Ginocídio

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A imagem da esquerda é fictícia: ainda não existem ventres artificiais, mas milhões estão a ser investidos nessa pesquisa, todos os anos. A da direita não só é real como pode ser comprada por 10 euros no site Wish: é um suporte “preguiçoso”, como o vendedor anuncia, de biberons. Qual a semelhança entre os dois equipamentos?

Ambos visam substituir a mulher.

A reprodução e a amamentação são super-poderes das mulheres. Se é exclusivo da biologia feminina, se só nós conseguimos fazer algo e os homens não, então é um poder. Não significa que cada mulher o tenha que usar, mas siginifica que cada mulher é biologicamente poderosa.

A prova de que são super-poderes está no patriarcado: a inveja masculina que há milhares de anos tudo faz para dominar estes nossos poderes. É essa inveja que se manifesta nos livros religiosos que promovem a pureza, castidade e fidelidade da mulher, nas leis que criminalizam o aborto, nas frases feitas “gravidez não é doença”.

As feministas há muito sabem que a nossa biologia é a raíz da nossa opressão. Mas a biologia não é o opressor. O opressor é a cultura (patriarcado). Não podemos confundir uma e outra. Quando dizemos que só as mulheres podem gerar crianças e amamentá-las, não estamos a dizer que todas as mulheres têm de o fazer e muito menos dizemos que as mulheres servem só para isso. É o oposto: isso só serve para as mulheres, porque só o nosso corpo o consegue fazer.

Um braço do feminismo cede à tentação de propor que as mulheres se desconectem desses poderes como forma de combater a opressão. Aqui incluem-se as feministas anti-natalistas, as lésbicas separatistas e outras que na senda do manifesto publicado por Shulamith Firestone, acreditam que a mulher é mais livre se não se reproduzir, se não amamentar ou mesmo se recorrer a ventres artificiais.

Fora do campo académico do feminismo, muitas mulheres hoje escolhem não amamentar ou desmamar cedo, fazer cesarianas electivas, tomar a pilula décadas a fim sem discutir outras formas de contracepção com o parceiro como vasectomia, etc. Por detrás destas “escolhas” – que não são tomadas num vacuum social – está constantemente presente a cultura machista que nos manda desconectar do nosso corpo, que tem nojo da fisiologia feminina, da forma do corpo feminino, da realidade do corpo pós-parto que ainda ontem à noite foi considerado “demasiado gráfico”.

Quantas vezes estas “escolhas” não são misoginia interna, repúdio do próprio corpo, vergonha da condição de fêmea? Mais fácil e tentador não chegar a analisar cada uma, e vê-las a todas como “escolhas da mulher”. Se ela escolheu, então não há machismo. Isto não é demasiado simplista? Não se está a silenciar nem a criticar essas mulheres, individualmente, mas a cultura dominante que promove o repúdio da mulher, da biologia feminina. O gaslighting machista que faz com que muitas mulheres não só não vejam os seus poderes como super-poderes, como ainda os rejeitem e odeiem.

Tenho a maior empatia pelo sofrimento destas mulheres, sei o que custa ser mulher neste mundo, e como seria mais fácil ser homem, equiparadas a eles.

Mas não amamentar não evita nem reduz a nossa opressão, da mesma forma que construir uma máquina para gestar fetos não acabará com o controlo dos corpos das mulheres pelo patriarcado. Muitas mulheres escolhem não ser mães ou secam o leite e continuam a ser descriminadas e oprimidas como as demais. Rejeitar a nossa biologia não nos protege.

Para clarificar: eu não acredito no instinto maternal, no sentido vontade incontrolável das mulheres serem mães. Acredito que não é para todas e sou defensora acérrima das mulheres controlarem a sua reprodução. Se tivessemos plenos direitos reprodutivos, a população mundial seria muito menor, tenho a certeza. Porque muitas mulheres escolheriam livremente não ser mãe.

Mas acredito também que nesse mundo feminista de sonho, se as mulheres que escolhessem ser mães – livremente e pelas razões certas – estivessem conectadas com o seu corpo, conhecessem bem os seus ciclos, a sua anatomia e fisiologia, controlassem a sua fertilidade e engravidassem quando só elas queriam (fim da violêcia sexual), passassem gravidezes tranquilas e felizes, deixassem o trabalho de parto iniciar naturlamente, libertando todas as endorfinas e hormonas que mascaram a dor, fossem ensinadas por mães mais experientes a dar o peito, a ajudar o bebé a pegar correctamente para nunca sentirem dor no aleitamento, dormissem perto do seu bebé, nunca o deixassem chorar, tivessem o apoio de uma comunidade mais alargada que prestasse todo o tipo de auxilio à mãe e bebé, tenho a certeza que quase todas as mães amamentariam prolongadamente. Mas é uma utopia, estou a descrever um mundo que não existe. Neste, a indústria do leite em pó vale 50 biliões e cresce anualmente. Neste, são raras as mães que amamentam exclusivamente os primeiros 6 meses, e mais raras ainda as que o fazem em conjunto com outros alimentos até aos 2 anos, pelo menos, como dita a OMS.

