O fim de Merkel, a perda da Europa

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A cientista que veio da Cortina de Ferro. A feminista que o foi sem nunca o ser. A Mutti (mãe) dos alemães. A estadista discreta mas implacável. A eterna reticente. A tutora dos políticos mais novos. A reencarnação da Alemanha bismarkiana. A ovelha negra da “austeridade”. A acolhedora dos refugiados.  A verdadeira líder do mundo livre. A face anti-Trump e anti-Rússia. Angela Merkel foi um pouco de tudo, consoante cada pessoa, cada grupo, cada país que interagiu com ela e os seus sucessivos governos. Sobretudo porque, ao longo de mais de treze anos, nunca decifrou muito da sua verdadeira personalidade: onde outros são políticos-espectáculo, Merkel habitou sempre o outro extremo, o da aversão total à auto-publicidade. Foi sem sombra de dúvida a estadista feminina mais marcante desde Thatcher, se bem que com um registo completamente diferente: onde o ferro de Thatcher era pura convicção ideológica, o ferro de Merkel era uma capacidade quase singular de ser o centro de gravidade sem ter propriamente uma ideologia distinta (no merkelismo, se existe isso, coube tudo desde a obsessão com o déficit público zero até ao casamento homossexual, qual gigantesca tenda de acolhimento).

Merkel decidiu esta semana que não se iria recandidatar nem a Chanceler nem à posição de líder dos conservadores democratas-cristãos alemães, a CDU, que lidera desde 2000. O futuro do centro-direita alemão e da Europa vai ser construído sem ela, depois de mais de treze longos anos ao comando. A chanceler estava fatalmente enfraquecida desde Setembro de 2017 (como escrevi aqui há meses) e o péssimo resultado eleitoral nas eleições regionais de Hesse no fim de semana passado (o pior para a CDU desde 1968) foi a gota de água. Merkel mantém que vai continuar como chanceler alemã até ao fim do seu mandato em 2021, mas ninguém minimamente inteligente acredita que ela vá durar politicamente até lá. Igualmente por terra fica a ideia do duo fantástico Merkel/Macron a reconstruírem a Europa das ruínas de 2008. Ela está de fora, ele tem tantos problemas internos que até teve de se retirar para um spa nos Alpes franceses com exaustão.

Dizem-me as minhas fontes que a decisão de Angela Merkel foi tomada depois de ela assistir a uma performance de Parsifal de Richard Wagner em Munique ainda este Verão. Durante semanas ela tinha sido massacrada por uma disputa violenta com o seu Ministro da Administração Interna, Horst Seehofer, que insistia na deportação imediata de todos os imigrantes chegados à Alemanha que tivessem sido previamente registados noutro país da União Europeia. Merkel resistiu. Seehofer desafiou-a dizendo que Merkel só tinha chegado a Chanceller com a sua ajuda (no processo brutal de atraiçoar Helmut Kohl e depô-lo da liderança da CDU, Merkel juntou-se a alguns nomes bastante duvidosos e que agora estão de volta como abutres, para a vingança).

A chanceller, sentindo que os problemas se estavam a agudizar (mais de metade dos alemães numa sondagem do Der Spiegel este Verão queriam que ela se demitisse), cancelou pela primeira vez desde 2005 as suas férias habituais de Verão no Tirol. Mas encontrou tempo e disposição para estar ali, aquela noite de Julho, a assistir a Parsifal, sempre um favorito: a história de um novato que não se assusta com os perigos da floresta alemã e derrota todos os oponentes para alcançar o Santo Gral. Uma metáfora para a própria ascenção de Merkel: de outsider da depressão da Alemanha de Leste até ao centro de gravidade europeia, derrotando pelo caminho inúmeros homens arrogantes. Merkel famosamente disse que ouve música clássica frequentemente para a ajudar a tomar decisões difíceis. Desta vez Wagner fê-la perceber que o arco da sua vida política estava completo e que era o momento de preparar uma saída ordeira de cena, se mais não fosse do que para evitar o caos eminente.

Merkel pode acreditar que está a acabar o seu reinado nos seus próprios termos mas, na realidade, as suas opções tinham-se esgotado. Os seis meses que demorou a formar um governo depois das últimas eleições legislativas alemãs, percas sucessivas em diversas eleições regionais e a presença da extrema-direita AfD (Alternative für Deutschland) em cada parlamento estatal, são tudo consequências daquele que foi o maior erro de avaliação de Merkel, o seu único acto impulsivo numa governação que se orgulhava de ser a cabeça fria num mundo demasiado volátil: a abertura das fronteiras alemãs a um influxo descontrolado de mais de um milhão de imigrantes e refugiados em 2015.

Se esta decisão conquistou para ela um lugar na História como alguém que representa o ideal de “solidariedade europeia” (e não só a caricatura de Merkel no período crítico da crise do euro de 2018-12 com o seu Ministro das Finanças Shaüble sempre atrás, prestes a colocar criancinhas gregas e portuguesas na miséria), foi responsável também por uma erosão imediata na confiança dos alemães tanto na CDU de Merkel como nos Sociais Democratas, parceiros de coligação. O público alemão começou a associar terror e insegurança com os imigrantes do Médio Oriente e do Norte de África. Quando na noite de Ano Novo de 2016, na praça em frente à estação de comboios de Colónia e debaixo da catedral icónica, dezenas de mulheres queixaram-se à polícia de terem sido sexualmente assaltadas por imigrantes, tudo mudou no compasso nacional alemão.

