O ombro da deputada britânica e os fundamentalistas sexistas ocidentais

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Reli há poucos dias, para um ensaio que estou a escrever, Mona Eltahawy em Headscarves and Hymens, Why the Middle East Needs a Sexual Revolution. A autora às tanta conta como entrevistou o líder supremo da Irmandade Muçulmana e ele lhe referiu que acreditavam tanto na pluralidade que até aceitavam conversar com mulheres nuas: ela, Eltahawy, que estava sem véu e com os braços descobertos. Donde, nua.

Ora por estes dias sucedeu algo absolutamente sem interesse e sem importância. Uma deputada trabalhista britânica Tracy Brabin, enquanto falava no parlamento, teve a sua roupa descaindo no ombro, que ficou à mostra (de resto era o modelo do vestido).

Viu-se, portanto, o ombro da deputada. O escândalo. Um ombro. Onde vamos parar com estas mulheres sem vergonha a despirem-se assim nos parlamentos em frente às televisões. Não se riam: houve mesmo quem aproveitasse a oportunidade para rasgar as vestes, escandalizar-se como se algo de grave tivesse ocorrido, insultar de prostituta e alcoólica para baixo a deputada.

Juntou-se tudo: o ódio político partidário que agora há quem eleve a fim último da atividade política, aproveitando-se qualquer não assunto para fingir que é muuuuuuuuuuuito grave e inaceitável e o lado político oposto é de perigosos exterminadores da humanidade.

Mais a misoginia do debate público, que aproveita qualquer não assunto totalmente inócuo que provenha de uma mulher política para lhe dar pancada como se não houvesse amanhã, porque atualmente as mulheres com visibilidade são alvos a abater. As mulheres são submetidas a um escrutínio insano, agravando-se hipocritamente qualquer falha – ou suposta falha – que num político homem não faria levantar uma sobrancelha, como se qualquer passo em falso, ou inventado passo em falso, fosse um sinal de apocalipse e de mundo a terminar. Que, claro, só se evitará com grande gritaria histérica de censura à mulher, de modo a propiciar o seu afastamento.

É uma forma de estabelecer que as mulheres têm bitolas obrigatórias mais altas que os homens, que a prestação normal e mediana que se exige aos homens é insuficiente para as mulheres, que têm de ser perfeitas, imaculadas, seguir regras mais estritas e de propriedade, incluindo na roupa e na postura pública – que evidentemente não se aplicam aos homens. É uma forma de colocar as mulheres em desvantagem, de as obrigar a tarefas e preocupações acrescidas – em vez de se dedicarem só ao seu trabalho, que é o que se pede aos homens.

Ainda: teve pitadas grandes do conservadorismo misógino crescente do debate público para os lados das novas direitas populistas, em passos largos a aproximarem-se da ideologia supremacista masculina dos islâmicos mais conservadores. As mulheres devem estar tapadas, um ombro à mostra é um escândalo, escárnio e vergonha devem ser vertidos em cima da meretriz que desafia as convenções mais obscurantistas.

As mulheres ou estão quietas, preferencialmente caladas e sorridentes, de roupa extensa que lhes tolhe os movimentos (que a liberdade de movimentos das mulheres é sempre de causar transtornos), contidas, confinadas – ou são as tais meretrizes a enxovalhar sem fim. Nos países islâmicos quem não segue as regras de vestuário religiosamente impostas também é uma mulher fácil a pedir maus tratos. Nas comunidades muçulmanas na Europa, as raparigas usam véu para se livrarem de assédios e violações pelos rapazes e homens seus vizinhos.

Outra iniquidade que se juntou: a incapacidade de julgar as mulheres pela mensagem que transmitem, em vez de pela sua aparência (como a própria Traby Brabin constatou). É uma forma do mundo sexista informar: o que vale na mulher é a agradabilidade da sua apresentação, não aquilo que diz e aquilo que pensa e propõe.

Por fim, é novamente a exigência que as mulheres, para serem aceites profissionalmente e levadas a sério, tenham que emular os homens – quer no tom de voz, quer na forma de debater, quer nos temas abordados, quer, até, na roupa. Como se os homens fossem o maior denominador comum da humanidade ou o estádio humano mais avançado a que se pode aspirar.

Não, as mulheres não têm de abandonar os seus trajeitos, as suas roupas, as suas expressões, os seus tempos, os seus objetivos, a sua forma de comunicar, os seus corpos para se tornarem mais masculinas. Os homens não são paradigma da humanidade. São metade da humanidade, têm pontos de vista extremamente necessários, hábitos e temas e assuntos de estimação respeitáveis, formas muito válidas de trabalhar e de se apresentarem, mas helás, não têm de impor à outra metade como se deve portar e apresentar. É mais uma barreira às mulheres, que em vez de se preocuparem, novamente, com o seu trabalho, teriam de estar preocupadas em não salientar muitos as diferenças que têm face aos homens.

Minhas caras e meus caros: nem pensar.

Estes casos não são pormenores. São sintomáticos do endurecimento machista do espaço público. Repúdio é a única resposta possível. Sobretudo das mulheres: estas questões – e outras primas destas – não têm a ver com lutas políticas, mas com os esforços de diminuição do arco de atuação das mulheres, e que afeta a absolutamente todas, de qualquer inclinação partidária e de qualquer profissão.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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