«Obrigada por nos visitarem e ajudarem o povo malgaxe.» Ouvi esta frase várias vezes, com um vigor e um sentido de gratidão que me intrigaram. Até perceber, pelas estradas nacionais de terra batida, e com a paciência levada ao limite pelas horas infindas a percorrer ínfimas distâncias, que este destino — imperdível para entusiastas da vida selvagem — é hoje um paraíso esquecido.

Um país do tamanho de França, quase invisível
Madagáscar é a quarta maior ilha do mundo. No ranking das Nações Unidas, é também o quarto país mais vulnerável às alterações climáticas, com o World Food Program a advertir que a situação no sul poderá tornar-se na primeira crise de fome de sempre causada pelo aquecimento global. Até o primeiro navegador a atracar no país era português, de seu nome Diogo Dias — irmão do Bartolomeu.
Visitei o país em outubro, numa viagem de três semanas desenhada pelo líder Bernardo Conde. Mais do que o consolo sazonal das praias-postal, é uma viagem que privilegia o conhecimento do país real e o contacto com as populações. Confesso que não fui eu que escolhi o destino; nem sequer foi amor à primeira vista. Na minha ignorância, esta era uma ilha de florestas tropicais, habitada por muitos lémures e poucas gentes (quando são 28 milhões!), e havia sido «legitimada» no planisfério pelo blockbuster de animação homónimo.
Filme esse em que os protagonistas são um leão, uma zebra, uma girafa e um hipopótamo — animais inexistentes num território onde 90% das espécies são tão endémicas quanto a pobreza. Em que até o chefe dos lémures, símbolo glorioso do país, se apresenta macho, quando são as fêmeas que lideram os grupos. Ter uma rainha Juliana a dirigir o «I like to move it, move it!» retrataria melhor a realidade destes mamíferos.
| Dado | Madagáscar |
|---|---|
| Posição | 4.ª maior ilha do mundo; 4.º país mais vulnerável ao clima (ONU) |
| População | Cerca de 28 milhões de habitantes |
| Etnias | 18 etnias; língua malgaxe próxima da falada no interior do Bornéu |
| Biodiversidade | 90% das espécies são endémicas |
| Floresta | Apenas 10% das florestas subsistem |
| Pobreza | Projeções do World Bank apontam para perto de 80% até 2024 |
A garrafa de plástico como bem precioso
Antes de mais, uma garrafa de plástico. Nunca mais olhei da mesma forma para uma garrafa de plástico. São um bem precioso em Madagáscar. Aonde quer que passássemos, crianças e mulheres pediam-nos as que íamos consumindo — privilegiados que somos de poder beber sempre água potável — para usar como recipientes, armazenar líquidos, transformar noutros objetos, desde materiais de construção a brinquedos, e revender em mercados locais.
O valor comercial de uma garrafa vazia revela muito sobre o país e o que a população não tem. Revela, sobretudo, o engenho e a arte de um povo, esse espírito inventivo que decorre da necessidade extrema. Infelizmente, nem todo o engenho é canalizado para ações que não danifiquem o ambiente. Em busca da sobrevivência, as populações começaram a desflorestar o país para produzir o carvão que alimenta os fogareiros, plantar arroz e criar gado. Lembro-me de ficar muito zangada quando, numa caminhada na montanha, assistimos, impotentes, a sucessivas queimadas.
Com distancia(mento) — confesso que já em Portugal — pus-me a refletir: posso ficar furiosa com a «conivência» de altos funcionários públicos no contrabando de madeiras raras, como o pau-rosa para a China. Mas quem sou eu para me revoltar com quem só quer alimentar os filhos no dia seguinte e não tem, como nós, hipótese de pensar a médio e longo prazo?
Lémures, tsingy e baobás
Apenas 10% das florestas subsistem em Madagáscar, a maior parte em Parques Naturais e Reservas protegidas. Como a Reserva de Anja, gerida por uma associação local, onde concretizámos a ambição-mor da viagem: travar conhecimento com os famosos lémures de cauda-anelada, vulgo rei (rainha!) Juliano, e as suas tropelias.
No rol de experiências apenas disponíveis em Madagáscar, o pódio vai para a via ferrata do Parque Nacional Tsingy de Bemaraha, a «floresta de pedra» que desperta o Avatar em nós. Apesar do medo — padeço de alturofobia — senti-me invencível, de arnês e mosquetão em riste, a escalar aquela imensidão de rochas verticais pontiagudas, semelhantes a pináculos de catedrais góticas. Foi também um veículo 4x4 que nos levou ao pôr do sol mais retratado de Madagáscar: na Avenida dos Baobás, onde os baobás, de galhos despidos e retorcidos a lembrar raízes, são fortalezas que espelham a ligação ao divino. A sua vida pode chegar aos seis mil anos.
A «maldição dos recursos»
Madagáscar é abundante em pedras preciosas e semipreciosas, ouro, baunilha, arroz, mandioca e peixe, mas muito pouco chega às pessoas. Prevalece a exploração, o neocolonialismo por via de empresas transnacionais e a corrupção das elites instaladas. A larga maioria dos malgaxes vive com menos de dois dólares por dia e vê o prato composto por pouco mais do que arroz, sem água potável nem saneamento básico. Nunca percebi esta discrepância entre a gentileza desarmante das populações africanas e a ganância de quem as governa.
O Famadihana e as pessoas
Mergulhámos de chofre na cultura local ao assistir a um «Famadihana»: o ritual de celebração dos mortos, praticado pelas etnias Merina e Betsileo, que significa literalmente «virar dos corpos». A cada sete anos após a perda de um familiar, abre-se o jazigo e retiram-se os mortos em ombros, para conviverem com os vivos e serem envoltos em panos imaculados. Mais do que uma cerimónia, é uma festa com banda, bebida com fartura e muita dança.
- A pernoita na aldeia de Sakaivo, a 1300 metros de altitude, só acessível a pé.
- A arte de esculpir madeira dos Zafimaniry, património cultural imaterial da UNESCO.
- Casas construídas sem um único prego ou ferragem metálica.
- O «Fihavanana», palavra malagasy sem tradução que significa «espírito solidário, gentileza gera gentileza».
- As crianças que corriam atrás da carrinha a gritar «bonbom, bonbom, vahaza!».
Em Madagáscar senti-me permanentemente dentro de um abraço. Por isso deixo o melhor para o final: as pessoas. O acolhimento, a candura e a alegria à passagem em cada aldeia enterneciam-nos a alma. A dignidade, mais do que da estrutura e da oportunidade, irrompe da bondade e da coragem perante a adversidade. O povo malgaxe é como as árvores que o habitam: vive e morre de pé. Como sublinha o cardeal Tolentino, «África dá-nos a dimensão da vastidão»; e, no que toca a Madagáscar, sobretudo, humana.
