Na Índia, o cumprimento habitual entre as pessoas é Namasté, e foi esta a primeira ideia que me surgiu sobre a prática da empatia. Namasté, do sânscrito, significa “o divino em mim saúda o divino em ti”, e faz-se de mãos unidas em frente ao coração, em sinal de respeito. Que existe de mais empático do que o nosso melhor saudar o melhor do nosso semelhante?

Uma competência, não um traço de personalidade
Não sei quando depararam com a palavra empatia pela primeira vez. No meu caso, não foi na escola nem na universidade: à época reinavam as hard skills como donas das relações interpessoais. Foi em contexto laboral, quando editava um texto sobre um workshop de soft skills. Quando li a palavra pela primeira vez, nem lhe percebi a conotação positiva — talvez por me ter soado a “empata”. Tive de ir à origem etimológica: do grego empatheia, que significa paixão.
O essencial a reter é que a empatia é uma competência e, por isso, pode ser trabalhada, e não um traço fixo de personalidade. De acordo com o Dicionário Houaiss, empatia é o processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base nas suas próprias suposições, tenta compreender o comportamento do outro. Difere da simpatia, que é uma afinidade moral, e da compaixão, que é o sentimento piedoso perante a tragédia alheia acompanhado do desejo de a minorar.
As três formas de empatia
Para Jamil Zaki, professor de psicologia da Universidade de Stanford e autor de The War for Kindness, “a empatia é o equivalente humano a um recurso natural, e renovável”. A investigação demonstra que a sua prática caiu consideravelmente com a fraturação política, a crise de refugiados, a competição desenfreada nas empresas e a forma como utilizamos a Internet. Para Zaki, empatia é um termo-chapéu que engloba três formas de nos ligarmos às emoções uns dos outros.
- A empatia emocional capta exatamente os sentimentos de outra pessoa — se alguém leva com uma bola na cabeça, é como se sentíssemos um pouco da dor.
- A empatia cognitiva é a tentativa de compreender o que a outra pessoa está a sentir e porquê, sem sentir a dor.
- A compaixão empática é a motivação para melhorar o bem-estar dos outros.
Lições da Dinamarca
Na Dinamarca, as crianças têm aulas de empatia como parte do currículo oficial desde 1993. Segundo o World Happiness Report, um estudo anual patrocinado pela ONU, a Dinamarca é o segundo país mais feliz do mundo, perdendo apenas para a Finlândia, sendo a educação um fator crucial. As aulas, que decorrem todos os dias durante uma hora, centram-se no desenvolvimento das habilidades e talentos dos estudantes dos seis aos dezasseis anos: os alunos são desencorajados à competição e estimulados a conversar sobre problemas e sentimentos, a aceitar as diferenças e a promover a escuta ativa.
Em Portugal, foi criado em 2018 o projeto “Escolas de Empatia”, da organização não governamental Par — Respostas Sociais, nascido de uma adaptação do projeto europeu Houses of Empathy, com o objetivo de reduzir os índices de violência entre pares no contexto escolar. Está a ser implementado em parceria com a Associação de Pais numa escola básica em Alvalade, com todas as crianças do primeiro ciclo como público-alvo, e espera-se o alargamento a todo o país.
As cinco estratégias para desenvolver a empatia
| Estratégia | Em que consiste |
|---|---|
| 1. Compreender que é uma competência | Não é um traço fixo; as experiências influenciam-na, e quem sofre torna-se frequentemente mais empático |
| 2. Aumentar o contacto fora do “seu círculo” | Conhecer pessoas fora dos grupos habituais e procurar histórias que permitam uma “viagem mental” |
| 3. Praticar a auto-compaixão | Modular a empatia conforme necessário, sem esgotamento; pode ser cultivada pela meditação |
| 4. Utilizar a Internet de forma sensata | Reconhecer que a conceção persuasiva das redes tira partido de instintos irracionais |
| 5. Ajudar a construir sistemas empáticos | Fazer da bondade uma expectativa reconhecida e recompensada nos locais de trabalho e nas escolas |
A empatia irrompeu com a pandemia
A empatia irrompeu pelo léxico dos portugueses a partir da pandemia. Desdobraram-se iniciativas para mitigar o sofrimento de quem ficou sem trabalho, sem capacidade de alimentar os filhos ou sem máscaras. Entre eles, a Caixa Solidária, que colocou caixas em bairros de Lisboa sob o mote “Leve o que precisar, deixe o que quiser”, e a Máscara Solidária, um modelo de máscara em tecido replicável e entregue nos lares de todo o país. Houve também vários webinars, entre os quais o organizado pelo ACP sob o desígnio “É tempo de Empatia”.
Zaki afirma que as pessoas podem canalizar a sua empatia para a construção de “sistemas de bondade”, mudando o que é valorizado nos locais de trabalho e nas escolas. “Não somos meros indivíduos a lutar para empatizar num mundo de crueldade”, realça. “Somos também comunidades, famílias, empresas, equipas, cidades e nações que podem construir bondade na nossa cultura.” Por isso, sejamos mais empáticos — e menos empatas. Namasté!
