Sandra Isabel Correia: usar o poder do Amor e da Ação

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Fotografia de São Nunes.

Quando perguntei a Sandra Isabel Correia onde queria ser fotografada para a Capital Mag, a resposta foi pronta: num jardim, para ter verde e natureza. A primeira escolha foi o Parque Eduardo VII, mas as vicissitudes da possibilidade de chuva levaram-nos para a Gulbenkian, onde conseguiríamos estar abrigadas com vista de verde através dos generosos vidros se a chuva nos perseguisse. Não perseguiu, e tivemos um tempo para a nossa conversa e para a sessão fotográfica muito de acordo com Sandra Correia: radioso, luminoso, caloroso, alegre, acolhedor. Um dia de inverno de sol, nada mais adequado à nossa convidada.

Custa descrever Sandra Isabel Correia. É positiva, otimista, ativa e pró-ativa, de cabeça criativa, com boa energia contagiante. Daquelas mulheres que faz acontecer em vez de esperar, que descomplica e resolve em vez de complicar. Inevitavelmente, já esteve envolvida em muitos projetos, criou e inovou, teve uma carreira e um percurso repleto de pontos de interesse.

Comecemos por um dos projetos que agora mais lhe toma o tempo, e que nos trouxe a esta conversa: o Planetiers World Gathering, evento que se vai realizar na Altice Arena de 23 a 25 de abril de 2020. Sandra descreve-o como ‘a websummit da sustentabilidade’. O objetivo deste mega evento é mostrar as soluções que há ao nível da inovação para responder aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidas pelas Nações Unidas.

Vai juntar ‘speakers nacionais e internacionais, empresas que trabalham na área da sustentabilidade, start ups, sustainable communities, cidades, investidores, famílias’. Todos escolhidos ‘para mostrarem ao mundo o que estão a fazer por um desenvolvimento sustentável’. E, muito importante, junta a sociedade civil, na forma do público que vão acolher. O Presidente da República, sensível a este tema, vai estar presente na cerimónia de abertura.

A sustentabilidade que o Planetiers World Gathering vai promover, tal como os 17 ODS, é uma sustentabilidade abrangente. ‘E uma sustentabilidade que não tem só a ver com verde’, explica Sandra Isabel Correia, ‘os direitos humanos são sustentáveis, low poverty, no hunger, igualdade de oportunidades entre toda a gente’, tudo isto é necessário para o desenvolvimento sustentável. Daí trazerem um leque de pessoas diversificadas para os painéis, incluindo por exemplo o Médico Sem Fronteiras Gustavo Carona, que trabalha em Moçambique e tem problemas com as condições dos partos naquele país: a ideia é trazerem problemas para o evento e as organizações que se associam levarem soluções.

Esta mistura entre ativismo, idealismo e getting things done assenta que nem uma luva em Sandra. Por isso mesmo foi convidada por Sérgio Ribeiro para se envolver no Planetiers World Gathering com funções diversificadas: de international advisor, para trazer speakers internacionais, criar os conteúdos do evento, fazer a comunicação e ainda ter a cargo a área diplomática. Ufa.

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Fotografia de São Nunes.

O evento é organizado pela Planetiers – loja online só de marcas de produtos sustentáveis -, por Sérgio Ribeiro, pela Douro Generation – organização sem fins lucrativos – e pela Altice Arena. Em abril teremos a primeira edição em Lisboa, e será para repetir anualmente.

Além de juntar ideias, pessoas,, informar e abrir a discussão sobre esta sustentabilidade abrangente, em termos mais práticos o Planetiers World Gathering pretende ‘mostrar as soluções que já existem pelo mundo’ e respondem a problemas comuns a outros locais e pessoas, ‘trazer investidores para as start ups que estão a começar’ nas áreas das 17 ODS e, por fim, ‘criar um fundo para investir na sustentabilidade, de modo que no dia 26 de abril este fundo invista em soluções reais para que todos em conjunto possamos inverter o caminho onde estamos e criar um mundo melhor’. É pragmática: ‘a sustentabilidade de que falamos tem de ter retorno financeiro, tem de ser negócio, tem de ter rentabilidade, deixou de ser só um ativismo’.

Será sem dúvida um evento a acompanhar. No palco Tejo haverá as talks, e paralelamente existirão mesas redondas relacionadas com os 17 ODS. Uma delas será do Women’s Club, outro dos muito interessantes projetos de Sandra Isabel Correia e que está em transformação e em busca do caminho que faz sentido agora.

A propósito de caminho, vejamos algumas partes do de Sandra, que é também um caminho de inovação, procura, encontro com os outros.

Em 2003, Sandra Isabel Correia criou o primeiro guarda-chuva em pele de cortiça e a Pelcor, a primeira marca de acessórios de moda em pele de cortiça. O que agora vemos em numerosas lojas de acessórios e de souvenirs começou com a nossa entrevistada. Por esta inovação, recebeu em 2011 o Prémio Melhor Empresária Europeia do Parlamento Europeu, e, por cá, o Prémio Máxima 2012 Mulher de Negócios.

Também lhe trouxe ‘visibilidade num mundo muito masculino, o do negócio da cortiça’ e uma certa representação das mulheres empresárias portuguesas. ‘Fui porta-estandarte do empreendedorismo feminino português cá e lá fora’. Desde logo porque ‘temos um grande tecido empresarial feminino, mas não se quer mostrar’. Para os painéis organizados pelo IAPMEI, Sandra era sempre convidada e era sempre a única mulher – ‘onde estão as mulheres?’, perguntavam-lhe quando sugeria que convidassem outras.

