Quem fabrica o nosso futuro?

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“O Futuro é fabricado na Alemanha. A Alemanha está a abrir novos mercados com a transição energética”

 

A palavra Energiewende significa em alemão transição energética, palavra tão expressiva que por vezes os anglo-saxónicos se dispensam de traduzir. A expressão foi cunhada na Alemanha nos anos 80, não estava inicialmente associada à descarbonização, mas à substituição do nuclear e do petróleo – o nuclear é um problema político recorrente na sociedade alemã. O facto curioso, mas não invulgar, é o deste conceito de transição energético ter sido criado no seio de uma ala política conservadora, porque preocupações desta natureza era algo comum no espectro da direita europeia – coisas do século passado.

O conceito da transição energética – Energiewende – só voltou em força neste século, quando se criou na sociedade alemã um amplo consenso para a necessidade de encerramento das 17 centrais nucleares. A alternativa era obviamente a introdução de novas tecnologias de produção renovável em substituição da nuclear e do carvão, estava em curso uma alteração profunda do mix energético. O conceito aparece agora associado à descarbonização do sistema electroprodutor, mas também à reorientação da geração centralizada para a geração distribuída, e até para uma maior democraticidade do sistema energético.

No início da década e face à pouca maturidade das tecnologias de geração renovável, a transição energética teve um custo elevado para a indústria alemã (fazendo subir os preços da electricidade), razão pela qual inicialmente não houve grande adesão por parte dos patrões da indústria. Este facto só foi contrariado com muitos milhões de subsídios à energia para as industrias electrointensivas.

O governo alemão quis transformar este desafio -Energiewende- em oportunidade e procurou convencer a indústria alemã a aderir a esta revolução, também tecnológica, produzindo e exportando bens ligados à “economia verde”. Quando no início da década, em pleno período de crise, na União Europeia se falava de um plano industrial europeu era nisto que os alemães pensavam, e melhor executavam.

O cartaz de 2012, que ilustra o texto é disso prova, à boa maneira alemã a transição energética abriu caminho para novas tecnologias e novas indústrias. O plano teria sido executado na absoluta perfeição se a China não estivesse também nesta corrida. Quando os alemães instalavam em suas casas painéis fotovoltaicos no âmbito da política energética promovida pelo Governo, milhares de milhões de euros saíram da Alemanha para financiar a indústria do solar fotovoltaico na China.

No entanto, nunca o governo em Berlim desistiu de aproveitar a transição energética e de a associar a um plano industrial maior. Se no início as associações industriais alemãs estavam renitentes e a mobilidade eléctrica não ganhava tracção, hoje fruto de bons exemplos industriais, mas principalmente da necessidade premente de salvar a importante indústria automóvel alemã, a adesão é quase plena.

A Alemanha não quer incorrer novamente, com a mobilidade elétrica, nos erros do passado e acabar a financiar a concorrência, pelo que criou um projecto europeu ao qual Portugal se quis associar com a componente extrativa e de refinação, neste caso do lítio – a “Aliança Europeia para as Baterias”.

Pergunta agora o Governo português: como pode Portugal ficar alheado deste plano industrial europeu (eu digo alemão)? Não só pode, como deve, se a parte que nos coube implica destruir, em larga escala, o património natural e agredir o mundo rural, para impor um modelo extractivista com minas a céu aberto. Pior se, como inevitável, esta opção comprometer outros modelos de desenvolvimento económico e social bem mais sustentáveis e geradores de emprego.

Muito mais que a indústria extrativa mineira, as actividades ligadas à terra (agricultura, silvicultura, pastorícia) podem representar contributos fundamentais para o combate às alterações climáticas, o mesmo para a criação de emprego.

Portugal está a ganhar muitas empresas, e tem sido na agricultura e pescas que mais sociedades têm surgido, entre 2013 e 2017, o número de empresas nesse sector cresceu mais de 31%, segundo um estudo do Banco de Portugal. O ritmo da criação de empresas na agricultura e pescas é mais do quadruplo do de todas as atividades económicas. Também, segundo o Banco de Portugal, o aumento do EBITDA de 2017 relativamente a 2016 do sector da agricultura e pescas foi o maior de todos os sectores tendo superado os 50%. Se juntarmos o turismo de natureza, que tem sido um sector em franco desenvolvimento no interior, temos dois sectores ameaçados por um modelo de desenvolvimento extractivista e que garante pouco mais de uma década de um desenvolvimento económico medíocre, mas deixa um enorme passivo de destruição ambiental, económica e social com património natural irremediavelmente perdido.

A agroindústria e o turismo são ambos modelos de desenvolvimento consensualizados na sociedade portuguesa, que muitos só recentemente começaram a trilhar, e que está lentamente a reabilitar o tecido económico do interior rural. É este desenvolvimento que queremos comprometer com um modelo extractivista, ao serviço de um plano industrial alemão?

Se o futuro é fabricado na Alemanha, o que visionam para Portugal – ser o parque de minas a céu aberto da Europa?

Queremos uma verdadeira transição energética, fundada na ciência e na tecnologia, que seja verdadeiramente criadora de riqueza, mas que não se dispense de ser, também: democrática, no respeito da vontade das populações; e geracionalmente solidária, que não deixe para as futuras gerações um irrecuperável passivo de destruição ambiental e social.

Devemos participar nesta revolução industrial em curso, resultado da transição energética, com optimismo e com espírito de cooperação internacional, mas não de qualquer maneira – Portugal também tem obrigação de “fabricar” um futuro melhor para os seus.

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