Meghan Markle e a muito feminista ação de contar a sua história

0
Imagem de Vulture - https://www.vulture.com/

Talvez venha de deformação profissional, chamemos-lhe assim. Já passei vários anos a estudar e a escrever sobre ‘contar histórias traumáticas’ (no caso, histórias vividas durante a Revolução Cultural Chinesa). O suficiente para saber que contar a sua história, na literatura, é um género muito feminino. A autobiografia – seca, factual, em tom de reportagem – é um género masculino. Mas o lifewriting, englobando géneros mais híbridos, normalmente memórias, é um estilo maioritariamente adotado por mulheres. E, porque há tanto para contar que cabe neste estilo, o mercado literário tem sido inundado de espécimes de lifewriting desde os anos 90.

Compreende-se. As mulheres encontram mais eventos traumáticos ao longo da vida. Desde violências físicas, sexuais, maus tratos em ambiente doméstico; até violências (pouco) mais escondidas: constrangimentos económicos, supressão de direitos políticos e sociais (através da lei ou dos costumes), ataques vários no espaço público. Um largo etc. Nos últimos anos, os temas da violência online acentuaram-se.

E quem vive experiências traumáticas – e aqui praticamente todas as mulheres levantam o braço, ou numa gaveta ou noutra – tem, no seu processo de cura, de contar a sua história. Já aqui escrevi sobre este impulso em se tratando do Holocausto. E, ao longo dos anos em que fui escrevendo uma dissertação sobre memórias de trauma, fui adquirindo duas convicções: é um direito inalienável de cada pessoa contar a sua história de vida (considero até que acordos de non disclosure relativos a temas da própria deviam ser ilegais) e é uma obrigação da comunidade ouvir as histórias traumáticas que se contam. E pelo menos dar-lhe o benefício da dúvida. Porque é sabido que as forças sociais agem poderosamente contra a divulgação pública destas histórias.

Tantas vezes, por outro lado, contar a história é o único recurso dos sobreviventes de trauma. Ora porque as violências sofridas não estão tipificadas nos códigos penais (um acidente de carro, ou uma relação abusiva, por exemplo), ora devido às respostas atrozmente insuficientes dos sistemas de justiça a casos de violência sexual (a quase totalidade fica por punir) e de violência doméstica. Donde, não havendo outro recurso de obter um resquício de Justiça, resta às e aos sobreviventes contar ao mundo o que se passou. Tanto mais que a necessidade de Justiça dos sobreviventes não envolve somente questões penais, mas sobretudo um compromisso da comunidade afirmando que está solidária com a vítima e que vai agir para evitar futuros traumas semelhantes.

E o que tem isto que ver com Meghan Markle e a entrevista que deu, com o marido Harry, a Oprah? Bem, Meghan Markle deu conta das consequências dos comentários racistas dos media – e sexistas, bem sabemos que o ódio online é particularmente verrinoso e acintoso e abundante sobre mulheres. Tanto que, em outubro de 2019, mais de 70 mulheres eleitas para a Câmara dos Comuns, de vários partidos, assinaram uma carta aberta em solidariedade à Duquesa de Sussex pelo ódio que recebia das redes sociais e, sobretudo, dos media, referindo como também sabiam por experiência própria como as mulheres com visibilidade são alvos preferenciais. De resto, uma das promotoras desta carta aberta pronunciou-se agora exigindo medidas legais que parem o ‘hounding women’ – ‘hounding’, uma expressão que se usa na caça e que se pode traduzir por encurralar mulheres para as abater – nos media.

Sobre Meghan a imprensa britânica foi deliberadamente maldosa. Julgo até que outro ingrediente também entrou neste caldo malsão. A origem americana, e o snobismo (misturado com inveja e fascínio) que os britânicos vertem sobre os americanos. Lord Halifax, visconde, considerava-se bastante acima na escala social que Winston Churchill, neto de um duque mas filho de uma herdeira americana. Nancy Mitford, escrevendo sobre as origens que a sociedade atribuía a uma das suas personagens, usou a expressão pouco abonatória para os do outro lado do charco: ‘quite low or transatlantic’.

Meghan, na entrevista, também revelou que teve pensamentos suicidas durante a gravidez – e que pediu ajuda ao Palácio e lhe disseram que não poderia fazer nada, porque ficaria mal pedir ajuda profissional. O que é, a todos os níveis, uma posição inaceitável, perigosa e desumanizadora. De pessoas que consideram, à má maneira dos antigos, que questões de saúde mental são devaneios de mentes fracas ou egoístas – ao invés de questões de saúde efetiva e de respostas da neuroquímica cerebral aos eventos da vida. Mais: vem de quem é inflexível e cruel face ao sofrimento alheio, de uma organização que vê sem problemas triturar pessoas em prol de um benefício teórico de uma organização; os fins justificam os meios, como se costuma dizer numa ideologia que por acaso se opõe a monarquias.

Posto isto tudo, Meghan Markle tem todo o direito de contar a sua história. E até fez um serviço público – porque denunciar sexismo, racismo e organizações que, todos os três, literalmente põem pessoas doentes deve ser valorizado. A experiência do sexismo e do racismo dos media e das redes sociais que foi vertido de forma avassaladora sobre Meghan Markle é uma experiência traumática. Deve ser contada pela própria e a comunidade tem obrigação de a ouvir e acolher. Disse bem: obrigação.

A entrevista gerou, felizmente, um debate no Reino Unido. Que não será bonito – como bem vemos o que se passa em Portugal, as resistências a olhar para comportamentos sexistas e racistas são de monta – e não sei se trará qualquer resultado palpável. Lembremos como depois da morte de Diana também se debateu muito a ferocidade dos media para, logo de seguida, estes se tornarem ainda mais atrozes e violentos e intrusivos. Mas é um debate incontornável para tornar a comunidade melhor e literalmente mais saudável.

Além de salientar o direito (e o serviço público) de contar a própria história, queria terminar com algo igualmente importante. Quando alguém refere uma doença mental por que passa ou passou, nunca deve ver menorizado o seu problema nem, jamais, ser desacreditado. Tais reações só contribuem para dissuadir outros com problemas de saúde mental de falarem deles, os assumirem e procurarem ajuda.

Como resultado da entrevista de Meghan e Harry a Oprah, Piers Morgan, um dos mais ativos haters da Duquesa, foi despedido da ITV. A causa? ter dito e escrito que não acreditava em nada, incluindo nos pensamentos suicidas, que Meghan Markle contou. Gravíssimo em alguém com audiência, porque automaticamente desacredita outros que possam estar a pensar revelar o mesmo, ajudados até pela normalização do problema que Markle patrocinou. Houve queixas formais do público e da própria duquesa, pela ameaça que é à saúde de outros.

É certo que a inveja e o ressentimento social – ou doentias defesas acríticas dos sistemas monárquicos – podem levar a menorizações dos problemas de saúde relatados. Mas convém lembrar que uma Duquesa pode sofrer psicologicamente e emocionalmente como qualquer outra pessoa. A riqueza e o sucesso não são impeditivos para a depressão e, como já aqui escrevi, para o suicídio.

O desprezo pela história de falta de saúde mental de Meghan enquadra-se no desprezo por outras histórias contadas por mulheres. O Me Too é um dos exemplos: foi ferozmente gozado e contestado, pela necessidade absoluta de conter qualquer reversão do status quo que pudesse representar. Passa-se o mesmo agora. O que torna ainda mais urgente contar – e acreditar – nas consequências para a vida e saúde das mulheres dos eventos traumáticos da sua vida.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Existe moderação de comentários. Os comentários anónimos ou de identificação confusa não serão aprovados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.