Pelo que o leite em pó ganhou. Uma invenção do homem com algumas décadas de existência, sobrepôs-se a milhões de anos de evolução mamífera. Claro que, como qualquer substituto artificial de um poder nosso, não presta por comparação: o leite materno é uma substância viva, com células estaminais que protegem o bebé de vários cancros. Já o leite em pó está “morto”.

E aqui entra a comparação inicial: devemos todas ter medo de qualquer substituto da mulher: leite em pó, robots sexuais e, o pior de todos, ventres artificiais. Nenhum destes são ferramentas da libertação da mulher, pelo contrário, podem ser as armas do nosso extermínio.

A primeira existe há várias décadas e já conseguiu dominar a alimentação infantil (pese embora os esforços da OMS), a segunda está numa nova fase com a AI e estamos a menos de 5 anos de ter robots sexuais hiper-realistas, e a terceira está a 20 anos de distância, com milhões a serem injectados nessa pesquisa. Acredito, como Andrea Dworkin, Janice Raymond e Catherine MacKinnon, que esse dia poderá ser o primeiro do nosso genocidio – o “ginocídio”.

Quando o homem exibe complexos de deus e tenta recriar a natureza, fá-lo à sua imagem: um ser que não consegue gestar uma criança nem produzir leite para a alimentar.

Este mundo odeia as mulheres, quando já não precisarem de nós para assegurarem a continuação da espécie, o que é que farão connosco?

30 COMENTÁRIOS

  1. Não sei pra quê tanto drama, aliás, vcs fêmeas deveriam ficar felizes que nós machos escrotos e estupradores em potencial estão substituindo vcs.
    Ppr mais que vcs se tornem descartáveis, ninguém vai sair por aí matando mulheres kkkk
    A única coisa que irá acontecer, e que eu já faço, é os homens não se importarem com a existência de vcs, e não mover um dedo para ajuda-las, eu por ex. nem olho na cara de mulher, e só falo o básico!
    Acho ótimo o rumo que o futuro caminha, e não vejo a hora da segregação dos gêneros de uma vez por todas.

    • Essa seria a nossa sorte: que vocês não se importassem com a nossa existência. Infelizmente, as estatísticas criminais provam o contrário.

  2. O feminismo venceu, na sua loucura está conseguindo criar a separação entre o masculino e o feminino. Homens não querem se relacionar com mulheres para formar famílias, ter um relacionamento amoroso, interagir com elas no trabalho, em momentos de diversão. No carnaval deste ano os homens heterossexuais evitaram o carnaval, se via pelas ruas um grande número de mulheres e homens gays, pois o temor de falsas acusações de importunação sexual e homofobia fez os homens se absterem da festa de momo. Muitos homens no Brasil sem filhos esperam chegar aos 25 anos para fazer uma cirurgia de vasectomia. O serviços de garotas de programa estão tendo um crescimento no Brasil, pois os homens preferem contratar uma profissional do sexo, ao invés de se arriscar em interagir com mulheres comuns e sofrerem falsas acusações de estupro. Homens não tem mais atitudes masculinas com mulheres, não querem mais protegê-las, provê-las, serem gentis ou cordiais, evitam para não serem taxados de machistas, o cavalheirismo está morrendo.

    • Ótimo, o cavalheirismo encapota a opressão feminina, é bom que morra mesmo. Não tenha medo do mito das “falsas acusações”, elas são uma agulha no palheiro. Como homem, você tem muito maiores chances de ser estuprado por outro homem do que ser falsamente acusado de estupro por uma mulher. Tranquilo.

  3. Tá reclamado atoa, não era isso que as feministas queriam? “Uma mulher precisa de um homem igual um peixe precisa de uma bicicleta” Você deveria está feliz, pois vão ser livres do patriarcado opressor que obriga vc a casar e a ter filhos.

  4. “Este mundo odeia as mulheres, quando já não precisarem de nós para assegurarem a continuação da espécie, o que é que farão connosco?”

    Eis a resposta: Nada.

    Pornografia e Dolls serão(e já são) substitutos para necessidade sexual.
    IA’s já serão substitutos para necessidade afetiva (esta aqui serve para os 2 gêneros)
    Úteros artificiais serão substitutos para a necessidade reprodutiva.

    A proteção e a força de trabalho que o homem possuía como virtude já foram substituídas.

    Hoje a mulher tem a proteção do Estado e a “força” das máquinas. Ele perdeu parte do seu valor.
    Os avanços tecnológicos farão o mesmo com a mulher, mas não acredito que irá virar um “ginocídio”.

    Homens não vão escravizar as mulheres nem descartá-las ou violentá-las. O homem vai começar a tratar a mulher como outro homem, sem exaltar ou colocá-la em algum pilar. Encontraremos por fim o verdadeiro “igualitarianismo”.

    Você não acha?

    • Não, não acho. Os homens já escravizam, descartam e violentam as mulheres. Não temos razão para acreditar que vão deixar de o fazer. Os homens jamais nos verão como se vêem a eles.

