Conheço a Salima. Conheci-a numa viagem no outro lado do mundo que Salima fazia, como eu, sozinha. É jornalista, mulher com garra, energia e um tremendo sentido de humor. Casada, com filhos, argelina que vive e trabalha agora no Koweit, num dos mais reputados jornais do país. Não é claramente o estereótipo que temos de uma submissa mulher muçulmana. Imensamente qualificada: estudou microbiologia antes de estudar jornalismo na Argélia e em França. E usa véu. Na versão hijab, tapando o cabelo e por cima de roupa normal, jeans incluídos. Pelo que lhe pedi para nos contar o que o véu significa e porque o usa. Aqui vai.

Decidi usar hijab com 17 anos. Recordo-me qe estava muito feliz nesse dia, porque me tornei uma boa mulher muçulmana. Ninguém me pediu para usar hijab, mas eu sabia desde criança que uma mulher devia usar hijab de acordo com a nossa religião. A minha mãe, a minha avó, todas as mulheres da minha família usam hijab.

Dantes, na Argélia, as mulheres usavam uns hijabs brancos bonitos que se chamavam ‘hayek’, mas com as gerações o look do hijab foi-se modificando e tornou-se moda.

O islão manda as mulheres cobrirem-se para as proteger de abuso e levar as pessoas a trata-las como seres humanos merecedores de respeito, não como uma rapariga bonita com um corpo sexy. Penso que em qualquer relação, social ou conjugal, devemos atender às ideias e visões das mulheres, não àquilo que têm vestido. Se escolhem usar calções ou um vestido sem costas ou bikinis, por que são contra as minhas escolhas? Esta é uma mensagem para as pessoas que são contra o hijab, mesmo as dos países muçulmanos.

Para mim o hijab é uma barreira que protege as mulheres, que leva outros a pensar muitas vezes antes de terem maus comportamentos. Não é normalmente verdade, porque mesmo com hijab as mulheres são vítimas de assédio, no trabalho por exemplo.

Uma mulher merece ser respeitada e bem tratada independentemente do que veste, mas penso que o hijab dá mais prestígio. Precisamos de estudar mais as razões da violência contra mulheres, especialmente quando sabemos que em França 48 mulheres foram assassinadas desde o início de 2021 e que 220.000 mulheres declaram no mesmo país terem sido sujeitas a violência.

O hijab não é um instrumento de opressão, é um instrumento que dá às mulheres muçulmanas paz e conforto psicológico. Eu comecei a viajar sozinha com 17 anos. Quando terminei os meus estudos em microbiologia, o hijab não foi impedimento para entrar na universidade outra vez para estudar jornalismo nem para ir fazer o mestrado em França. Escolhi trabalhar no estrangeiro, escolhi casar e ter filhos. O hijab não significa que uma mulher é mentalmente fechada ou puritana.

O nikab e a burqa, penso que são manifestações de tradições radicais do mundo árabe, não relacionadas com o islão. Mas o paradoxo é que o coronavírus obrigou toda a gente a usar uma espécie de niqab e vimos parlamentares e presidentes (sobretudo na Europa) usando máscara.

Penso que o problema no Ocidente é que os jornalistas lêem o que é traduzido para eles. No ano passado, o académico francês Arnaud Lacheret publicou um livro com título ‘as mulheres são o futuro do Golfo’. Este investigador, que viveu no Bahrein alguns anos, conheceu mulheres dos países do Golfo e das suas cortes e percebeu que a realidade é diferente da apresentada nos países ocidentais, porque aí precisam de intermediários para conhecer mais este mundo.

A realidade dos muçulmanos e, sobretudo, das mulheres muçulmanas, não é uniforme nos países de maioria islâmica ou na Europa. Vários estudos feitos têm demonstrado uma significativa desconfiança dos nativos europeus para com as comunidades muçulmanas, por se acreditar que têm visões retrógradas sobre o papel das mulheres. No entanto, quando as mulheres muçulmanas mostram ter valores progressistas face à igualdade de género, a desconfiança e a discriminação tendem a ser eliminadas – pelo menos para as mulheres. Donde, vale sempre a pensa conhecer a pessoa e avaliar as atitudes e o que pensa, use ou não hijab.