SIN VINO NO HAY CAMINO! Parte V — Pernas com corpos, celas imaculadas e a conquista da Compostela. Texto de Mariana Tavares Beleza, fotorreportagem de Marta Gonzaga. De Vilanova de Arousa a Santiago de Compostela, a última etapa.

De Padrón a Santiago de Compostela
Uma vez chegadas a Padrón, finaliza a Variante Espiritual — sendo que fizemos uma variação à variante, ao percorrê-la em quatro etapas em vez de três —, ao unir-se ao Caminho Português tradicional. Restavam 25 quilómetros até Santiago de Compostela e a certeza, mesmo sendo a única etapa onde ultrapassávamos a marca dos 20, de que a percorreríamos serenas. E sem maleitas. Havíamo-nos transformado em autênticas pernas com corpos, em vez de corpos com pernas.
Cinco horas de passadas, paragens estratégicas para alongar (ou para uma taça e uma tapa, isto mais para o final), alguma tagarelice, emoções várias. Atravessámos um vale pincelado de aldeias tradicionais e santuários em granito, a abrir o pano para a tão ansiada catedral dos peregrinos. Em meio, uma surpresa, mais para a peregrina alemã que encontrámos: não é que esta caminhante vinha a fazer o Caminho Português tradicional há seis dias e era a primeira vez que avistava outros peregrinos? Esboçou um sorriso largo e confessou-nos: «a encontrar alguém, que fosse agora. Não me apetecia nada chegar a Santiago sozinha.»
A credencial e o diploma
Ia-me esquecendo de um detalhe fundamental: a credencial do peregrino, que a Marta adquiriu na Sé de Lisboa uns dias antes da partida. Carimbada a cada paragem, era este «passaporte jacobino» que comprovaria os mais de 100 quilómetros percorridos a pé e oferecia direito à Compostela, o diploma outorgado pelas autoridades eclesiásticas que atesta a vivência desta peregrinação. Bem que podia ter perdido o cartão de cidadão em Pontevedra; a dita credencial, é que não.
| Elemento | O que é | Onde se obtém |
|---|---|---|
| Credencial do peregrino | «Passaporte» carimbado em cada paragem | Sé de Lisboa, antes da partida |
| Compostela | Diploma eclesiástico da peregrinação | Autoridades eclesiásticas, em Santiago |
| Requisito | Mais de 100 km percorridos a pé | Comprovado pelos carimbos |
A chegada à cidade
No caminho, quisemos reservar albergue, mas a argentina foi perentória: «Em Santiago, hospedamo-nos no Mosteiro de San Martín Pinario, na praça adjacente à da catedral. Não se vão arrepender.» Confiámos. Os arrabaldes de Santiago assemelhavam-se a um qualquer subúrbio onde predomina o alcatrão e se erguem edifícios descaracterizados. De pouco nos importava essa fealdade: estávamos em contagem decrescente para uma sensação ainda desconhecida.
Eis que o arco-íris surge no horizonte para nos saudar e relembrar que estávamos na reta final para alcançar o pote de ouro tão ansiado. A paisagem começou a harmonizar-se quando entrámos no centro histórico. As pernas levitavam e todo o esforço se transmutara num estado de fluidez que era uma estreia, passadas tantas passadas. Silenciámo-nos e demos as mãos ao percorrer a Praza das Praterías, com a sua Fonte de Cavalos de pedra, a segredar-nos que também nós estávamos próximas de saciar a sede. Uma sede de luz, presença e paz interior, que emana da contígua Praça da Catedral, onde entrámos de lágrimas nos olhos e sorriso em riste.
«Consegui»
Ao silêncio aconchegante seguiu-se um estrondo de alegria, com a nossa amiga a atirar a mochila ao ar, acompanhada de um grito inteiramente libertador: «Consegui». E havia conseguido tão mais do que caminhar uma longuíssima distância. A cada passada inicial, uma dor de amor, progressivamente mitigada até se haver transmutado, por via do movimento desgastante, em memória longínqua, aceitação e perdão, saudade serena.
Abraçámo-la e sentámo-nos no chão a admirar as torres do imponente templo românico e a sentirmo-nos também a tocar o céu. O quarto elemento partiu à sua vida, tão depressa como se nos chegou, depois de uma troca de olhares agradecida. As placas no chão, no centro da praça, dizem Itinerário Cultural Europeu e Património da Humanidade pela Unesco, e são ilustradas pela omnipresente vieira. É tradição juntar os pés em cima desta vieira e entoar uma pequena oração de gratidão.
A catedral e a bênção do peregrino
Na verdade, a chegada a Santiago foi mais impactante do que a Fátima, o que se afigurava difícil. Talvez o crescimento e a maturidade desempenhem um papel preponderante na maior intensidade do sentimento: alegria, paz interior, tumulto sereno, conexão com o cosmos, compreensão da peça que somos neste complexo puzzle denominado Humanidade. A praça não estava cheia, mas o nosso coração transbordava.
- Entrámos na catedral, a casa do túmulo de Santiago Apóstolo.
- Escutámos a Santa Missa e recebemos a bênção do peregrino.
- Pernoitar no Mosteiro de San Martín Pinario valeu todos os euros: uma cela em pedra, lençóis e atoalhados imaculados, atmosfera monástica do século XVI.
- Brindámos ao sonho realizado, com vino e cañas, e deliciámo-nos com tapas bem aviadas.
No dia seguinte, tomámos o pequeno-almoço e fomos receber a Compostela que tão firmemente conquistámos. Despedimo-nos da corajosa companheira desta etapa, com promessas de manter contacto e quiçá visitar a sua terra natal, e apanhámos o expresso para Valença. Com três certezas: o Caminho não acabava ali, pelo contrário, começava; havíamos de regressar; e que, «sin vino no hay camino!».
