Uma violação é sempre um dos piores crimes — apesar de, em Portugal, nos poucos casos de condenação judicial, ser normalmente premiada com pena suspensa. As violações de guerra conseguem ser ainda mais insidiosas e criminosas, por vários motivos. Geralmente ocorrem em massa, vitimizando um grande número de mulheres, e muitas vezes as vítimas são submetidas a violações em grupo por vários soldados.

Para lá da agressão física
Uma violação não é grave e traumatizante apenas pela agressão física que também é. É grave e traumatiza porque retira totalmente o controlo e a agência sobre si própria à mulher, mesmo sobre a sua intimidade. É grave e traumatiza porque desumaniza: a mulher é nada mais do que um corpo, um objeto que existe para uso sexual ou político de terceiros. Tudo isto concorre para o trauma — a desumanização, a falta de controlo sobre si, além da violência.
Tal como se incendeiam casas e carros, se destroem colheitas, se pilham monumentos e se saqueiam bens dos civis, na mesma linha de dar cabo de coisas violam-se as mulheres do lado inimigo. Bombardeiam-nos uma aldeia, uma fábrica ou uma coluna de tanques e nós, como desforra, destruímos as vossas coisas: violamos as vossas mulheres, por exemplo.
Estratégia militar a longo prazo
As violações em massa acontecem frequentemente quando há disputas étnicas ou religiosas, de modo a engravidar à força as mulheres do lado inimigo, que assim vão gerar filhos que não são nem da etnia pura nem da religião da mãe, da família e da comunidade. Além da diluição, geram-se problemas sociais: crianças abandonadas ou desprezadas pela comunidade, mulheres repudiadas pela família, laços familiares desfeitos e comunidades com um trauma coletivo a somar aos traumas individuais. Quanto mais o inimigo estiver enredado em problemas sociais, menos capacidade estratégica militar ofensiva ou defensiva terá no futuro.
Da Bósnia a Bucha
Aconteceu, com este objetivo, há duas décadas e meia na Europa, na guerra da Bósnia, onde se criaram “campos de violação” para engravidar à força mulheres muçulmanas bósnias. Acontece presentemente com as mulheres rohingya na Birmânia. As violações de guerra em massa são o clímax da objetificação e da desumanização das mulheres e estão agora a acontecer massivamente na Ucrânia, perpetradas pelos soldados russos.
Inicialmente, a Human Rights Watch confirmou a violação de uma mulher em Bucha. A deputada ucraniana Lesia Vasylenko vinha reportando violações de mulheres e de crianças de dez anos. Entretanto, as notícias tornaram-se ainda mais horríveis, com relatos de violações recorrentes em Bucha, onde pelo menos vinte e cinco mulheres — a mais nova com catorze anos — foram repetidamente violadas por soldados russos e nove estão agora grávidas. A União Europeia recebeu uma lista com cento e cinquenta casos de mulheres violadas por soldados russos.
O que se sabe sobre os casos na Ucrânia
| Indicador | Informação reportada |
|---|---|
| Bucha | A Human Rights Watch confirmou a violação de uma mulher |
| Bucha (violações recorrentes) | Pelo menos 25 mulheres, a mais nova com 14 anos; 9 grávidas |
| Kherson | Relatos de violações por soldados russos |
| Lista entregue à UE | 150 casos de mulheres violadas |
| Depoimento intercetado | Conversa em que se sugere violar ucranianas “desde que com proteção” |
O mesmo crime, em todos os continentes
Tudo isto concorre para um quadro que se repete: a violação em massa não é um efeito colateral da guerra, é parte da própria estratégia. A casualidade com que estas violações são vistas do lado russo — evidente numa conversa telefónica intercetada entre um casal, em que a mulher diz ao marido que pode violar ucranianas desde que use proteção e não lhe conte — mostra o grau zero de humanidade com que o outro lado encara os corpos das mulheres do país invadido.
Estas notícias são mais um episódio na sucessão do desprezível crime de guerra recorrente que é violar mulheres. Aconteceu no Kosovo, na civilizada Europa; no Congo, com mulheres e crianças; na invasão do Koweit pelos iraquianos, em 1991; na Síria, onde foram violados homens, mulheres e crianças; na Chechénia, novamente pelo exército russo; no Iémene; pelos rebeldes do ISIS no Iraque, com as mulheres yazidis; na China, na Coreia e no Sudeste Asiático, pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.
- Cortar a impunidade passa por tornar estes crimes visíveis e reportáveis.
- É preciso pressionar os políticos para que não permitam o regresso do regime russo ao conjunto dos países civilizados.
- As sanções devem ser majoradas à conta da crueldade demonstrada.
- Como recomenda Mona Eltahawy, importa ocuparmo-nos também das lutas pelos direitos das mulheres cá.
Como recomenda Mona Eltahawy em Headscarves and Hymens, devemos ocupar-nos também das lutas pelos direitos das mulheres cá — incluindo em matéria de violência sexual —, em vez de nos dedicarmos apenas aos direitos de quem não podemos influenciar. Se melhorarmos a situação das mulheres na nossa comunidade, contribuiremos para a melhoria da situação das mulheres em todo o mundo.