O caso passou quase despercebido na Europa mas ocupou os media e o público alemão durante meses. Foi este o ponto de viragem para Merkel, mesmo quando durante 2016 o número de imigrantes e asilados desceu exponencialmente. Foi o momento em que os alemães já não se sentiam seguros com Mutti . A famosa imagem nos cartazes de campanha eleitoral das mãos de Merkel com o simples slogan Segurança e Estabilidade (dois valores que são preciosos para os alemães depois de duas guerras destrutivas) tornou-se irrelevante neste novo contexto. Para além do mais, a decisão de Merkel teve consequências ainda mais funestas para a Europa do que a sua actuação discutível durante a crise do euro. Ao passar a ideia de que a Europa iria acolher todos os imigrantes, Merkel expôs os estados-membros da União Europeia com fronteiras externas, particularmente a Grécia e a Itália, e causou, sobretudo no ultimo, um aumento exponencial do nacionalismo (vide a eleição de Salvini). Deu força a nacionalistas crípticos na Húngria, Polónia e Aústria para rejeitarem o acordo de Schengen (que na prática está morto) e forçou Merkel a um acordo humilhante com o Presidente turco Erdogan que deu a este absoluto poder sobre a União Europeia. Merkel criou o próprio caldo do qual veio a emergir a AfD.

Nos circulos políticos de Paris há quem veja agora no fim de Merkel a oportunidade para o Júpiter Macron se tornar a voz central da Europa. Mas na realidade esse é um sonho fútil: Macron tem uma agenda doméstica demasiado carregada de problemas e uma economia ainda deficiente para projectar esse poder. Merkel foi capaz de projectar poder total sobre a Europa durante mais de uma década porque não tinha oposição interna e a Alemanha era e é uma economia a carburar a todo o gás. Em política ninguém se quer associar a alguém em dificuldades. O mais natural é que Macron, sem uma parceira forte e alinhada ao ideal europeu como Merkel, vá reverter pura e simplesmente para uma agenda doméstica (tentando evitar que Le Pen reapareça em 2022).

É mais importante ver agora quem se está a alinhar para substituir Merkel porque isso ditará a direção alemã, agora que a paciência dos alemães com uma política mais centrista se esgotou. O plano de Merkel é colocar uma aliada, Kramp-Karrenbauer, na liderança dos cristãos-democratas em Dezembro. Karrenbauer partilha o mesmo tipo de liberalismo social e centrismo económico de Merkel, é uma candidata feminina e, acima de tudo, deixaria Merkel em paz até 2021. A realidade é diferente: a corrida a sucessão no partido vai ser violenta e acidentada. Um dos mais antigos rivais de Merkel, Friedrich Merz, um executivo da BlackRock, começou a sua campanha já esta semana. Merz foi afastado subitamente por Merkel em 2002, nunca lhe perdoou, e representa o lado mais conservador socialmente da CDU. O outro candidato chave é o corrente Ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, um crítico feroz da política de emigração da chanceler. Tanto Merz como Spahn ambicionam retornar o partido ao seu perfil pré-Merkel: mais à direita, mais socialmente conservador, ou seja o espaço que foi perdido para a AfD. Ambos são adorados pelas figuras mais influentes do partido, sobretudo na sua facção mais patriarcal e conservadora, que estão absolutamente aterrados com a possibilidadede de serem suplantados pela extrema-direita.

Se Merz ou Spahn ganharem a corrida à liderança da CDU, Merkel estará completamente acabada em Dezembro. Mesmo que ela consiga colocar Karrenbauer no poder seguem-se eleições regionais nos estados alemães de leste que vão certamente ver a CDU destroçada nas urnas e colocar a AfD no poder (é nesses estados do leste alemão, tradicionalmente mais pobres, que a AfD já consegue votações na casa dos 25%). Por outro lado a paciência dos sociais-democratas alemães também se está a esgotar: o que era um partido central do pós-guerra está reduzido nas urnas a uns míseros 15% de votos. Já não têm nada a ganhar em permanecer associados com Merkel num centrismo turvo e sem distinção e por certo acabarão a coligação mais cedo ou mais tarde para poderem desbravar um caminho mais à esquerda (onde estão a perder terreno para os Verdes). A ironia é que Merkel acabará muito provavelmente deposta da mesma forma desagradável como ela depôs o seu mentor Helmut Khol: a política é implacável quando se está em curva descendente.

O que isto traz para a Europa é mais um factor de instabilidade e desta vez no seu coração do poder. A Alemanha, a economia mais poderosa da União Europeia, está num processo de auto-marginalização em relação ao projecto europeu. A mais que provável viragem à direita da política alemã na era pós-Merkel só vai acentuar este desligar da Europa o que é duplamente perigoso: não só há o risco de uma nova crise económica (o ciclo económico mundial está a abrandar fortemente, particularmente na China e na zona euro, e uma recessão é muito provável em 2020) mas ao contrário de 2008-12 em que houve um mínimo de coordenação internacional, essa futura crise económica vai ter de ser navegada num quadro político de nacionalismo desregrado geral (de Trump a Orban, de Bolsonaro a Salvini). Ou seja salve-se quem puder: se os países mais frágeis economicamente se queixaram de Merkel e Shaüble há uns anos, preparem-se porque essa fase vai parecer um conto de fadas agora num quadro de líderes aos quais União Europeia, Nações Unidas, NATO, acordos climáticos, acordos comerciais, não querem dizer rigorsamente nada.

Entretanto Merkel está exausta. Aparece nas cimeiras europeias de forma muito mais errática e desligada do que no auge da sua forma. Treze anos de poder cansaram o cérebro e o corpo desta mulher notável. A verdadeira lição desse concerto de Wagner este Verão? Até grandes obras de arte podem prolongar-se demasiado tempo e terminarem muito, muito mal.

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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