Feminista na teoria, machista na prática

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Os direitos das mulheres e todas as questões que envolvem as vidas e as profissões das mulheres são tratadas normalmente fazendo uso de uma conveniente bipolaridade. Não raro as pessoas apoiam as pretensões feministas – ou, se não gostam de apoiar feminismos, essa modernice do marxismo cultural, dizem apoiar pelo menos igualdade – mas só na teoria, que quando se chega à prática há sempre entraves muito credíveis, muito racionais (consideram) para que, afinal, se mantenha tudo no mesmo status quo patriarcal.

De que é que estou a falar? Explico com exemplos, que é mais fácil.

Toda a gente é muito favorável à participação política de mulheres. Claro, fazem imensa falta, há políticas mulheres competentíssimas, maravilhosas, até são menos propensas à corrupção, blablabla. Na teoria, mulheres na política é supimpa. Depois nos casos concretos é que as políticas são sempre sofríveis, fracas, sem carisma (de resto, esta expressão ‘carisma’ devia mudar para ‘testosterona’, que sempre ficava mais honesta), boas para segundas linhas (no máximo!), provavelmente dormiram aqui e ali para conseguir o lugar, não entendem nada de assuntos complexos de governação. Vão ver os comentários das redes sociais sobre as mulheres políticas. São aterradores. Ficamos convencidos que as mulheres alvos destes comentários são as pessoas mais mentecaptas e incompetentes desde que a humanidade saiu das cavernas. Qualquer erro inócuo destas políticas é avaliado com uma desproporção histérica e apocalíptica, como se o mundo não lhes conseguisse sobreviver. Todos os sucessos são desconsiderados ou atribuídos aos colegas masculinos. O nível de exigência para as mulheres eleva-se até que se garanta que ninguém supera tais alturas – para depois se dizer ‘estão a ver como ela falhou? Eu sempre vos disse que ela não prestava.’ (Claro está que aos homens não é oferecida igual exigência, mas a questão dos duplos critérios fica para outro dia.)

Em suma, somos fantásticas na teoria mas, na prática, nos casos concretos, ficamos sempre muito aquém.

Óbvio: também toda a gente decente é contra o ódio online machista, que horror. Do pior que há na internet. Levamos todos as mãos à cabeça com as alarvidades misóginas que são produzidas. Claro que é uma vergonha o nível de ódio que as mulheres têm de aturar. Sucede que a cada vez que se passa por uma mulher de que não se gosta, ou que opina com convicção mais contundente do que se permite nas mulheres, ou defende coisas de que discordam, ou faz parte da tribo política oposta, ou [as razões são infindáveis], bem, aí a dita mulher leva o ódio todo misógino que a imaginação consegue produzir. Até pode não ser declaradamente misógino e com palavras estritamente sexistas (muitas vezes é, incluindo nestas pessoas alegadamente aliadas do feminismo ou, pelo menos, da segurança online para as mulheres). Mas na verdade é sempre misógino, mesmo quando está mascarado de somente disputa e crítica política. Porque a bílis, a acrimónia, a obsessão, os comentários inevitavelmente personalizados (é a pessoa – mulher – que se ataca, não o que é dito) têm a forma e o conteúdo que têm porque se dirigem a uma mulher.

Ódio online machista? Claro que não, os deuses nos livrem. Abuso online sobre muitas mulheres na prética? Claro que sim, merecem, não há nenhum problema com mulheres, lá agora, aquelas mulheres em concreto é que são péssimas e é justo que recebam todos os enxovalhos.

Para a violência sexual – a mesma coisa. Evidente: não há ninguém que não seja ferozmente contra a violência sexual, sendo as mulheres e as crianças (dos dois sexos) as maiores vítimas destes crimes. Sabemos que a maioria dos crimes sexuais fica por reportar e punir – é fenómeno identificado. Até se pedem penas mais pesadas para abusadores e violadores. E, no entanto, a cada caso concreto conhecido pelos media, há uma multidão de gente – muito contra a violência sexual, ora pois – garantindo que a mulher que faz uma acusação a um homem está a mentir. Não falha. Se as mulheres não fizerem o favor de ficarem incapacitadas de tanta pancada levaram quando foram violadas, ou, preferencialmente, morrerem (para serem mesmo, mesmo convincentes), então são mentirosas. Por um lado, a violência sexual existe e é terrível; por outro, as mulheres passam a vida a mentir para dar cabo de homens bons e inocentes. Há muito quem consiga proferir estas duas linhas retóricas antagónicas.

Contra a violência sexual na teoria. Na prática, as mulheres mentem, é-se cúmplice moral (ao defendê-los) de violadores e abusadores e tudo se faz para manter o ambiente social de impunidade para crimes sexuais.

As teorias e as conversas não servem de nada, escusado lembrar. O feminismo – ou a solidariedade com as mulheres – vê-se na prática do quotidiano. Tretas redondas, bonitinhas, vacuidades de redes sociais, proferidas para o autor almejar uma reputação de progressista e se sentir bem considerando-se o maior feminista da Via Láctea ou, pelo menos, grande apoiante de um mundo justo – não valem nada. Valem os atos concretos de solidariedade para com as mulheres, vale acreditarem nas mulheres que fazem acusações cabeludas ou, pelo menos, dar-lhes a elas o benefício da dúvida, vale não enxovalhar mulheres desproporcionalmente e de modos que nunca se usaria para homens, vale não fazer das mulheres alvos preferenciais de atirar lama porque é divertido atirar lama, sobretudo no meio de uma manada, e as mulheres são sempre alvos fáceis. Vale a prática, não a teoria.

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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