SIN VINO NO HAY CAMINO! Parte IV — Singularidade das histórias do caminho e um brinde ao mexilhão. Seguimos de Ribadumia a Vilanova de Arousa, na expetativa de, no dia seguinte, cruzarmos o estuário de barco até próximo de Padrón.

De Ribadumia a Vilanova de Arousa
Seriam 17 quilómetros entusiasmantes até Vilanova de Arousa, na expetativa de, no dia seguinte, cruzarmos o estuário de barco até próximo de Padrón, numa réplica da travessia do apóstolo Santiago, apelidada de la Translatio. Até o contacto que tínhamos da Barca do Peregrino se chamava Santiago. Já havia faltado muito mais e a verdade é que as pernas apresentavam uma leveza aparentemente incongruente com o esforço físico que estávamos a despender.
Passados três ou quatro quilómetros debaixo de um calor incomum, decidimos parar num café de uma povoação para nos refrescarmos. A Marta foi mais expedita e já estava lá fora, à conversa com um senhor consideravelmente mais velho. Trocou números de telemóvel com ele que, segundo lhe contou, era cardiologista com consultório no centro de Compostela. Disse-lhe para lhe ligar quando chegasse a Vilanova de Arousa, que nos levaria a passear para vermos as Ilhas Cíes e Cambados, conhecida como capital do Alvarinho. Confesso que me cheirou a esturro, mas depois refleti na generosidade com que o caminho nos presenteava e amainei.
Uma peregrina argentina
Continuámos e, um pouco à frente, deparámos com uma bonita surpresa: uma peregrina argentina em passo estugado. Tinha mais dez anos que nós e decidimos acompanhá-la e conhecer mais uma história surpreendente. Mãe de três filhos, era produtora de tomate em Mendoza e decidiu deixar o negócio com os filhos para viver um grande amor, em Paris. Passado um mês, e de coração destroçado, decidiu caminhar — até mais não, para que os passos lhe secassem as lágrimas e o vento sacudisse o imenso vazio que lhe preenchia a alma.
Assentou completar o Caminho Francês de Santiago, com partida da localidade fronteiriça de Saint-Jean-Pied-de-Port, uma exigência de quase 800 quilómetros e, consecutivamente, ainda a precisar de descomprimir sentimentos, o Caminho Português Central com início em Lisboa — e outros 625 quilómetros. Apanhámo-la já no final do tremendo desafio a que se propôs. Ela que, tal como o outro peregrino com quem nos cruzámos, caminhava uma média de 30 a 35 quilómetros por dia e pernoitava nos albergues. Encabuladas, engolimos em seco e chutámos as queixas para canto.
O albergue e a barca do peregrino
Livres das amarras do Booking, podíamos finalmente experimentar um albergue. O público estava fechado e reservámos, durante o percurso, em trio, o albergue «A Corticela». O final desta penúltima etapa foi calcorreado debaixo de chuva intensa e dança imensa, num paredão à beira da praia que adivinhava a proximidade do estuário do rio Arousa. Chegadas à pequena vila piscatória, atestámos a máquina de lavar e erguemos as pernas nos respetivos beliches. Não foi surpresa sermos as únicas hóspedes da D. Corticela, a jovem proprietária do seu homónimo albergue.
A primeira tarefa foi ligar para o Santiago, da Barca do Peregrino, a reservar lugares para a travessia. Qual não foi o nosso espanto quando nos disse que, com grande probabilidade, não teria peregrinos suficientes no dia seguinte e a barca ficaria em terra. Esta era uma das grandes motivações desta variante: la Translatio. Ficar em terra estava fora de questão, mas tivemos de nos contentar com uma resposta definitiva de madrugada.
| Etapa | Percurso | Distância | Como |
|---|---|---|---|
| Ribadumia → Vilanova de Arousa | Penúltima etapa do Caminho | 17 km | A pé, sob calor incomum |
| Vilanova de Arousa → Padrón | Travessia do estuário do Arousa | Barco do Peregrino | Réplica de la Translatio |
| Ilhas Cíes e Cambados | Passeio de carro | — | Visita com autorização da Xunta |
| Cambados | Jantar de peixe e marisco | — | Capital do Alvarinho |
As ilhas Cíes e o doutor
De banho tomado, pés besuntados e pilhas recarregadas, recebemos o telefonema do tal Doutor. A Marta não atendeu — faz isto algumas vezes: se fazem questão, dá o número e depois não atende; se insistem, bloqueia. Acabei por ter de ser eu a atender e a confirmar o jantar. Passou meia hora e lá estava à nossa espera a criatura, com a correspondente viatura. Pareceu-me ver o semblante fechar-se quando deparou com o trio, mas preferi ignorar.
Quando a estrada serpenteia por floresta cerrada, engulo em seco e peço a proteção de Santiago. Rapidamente alcançamos a costa, onde, debaixo de uma neblina crepuscular, se elevam as Cíes: ilhas de águas azuis transparentes, areia fina e branca e trilhos panorâmicos, que só podem ser visitadas com autorização da Xunta da Galiza. Saímos do carro para fotografar a paisagem que abarcava a cultura do mexilhão feita em jangadas, tão típicas da Galiza.
Ao cair da noite, direcionámos agulhas para Cambados, onde tínhamos acordado um jantar num restaurante de peixe e marisco. Após percorrermos vielas ladeadas de paços e casas senhoriais, santuários do Alvarinho, o Doutor lembrou-se de que tinha uma videochamada daí a meia hora e teve de regressar naquele exato momento. Aí apercebemo-nos de que o interesse dele ia além de mostrar as maravilhas costeiras a umas peregrinas.
Um dia de mexilhões e a boleia final
Senti-me desencantada na minha confiança no desconhecido e, depois de breve reflexão, satisfeita por nos encontrarmos numa vila pesqueira tão monumental que, de outra forma, não teríamos descoberto. Pudemos desfrutar de uma refeição, de confidências e de um insight memorável. Entre lágrimas de alívio, a nossa amiga deu por concluída a intrépida viagem: a desesperança havia capitulado em cada um dos 1500 quilómetros calcorreados.
- Nem barca, nem barcas: ficámos em Vilanova, à espera de resposta.
- Descobrimos a agitada lota e os melhores mexilhões cozidos da nossa existência.
- Brindámos com todos os convivas, em fraterna animação, também pelo aniversário da Maria.
- O malfadado Doutor voltou a ligar: número bloqueado e página virada.
Ao nascer da aurora, uma bofetada sem mão: Santiago a ligar, mas não era o Santiago, e sim a mulher. «Perdón, mas o Santiago ontem sentiu-se mal e passou a noite no hospital. Não me resta alternativa senão dar-vos boleia até Padrón.» Céus, é mesmo isto que nos estava destinado? La Translatio, a verdadeira origem do Caminho, num Renault, quatro peregrinas e a mulher do barqueiro? Nem acreditámos que não íamos atravessar esta via marítima fluvial com os seus cruzeiros construídos na década de 60, em memória de Santiago Apóstolo e dos seus discípulos. Ai, fé, a quanto obrigas!
