Charles Michel junta-se a Erdogan para tirar lugar a Ursula von der Leyen. Ou a aliança contra as mulheres.

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Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, visitaram Istambul e encontraram-se com Erdogan. Durante a visita, Erdogan sentou-se na cadeira de anfitrião e deu a outra cadeira a Charles Michel. Ursula von der Leyen não tinha cadeira e teve de se sentar num sofá lateral, isto apesar de deter o cargo mais poderoso de toda a estrutura da UE.

Que Erdogan – líder que faz uso político do islamismo conservador – pretenda humilhar uma mulher mais poderosa que ele – bem, traz questiúnculas diplomáticas, mas é esperado. O islão é uma religião muito pouco amigável para os direitos das mulheres. Claro que Erdogan faz uma encenação humilhante para von der Leyen, para a por no lugar reservado às mulheres – longe do topo. Os líderes populistas, nacionalistas e conservadores fazem grande uso desta estratégia: humilhar mulheres. Lembremos como Trump trocou o nome de Theresa May com o de uma atriz porno quando a pm britânica visitou os Estados Unidos. Ou como não apertou a mão a Merkel. Ou os insultos de Paulo Guedes, ministro de Bolsonaro, a Brigitte Macron. É um assunto a reter, este, mas de Erdogan não espanta.

Já Charles Michel, o político ocidental, da igualitária (dizem) europa, mostrou bem o empenho igualitário que têm muitos homens. Nos discursos é tudo muito bonito, muita igualdade, tralala. Porém quando os casos os tocam, fingem que nada têm que ver com o assunto e, se puderem aproveitar das vantagens que o mundo machista lhes dá, aproveitam-se sem qualquer escrúpulo.

Charles Michel, não havendo cadeira para Ursula von der Leyen, ou se sentava ao lado dela lateralmente no sofá ou lhe dava o lugar nobre – afinal é ela que é mais poderosa na UE. Ou recusavam ambos a sentarem-se se não houvesse cadeira de honra para todos.

Claro que o que fez foi diferente, e simbolicamente muito significativo. Michel aproveitou-se todo ufano da distinção que Erdogan lhe estendia e aceitou remeter von der Leyen para as franjas, sendo cúmplice da desvalorização de uma mulher, do poder daquela mulher e da humilhação que Erdogan lhe preparou só por ser mulher. Se de um líder islâmico conservador tudo se espera, de um político europeu este comportamento é intolerável e tem de ter consequências.

Não é caso único, claro, o comportamento de Charles Michel. A quantidade de homens que se dizem igualitários e até feministas mas participam alegremente sem problemas de consciência em eventos, processos, organizações que excluem e discriminam mulheres. É ver como aceitam todos os convites que lhes fazem, sem quererem sequer saber se as conferências, cargos, etc. são distribuídos também por mulheres.

Este comportamento de Michel foi útil para recordar que demasiados homens ocidentais se aliam sem qualquer problema aos homens de culturas mais conservadoras e desigualitárias se tal lhes trouxer ganhos – e a manutenção do status quo sexista é valorizada por muitos homens. E também para ilustrar aquilo que eu sempre digo: o feminismo vê-se na prática, em casos concretos, na forma como os homens lidam a cada caso com que se deparam com a exclusão e os maus tratos e violência sobre mulheres. E a grande maioria falha estrondosamente aqui. Discursos igualitários com uma prática que é a oposta não servem para absolutamente nada. Só são ofensivos.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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