Susana Peralta tornou-se conhecida da generalidade dos portugueses com a sua coluna de opinião no Público, mas eu já me tinha cruzado com a Susana bem antes disso. Andámos ao mesmo tempo na Católica no curso de Economia, ainda que não no mesmo ano, e a Susana era uma das estrelas da universidade. Numa das últimas cadeiras que fiz, Econometria II, usei os apontamentos da Susana (disponibilizados através de uns amigos em comum) como material de estudo – que eu durante a licenciatura fui bastante casual em se tratando de ir às aulas. Depois disso perdi o rasto à Susana, até me regressar com o Público, mas aí já sabia da generosidade da cronista e professora da Nova SBE para com uma pessoa desconhecida.

Não conto este episódio só para dar colorido ao texto. Mas sim porque julgo que ilustra bem uma característica da Susana: preocupa-se genuinamente com o bem-estar de outros. Não vem só – como muitas vezes à esquerda, há que dizer – de um princípio teórico bonito de papaguear mas que não se pratica na vida quotidiana.

No livro que Susana Peralta publicou recentemente – Portugal e a Crise do Século, O Terramoto da Desigualdade, sobre a crise económica que caiu numa sociedade frágil – transparece essa preocupação: a de não permitir que se esqueçam as partes da nossa comunidade mais afetadas (em alguns casos com brutalidade) pelas consequências da pandemia; e a necessidade de criar políticas económicas no pós-pandemia que revertam as desigualdades pré-existentes à covid mas acentuadas neste último ano.

Tenho para mim que Portugal e a Crise do Século vai ser material essencial quando se fizer e estudar a história da pandemia em Portugal. Susana Peralta ocupa a primeira parte do livro retratando os efeitos da crise pandémica no país – a diminuição da mobilidade e o decrescimento da procura de restaurantes no google (para dar ideia da diminuição da atividade económica), os setores económicos mais afetados pelo efeito cumulativo da própria doença (que durante uma pandemia a economia não funciona a todo o gás, pelo contrário, mesmo sem lockdowns) e do confinamento, os grupos populacionais mais abanados (mulheres, jovens e imigrantes) e um longo etc. Tudo isto com dados, quantificado, para que os problemas sejam bem identificados e mensuráveis. Digo e escrevo muitas vezes que em Portugal adoramos não quantificar os problemas para não os conhecermos, não os diagnosticarmos devidamente e, em resultado, não os resolvermos. Com este livro, Susana Peralta dificulta bastante esse trabalho a quem quer olhar para o lado distraidamente, a ver se os efeitos da pandemia ficam como elefante ignorado no meio de uma loja de porcelanas.

A economista retrata também as condições pré-existentes no país que tornavam inevitável que a que a covid acentuasse as desigualdades. Por exemplo as condições das casas onde os miúdos portugueses tiveram aulas à distância, uma boa porção delas com problemas de humidade, falta de aquecimento, sem acesso à internet e outro quilométrico etc. Trago este caso porque foi um dos cavalos de batalha de Susana Peralta neste livro e durante o confinamento.

Portugal e a Crise do Século gira muito à volta de temas económicos – desemprego, impostos, intensidade de trabalho familiar, respostas orçamentais, burocracia, paraísos fiscais, economia verde. Mas não é um livro de Economia (ou é, no sentido em que os 12% de crianças nos Açores que em 2018 viveram com fome é Economia) nem para economistas. A leitura é fácil e fluída – li o livro numa tarde. Ficará para a construção da História da Pandemia em Portugal. Mas também é muito útil para percebermos a magnitude do que sucedeu – e sermos mais exigentes com as políticas governativas que pretendem (ou não) ser solução.

Portugal e a Crise do Século, O Terramoto da Desigualdade, de Susana Peralta. Objectiva. 12,96€.