(De resto é favorável às quotas nas empresas precisamente para obrigar as mulheres a almejarem os lugares de topo, que julga que as mulheres normalmente não querem, parece que ‘as mulheres têm vergonha de se emanciparem’ – ‘porque fomos reprimidas durante séculos, está na nossa memória celular, e na nossa consciência inconsciente’. As quotas podem quebrar isso.)

Numa vida de quinze anos de empreendedorismo, abriu lojas em Shanghai e no Soho em Nova Iorque, o que a obrigava a estar em permanente viagem pelos três continentes com uma intensa vida profissional. Um dia, aos quarenta e poucos anos, decidiu que queria mudar de vida. ‘Vendi a empresa e pensei: vou um movimento para homens e mulheres, claro que o target era mais feminino, e assim nasceu o Women’s Club’.

Nasceu da experiência que tinha vivido em Nova Iorque com o Portuguese Circle, que todos os meses organizava um encontro naquela cidade para os portugueses que lá viviam se pudessem encontrar e tomar um copo. Servia também como rede de networking: quem precisava de chegar a um cliente tinha outro português que lhe abria caminho, se precisava de um advogado alguém aconselhava.

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O Women’s Club seguiu filosofia parecida. Sandra Isabel Correia organizava um encontro uma vez por mês num bar de um hotel, para homens e mulheres, com uma convidada. E ‘todos tinham voz, tinham trinta segundos para falarem, dizerem quem eu sou, o que faço, o que preciso’. Acolhia toda a gente e dava voz a toda a gente. Pretendia a igualdade de género mas sobretudo a igualdade de oportunidades. É um ‘movimento assente numa igualdade plena’.

É um movimento, o primeiro deste género em Portugal, são pessoas, não é uma associação. ‘Ao fim de dois anos, teve muito sucesso, mas já deu o que tinha a dar, este registo já chega.’ E, por agora, Sandra Isabel Correia está a ponderar que nova direção deve dar ao movimento. Tem uma parceria com o Change It, de Ana Rita Clara, e porventura o futuro do Women’s Club irá mais na linha dos Direitos Humanos. A ideia é ‘abrir, não focar só no feminismo, mas abrir’ E constata: ‘não são só as mulheres que não têm voz, os homens também não têm.’

Daí esta associação ao Planetiers World Gathering. E também a um outro novo desafio. ‘O meu mais recente projeto chama-se “O Amor existe”, é a minha marca, que está registada em Portugal. Criei a Academia O Amor Existe.’

E o que é esta Academia O Amor Existe? É novamente encontro de pessoas. Têm uma reunião mensal de trabalho de quatro horas, com a ‘técnica peer to peer, conceito americano que não usamos muito em Portugal’, caracterizada por uma horizontalidade hierárquica, tem um orientador mas estão todos os participantes ao mesmo nível. A ideia é ‘partilhar um problema que tem, algo que tem de solucionar na sua vida profissional, e os outros partilham uma experiência em que já tenham resolvido esse problema’. Assim, ‘cada um, através da experiência dos outros vai buscar sabedoria para resolver o seu problema. A sabedoria não vem dos livros, mas da vivência do ser humano.’

Para além disto, têm também mentorias individuais com Sandra Isabel Correia, uma ‘mentoria profissional ao serviços dos empreendedores’, que tem como objetivo ‘potenciar o talento das pessoas’.

E a razão da escolha deste nome? Sandra Isabel Correia vê nos seres humanos bloqueios profissionais que se devem à esfera pessoal. Dá um exemplo: ‘às vezes não é não termos o cliente certo, somos nós que bloqueamos o caminho para chegar ao cliente certo, ou porque temos medo, ou temos medo de falhar, começa o meu auto julgamento, a minha culpa’. Continua: ‘o objetivo da Academia é desconstruir estes bloqueios, que muitas vezes são só crenças de que nós não somos capazes’.

‘”O Amor Existe” porquê? Porque todos nós esquecemos que somos amor e que temos amor dentro de nós, preocupamo-nos com o que os outros pensam, acusamos muito os outros.’

Comentámos a paradoxal tendência do mundo de usar as riquezas já obtidas para continuar a trabalhar em excesso e valorizar mais a continuação do enriquecimento com sacrifício do desenvolvimento pessoal, das relações pessoais, do bem-estar.

‘Não podemos obrigar as pessoas a acordarem, só acordam quando têm um cataclismo na vida ou à sua volta.’ E Sandra exemplificou com o cenário político atual. ‘Temos um Trump nos Estados Unidos, um Bolsonaro no Brasil e um Boris Johnson na Europa. Até à chegada destes homens ao poder estava tudo acomodado. Eles vieram-nos acordar, picar. Estes homens vieram lembrar-nos que não estávamos a fazer o suficiente. Entram nas nossas entranhas, e nós dizemos que não aceitamos isto e vamos lutar. Eles são o mal, são o diabo que vai trazer o bem, mas neste percurso muitas calamidades sociais e económicas vão acontecer. Nós não sabemos acordar de outra forma.’

E remata: ‘o que podemos fazer individualmente é oferecer o nosso insurgimento. Se cada um fizer a sua parte no seu mundo, a mudança é muito maior.’ Sandra Isabel Correia, ninguém duvida, dá o seu contributo e faz a sua parte, no mundo dos negócios e no ativismo. E nós ficamos a ganhar.

 

Texto de Maria João Marques. Fotografias de São Nunes,

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