Princípio: não consumir comunicação social só masculina

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Tenho encontrado exemplos muito perturbantes – desde logo pela quantidade – de tiradas de um sexismo carregado vindo de homens ligados ao jornalismo. E uma alergia ao feminismo que vejo como muito contrária ao espírito aberto, curioso, crítico do status quo e até justiceiro de que um bom jornalista deveria ser dotado. É certo que são tendencialmente mais velhos que novos, mas isso não é grande consolo, porque são os que têm mais influência.

Tem-me acontecido frequentemente deparar com opiniões pelas redes sociais que me fazem pensar tratar-se o seu proprietário do comum recém apaixonado por André Ventura, para depois descobrir que se trata de alguém que trabalha na comunicação social. Não são os big shots dos media, claro. Porém, se não tenho grandes escândalos com tiradas dos decisores mais high profile, na verdade a comunicação social parece ter uma clara preferência pelas vozes masculinas.

Temos uma persistente falta de mulheres em locais de visibilidade nos espaços públicos mediáticos. O que significa que a realidade está toda a ser relatada e interpretada – e, donde, transformada e influenciada – quase exclusivamente pelos pontos de vista masculinos. (E brancos, também.) Pelo que maioritariamente os assuntos que contam e são determinantes para defesa dos interesses masculinos são os debatidos, escrutinados, propostos. Está estudado, para a política, que a presença de mulheres é o fator determinante para se discutirem nos parlamentos os problemas específicos de mulheres. Nos media sucede o mesmo. Os homens, como qualquer ser humano, têm mais atenção aos seus próprios desafios e necessidades.

Para a política já temos a Lei da Paridade, ainda que com falhas e sem contemplar as composições dos cargos políticos executivos. Para as empresas, nas chefias e nos conselhos de administração, serão necessárias grandes mudanças – desde logo porque há lacunas no mercado que os homens ou não entendem ou não querem dar resposta porque julgam que o mercado feminino (só mais de metade da população) não é relevante. Mas os meus cêntimos sobre isto vão ficar para outro dia.

Hoje quero comentar a falta de mulheres nos jornais, rádios de notícias e comentário e nos espaços informativos e de debate nas televisões. Ou a falta de programas de interesse para as espetadoras mulheres, face à hegemonia de programas de debate sobre futebol – o absoluto enjoo – ou de outros desportos ou de carros. Para nem referir a transmissão dos jogos de futebol.

Por estes dias, com o início das primárias americanas, para escolherem o candidato democrata à presidência nas próximas eleições de novembro, tive na CNN painéis de comentadores sempre com profusa participação de mulheres e em alguns casos até eram maioritárias. Por cá temos noites eleitorais com painéis que são com frequência exclusivamente masculinos.

A maioria dos programas de televisão informativa ou de debate de questões sociais ou políticas tem uma esmagadora maioria de homens. Os comentadores de topo (ou assim considerados; eu vejo-os como muito pouco interessantes), com programas a solo, são, tirando Manuela Ferreira Leite, todos homens.

Não estive a fazer as contas, mas Rita Figueiras já fez e 82% dos comentadores que passaram pela televisão de 2000 a 2017 foram homens. É um número horripilante. Nos jornais o panorama é semelhante: há bastantes jornalistas, só dois órgãos de comunicação social são dirigidos por mulheres (RR e Visão) e pouquíssimas opinadoras.

Verdade que muitos homens consideram que é ouvida a opinião que interessa – a masculina -, mas o estado de coisas é um empobrecimento do debate, um afunilamento dos temas abordados, e – também – uma perda de potenciais leitores e espetadores. Há uns tempos o Financial Times aumentou o número de colunistas femininas do jornal porque concluiu que as mulheres liam mais artigos que contivessem fotografias de mulheres. E, inteligentes, queriam aumentar o seu mercado potencial e o número de consumidores. Por cá este estratagema não parece encantar.

Já há o efeito de as mulheres se desinteressarem de produtos só com homens e não lerem e não darem audiências. Boa. Mas é preciso reforçar. Julgo que uma forma de forçar o mercado a mudar – qualquer ele – é o uso do poder enquanto consumidoras. Se não há representação adequada de mulheres num determinado produto mediático, eu não o consumo. Se não consideram o contributo e a opinião das mulheres relevante, então também não podem querer ganhar dinheiro com quem não consideram digno de divulgar.

É uma sugestão que faço. Começarmos todas e todos a não dar audiências e a não ler os produtos televisivos e jornalísticos que não têm uma presença feminina generosa.

 

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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