Com a guerra da Ucrânia, e a proibição de todos os homens entre os 18 e os 65 anos abandonarem o país, por poderem ser necessários no exército para repelir os invasores russos, veio também o argumento sonso e sexista: “ah, então as feministas não se revoltam por só os homens serem recrutados para as forças armadas?” Enquanto reviramos os olhos e fazemos um ar de extremo enfado — e, bem, de repugnância — por tanta má-fé, da minha parte quero explicar por que não embarco nesta discussão.

Uma lição simples: não se discute sobre uma premissa que nos diminui
Uma das coisas mais úteis que aprendi foi esta: nunca aceito discutir assuntos cuja premissa me remeta para uma categoria de pessoa de segunda, membro de um grupo a que não se reconhece dignidade humana inteira e que existe sobretudo para servir os interesses e dar prazer aos senhores do universo, os homens. Também aprendi a não discutir com quem demonstra, no fundo, apenas ódio às mulheres.
Há uns bons anos ainda debatia, convencida de que as pessoas do outro lado estavam genuinamente a debater, com posições abertas e dispostas a aprender. Depois descobri que nos assuntos de mulheres e de feminismo não é assim. É uma conversa sem fim, que não vai a lado nenhum: eu rebatia um ponto, logo se ia buscar outro argumento; desmontava-se esse, surgia um terceiro; era desfeito o terceiro, criavam um quarto — e assim até ao infinito. Não eram discussões nem debates nem vontade de perceber; não havia qualquer benefício da dúvida para as posições feministas. Era apenas uma forma de nos fazer perder tempo a discutir imbecilidades, em vez de nos dedicarmos a falar para quem ouve e está sequioso.
O que está realmente em causa na Ucrânia
Regressemos ao caso concreto dos homens ucranianos que combatem enquanto as mulheres estão a sair aos milhões do país. O que é importante discutir neste argumento de má-fé — “então as feministas não se indignam por só os homens combaterem e morrerem?” — é a lata de quem acha que até o feminismo deve ser sobre os homens.
Estão mulheres ucranianas, já há bastantes indícios disso, a ser violadas pelos soldados russos. Estão mulheres a sair da Ucrânia na situação muito vulnerável de refugiadas, muitas vezes com crianças a cargo, sujeitas a vários tipos de violência e exploração, incluindo sexual. Há imigrantes ucranianas que regressam ao país em guerra e no caos para ir buscar os filhos menores que lá ficaram. Como sempre, a pobreza resultante da guerra vai pesar mais sobre as mulheres, abrindo de novo a porta a todo o tipo de violências e explorações. E a isto juntam-se as discriminações machistas correntes em tempo de paz: violência doméstica, violência sexual, pobreza feminina, exclusão de cargos de poder, desigualdades de rendimentos, um quilométrico etc.
| O que dizem os indignados | O que se passa de facto com as mulheres |
|---|---|
| “Só os homens são recrutados” | Mulheres são violadas pelas tropas invasoras |
| “As feministas não reclamam desta injustiça” | Mulheres saem como refugiadas, com crianças a cargo |
| “Então o feminismo não é sobre igualdade?” | Mães regressam ao país em guerra para buscar os filhos |
| “Deviam ocupar-se dos homens” | A pobreza da guerra agrava a violência e a exploração sobre mulheres |
“As feministas não dizem nada”
Fico sempre pasmada com a capacidade masculina de não conseguir conceber que nem tudo no mundo gira à sua volta, e de supor que as feministas vão pôr de lado os atentados aos direitos e às oportunidades das mulheres só porque os homens, de momento, acham que têm razões de queixa. Apesar de habituada ao egocentrismo masculino, ainda me surpreende a futilidade de suporem que as suas queixas escassas se devem sobrepor, na atenção geral, aos perigos muito mais numerosos e férreos que afetam as mulheres. Não é só egoísmo, egocentrismo ou narcisismo: é também desprezo pelo sexo feminino. Não somos pessoas inteiras, com dignidade completa, e por isso as nossas vulnerabilidades não adquirem a importância dos incómodos ocasionais que, desta vez, enredam os homens.
Quem desenhou o mundo em que os homens combatem
Há ainda outro nível de desonestidade. Quem determinou que os combatentes militares sejam homens não foram as mulheres nem as feministas: foram milénios de patriarcado organizado e alimentado pelos homens. Mas as almas indignadas pela indiferença feminista não atiram aos homens que proibiram os ucranianos de abandonar o país nem aos que enviam jovens russos para invadir o país vizinho. Atiram às feministas — que nenhum poder têm de mudar este estado de coisas — porque são homens, alistados à força por outros homens, que estão a combater. É apenas o exercício de atirar às feministas n.º 542.968, porque o feminismo incomoda.
O mesmo argumento, aplicado a outros temas
Este argumento não é novo com a guerra da Ucrânia. Já o vi, por exemplo, com a residência alternada — sistema contra o qual nada me move, tanto que é assim que a vida dos meus filhos está organizada. Há incontáveis mães com dificuldades porque os pais dos filhos não pagam as pensões de alimentos. É um problema real e abundante; muitas delas não têm capacidade financeira para pagar advogados e defender as suas posições nos tribunais de família. Faço parte de um grupo de mães com famílias monoparentais no Facebook e os casos que leio são de partir o coração.
Contudo, certas almas umbiguistas julgam que as feministas, em vez de defenderem estas mulheres, devem dedicar-se a exigir que os filhos fiquem metade do tempo com os pais, mesmo sabendo-se que muitos não querem esta combinação e outros, demasiadas vezes, o fazem para manipular as ex-mulheres e continuar percursos de agressores.
O peso do lobby masculino
- As reivindicações feitas por homens e para homens têm muito mais peso, porque os decisores políticos são maioritariamente homens.
- A residência alternada quase ficou consagrada como preferencial na penúltima legislatura.
- Mesmo com esta vantagem, ainda há homens que se escandalizam por as mulheres gastarem tempo a reivindicar o que as afeta.
- É preciso muito narcisismo para não ver a assimetria.
Portanto, sim, há assuntos a falar a propósito deste clamor — “as feministas não dizem nada”: a desvalorização dos problemas das mulheres que quem o prega assume, a desclassificação das mulheres como seres menores que existem para servir os interesses dos homens e a maldade hipócrita de atirar às feministas fingindo defender a igualdade.