  5. Hola, Helena. Antes de tudo te peço perdão pelos comentários grosseiros e machistas dos meus conterrâneos brasileiros. Infelizmente com a internet e a eleição de um certo presidente, o facismo saiu dos bueros escuros. Agora temos que aguentar esse tipo de individuo que não tem um pingo de respeito por ninguém.

  6. Parece que tu acha que eu ou o homem tem que obrigatoriamente precisar de mulher para ter filhos…e sério? O valor da mulher é ter filhos? Machista você né?

    • Ninguém aqui defende a maternidade ou paternidade compulsória. O valor da mulher não é ter filhos, mas o valor de ter filhos, é da mulher. Só nós os conseguimos ter.

  7. Resolvi aprovar os comentários dos maluquinhos todos porque são assustadores e revelam que há, de facto, motivo para as mulheres temerem estas experiências.

  8. Tirando a parte da teoria de conspiração maluca femista. Toda tecnologia que vc disse e inevitável, Úteros artificiais, bem provável que o leite materno tb melhore com o tempo. Sobre a infertilidade do homem nada que uma terapia genética não resolva. As pesquisas de edição genética esta a toda vapor. O mundo do futuro não sera da muie nem do homem. Visto que hj com coquetéis de hormônios ja se torna difícil identificar um ou outro no futuro sera impossível saber talvez nem pelos genes se a pessoa nasceu com determinado sexo.

    • Lendo alguns dos comentários aqui, isto já não parece assim tão conspirativo…e eu não o assumi como um facto futuro inevitável, simplesmente fiz a pergunta e lancei potenciais implicações para discussão. O leite artificial até pode melhorar com o tempo, mas jamais chegará aos calcanhares do leite materno que tem milhões de anos de evolução mamífera por detrás.

  9. Ninguém em sã consciência defenderia ginocídio. O escopo da crítica é o alarmismo desnecessário que está sendo criado no artigo. Não distorça o que eu falei, por favor.

  10. Eu como home queria ter filhos mas com mulher não dá, elas encarecem a criação de um filho e podem pedir divórcio e levar a criança e ainda cometer alienação parental. E ainda tem a telefonia que faz ter filhos em um útero que já transou com vários caras não garantir que seu filho só tenha genes do pai e da mãe mas sim também terá de todos os caras que transaram com ela na vida. Aguardo o útero artificial pra realizar esse sonho.

  11. Jamais li um texto tão alucinadamente vitimista. É bizarro, mas útil para mostrar como o feminismo atual é ridículo e completamente alheio a realidade feminina.

    • Nós mulheres adoramos que um homenzinho nos venha explicar a realidade feminina e o feminismo. É preciso uma completa falta de noção para afirmar uma alarvidade dessas. O texto não é vitimista, visa precisamente realçar como as mulheres são poderosas.

  12. Pode chorar minha querida feminista. Espero do fundo do meu coração que todas essas pesquisas tenham um enorme êxito e que mais seja desenvolvido mecanismos que visem nos afastar (nós homens) de vocês. O MGTOW veio pra evolucionar todo pensamento masculino, e o movimento só cresce a cada dia que passa.

    • Obrigada pelo comentário Victor, e por provar o meu ponto.
      Pessoalmente sou grande entusiasta do MGTOW – se isso significar que escolhem todos ser gay e deixam finalmente as mulheres em paz. Infelizmente não parece ser o caso. Cuidado com o que deseja…a Mãe Natureza parece começar a responder ao seu desejo: a fertilidade masculina cai a pique (qualquer homem hoje é, literalmente, metade do homem que o seu pai e avô foram), o coronavirus afecta homens desproporcionalmente, e já é possível (e fácil) a reprodução de duas fêmeas. Deixo aqui os links para estes 3 factos científicos:
      https://www.menshealth.com/uk/sex/a28005220/male-infertility/
      https://www.nytimes.com/2020/02/20/health/coronavirus-men-women.html
      https://edition.cnn.com/2018/10/11/health/mice-unisex-reproduction-china-intl/index.html

      • Lhe darei o benefício da dúvida quando você fala (que ao meu ver insinua tendo em vista ser depreciativa) que o movimento MGTOW é um movimento de homens que por não ter relacionamento amorosos com mulheres, automaticamente são gays, como se ser gay fosse demérito. Por outro lado, somos homens que simplesmente não queremos nos envolver com mulheres que utilizam das suas prerrogativas de vítimas para estorquir e usar sempre o Sistema (geral) a seu favor.

      • Demérito? De todo! Ser homem gay é uma qualidade. Eu disse isso porque o contacto online que tenho tido com MGTOWs revela-me que são incels que só não têm companheiras porque não conseguem que mulher alguma se sinta atraída por eles. Mas se me está a dizer que é um movimento de homens que não quer ter nada a ver com mulheres (sem serem necessariamente gays), ó meu amigo, isso é win-win! É que as mulheres também não querem ter nada a ver com quem não reconhece o seu próprio privilégio e considera que este sistema patriarcal favorece as mulheres.

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