Maestrinas da nossa própria história

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Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.” Livro do Desassossego. Fernando Pessoa

À beira de um novo confinamento, falemos de Cultura. À beira de falências (várias), falemos das Artes.

Falar sobre Cultura e Artes em tempos de pandemia, em que o coronavírus anda descontrolado pelo Mundo, em que muitos lutam, diariamente, pela sobrevivência, pelos seus negócios, pela sua dignidade, poderá, para muitos, parecer irrelevante.

Não é.

Comecemos pela estatística. Melhor, comecemos pelas pessoas. Em 2019, em Portugal, a população empregada no sector cultural e criativo foi estimada em 132.200 pessoas. E como sabemos, o sector das atividades culturais e artísticas é um dos mais afetados pela situação atual. De acordo a APEFE – Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos, “o mercado dos eventos culturais foi um dos sectores mais afetados desde o início da pandemia, registando no período de Janeiro a Outubro de 2020 uma quebra de 87% face ao ano anterior.“ Fiquemos por estes factos.

Continuemos pelo confinamento de Março/Abril de 2020. E pelos que venham. A cultura pode parecer coisa de menos com tantos problemas que o Mundo enfrenta. Mas se formos a pensar, também foi a cultura, a arte, a música, a poesia, o cinema, as séries que nos acompanharam e acompanham em tempos de isolamento e distanciamento físico e social. A criação artística é para mim quase tão fundamental e vital como termos uma ou duas caixas de ben-u-ron na gaveta em caso de necessidade.

Foquemo-nos na Cultura e na Arte como poderosos instrumentos de desenvolvimento e inclusão social.

Em exemplo entre muitos. Glass Marcano, uma jovem venezuelana que em 3 meses deixou de vender fruta na sua cidade em Yaracuy, no centro oeste da Venezuela, e passou a reger uma orquestra em Paris.

Gladysmarli Del Valle Vadel Marcano, de 24 anos, foi uma das 12 candidatas presentes no Concurso La Maestra – International Competition for Women Conductors, em Setembro de 2020, organizado pela The Philharmonie de Paris e pela Paris Mozart Orchestra.

Vendeu fruta e comprou roupas para participar na competição em Paris. Saiu da Venezuela, em setembro, num voo humanitário e chegou a Paris poucas horas após o início da competição. Não venceu o concurso, mas subiu ao pódio. Ganhou um prémio especial, o Orchestra Prize.

A história de Glass destaca-se pela determinação e coragem que demonstrou e pelo que conseguiu alcançar em plena pandemia. Surpreendeu júris pela qualidade da sua regência e por ter chegado a uma semifinal com um nível tão alto na competição.

A história de Glass Marcano é uma de tantas outras histórias inspiradoras de milhares de jovens que deixaram a Venezuela, nos últimos anos, para fugir da crise e ir atrás de seus sonhos. Tal como Glass, muitos foram ou são alunos do El Sistema, Sistema Nacional das Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela, que tem na Orquestra Sinfónica Simón Bolívar o seu expoente máximo de qualidade. É um programa de ação social e formação de jovens músicos, criado, em 1975, pelo Maestro José António Abreu, mentor do maestro Gustavo Dudamel, considerado um dos melhores do mundo.

Nas palavras de José António Abreu, em 2008, “O El sistema é um programa de resgate social e de profunda transformação cultural, elaborado para toda a sociedade venezuelana, sem quaisquer distinções, mas com especial ênfase nos grupos sociais mais vulneráveis e ameaçados”.

O El Sistema é um modelo reconhecido internacionalmente e encontra-se replicado em várias partes do Mundo. Foram criados, em mais de 70 países, núcleos orquestrais e programas de ensino inspirados no programa venezuelano.

No nosso País, o projeto chama-se “Orquestras Sinfónicas Juvenis” – Orquestra Geração, projeto de intervenção social, considerado socialmente inovador, que pretende promover a inclusão social de crianças e jovens em risco, através da música, em particular através da prática coletiva e orquestral. A Orquestra Geração surgiu, em 2007, por iniciativa conjunta da Escola de Música do Conservatório Nacional, da Câmara Municipal da Amadora e da Fundação Calouste Gulbenkian, com o apoio do programa EQUAL (Fundo Social Europeu). Neste momento estão envolvidas no projeto cerca de 1170 crianças e jovens, dos 6 aos 20 anos de idade.

A poderosa imagem de Glass poderia ter várias legendas. Escolho uma de Clarice Lispector, em Perto do Coração Selvagem:

A Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Confinemos, então, com a Liberdade e as emoções que a Cultura e as Artes nos proporcionam. Nas páginas de um livro, com auriculares nos ouvidos ou num ecrã perto de si. Por agora.

Imagem: Glass Marcano Facebook

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