidade na espiritualidade do caminho, que despertava tantos crentes como místicos, em especial duas amigas-irmãs, a Victoria e a Michelle, que regressam de cada caminho percorrido de olhar arregalado, sorriso alargado e coração pacificado. Chegara a minha vez de poder ser testemunha das maravilhas do caminho. De t-shirt amarela, a cor do chakra do plexo solar a simbolizar o meu poder pessoal, lá me enchi de CORagem (agir com o coração), dei o primeiro passo e segui as setas da mesma tonalidade na direção de Santiago.

A Marta confiou em mim para planear todo o itinerário e dormidas. As dormidas, decidimos em conjunto, não seriam em albergues por causa da pandemia. Mal sabíamos nós que… (teaser para o que aí vem). Assim, marquei nas várias modalidades de alojamento mais upscale, em pensões, hotéis e alojamento local. Apenas não o fiz em Santiago… e ainda bem.

Vieira na Ponte Rodo-ferroviária que une Valença e Tui

O percurso escolhido foi o Caminho Português na Variante Espiritual, com partida de Valença, sete dias de caminhada e pernoitas em Tuy, O Porriño, Redondela, Pontevedra, Combarro, Villanova de Arousa, Ribadumia e Santiago.

Simbolicamente, saímos de Lisboa no dia 13 de outubro, dia de anos da minha filha, Beatriz (e da última aparição de Fátima), com previsão de chegada a Santiago de Compostela no dia 21 de outubro, dia de anos da filha da Marta, a Maria. Seria uma forma de celebrarmos e agradecermos à Virgem Peregrina por todas as bênçãos do caminho – e pela maior de todas, a da maternidade (chegámos um dia mais tarde, por circunstâncias ligadas à pandemia, melhor, aos poucos peregrinos em tempos pandémicos. Explicamos tudo adiante).

Apesar de dormirmos em Tuy na primeira noite, e de nos termos dirigido logo à Pensão «La Corredera» (no Booking dizia fechar portas às 20h00, e nós somos mais vespertinas), decidimos arrancar nesse dia de Valença, numa etapa (carregada de simbolismo, mais um) de três quilómetros (acabaram por ser seis). Afinal, estávamos a percorrer o Caminho Português e queríamos muito começá-lo no nosso País. Não sem antes beber una copa de vino na Pensão para recarregar baterias. Como viemos a apurar, com toda a moderação e com a maior satisfação, “sin vino no hay camino!”. E foi bem mais que una copa! Eram 21h00 espanholas e, apesar de a Pensão habitualmente não servir jantares, lá nos galardoaram, alegremente, com uma tortilha espanhola. É reconfortante ver a devoção das pessoas que nos suportam, alimentam e dão guarida durante o caminho, espelhada no modo familiar como acolhem os peregrinos. Até acompanhámos a dona da Pensão na cozinha (lamentável não me lembrar do nome dela!) na feitura desta tortilha, a primeira manifestação de muitas de carinho ao longo dos dias.

Saciadas, lá demos corda aos ténis e fogo às máscaras na direção de Valença. Em Espanha, ao contrário de Portugal, a máscara era obrigatória nas ruas e as pessoas eram bastante intransigentes em relação ao uso da mesma. «Ponha a máscara!», «Máscara arriba!», lá íamos ouvindo dos transeuntes. Nos bosques eram-nos dadas tréguas, afinal eram caminhadas exigentes, desniveladas e com uma mochila de oito quilos no lombo. À aproximação das cidades, compúnhamo-nos com o mais recente acessório de moda internacional.

Voltando à história: atravessámos duas vezes a Ponte Rodo-ferroviária de Valença, sobre o Rio Minho, também conhecida por Ponte de Valença ou Ponte Internacional de Tuy (consoante o lado da fronteira), quase parece um reduto da Batalha de São Mamede – brincadeira, fomos testemunhas das semelhanças e o apreço entre galegos e minhotos, como se a região vizinha fosse uma extensão natural da sua.

Às 23h00, estávamos nas nossas caminhas e nem vontade tivemos de limpar a pele com os múltiplos cremes e séruns que a Marta não abdicou de trazer (gozei, mas usufruí, pois!). Adormecemos, não sem o pensamento-sombra que assola todos os caminhantes de primeira viagem: será que sou capaz?

[Parte II – Sin tapas tampoco]