
Uma violação é sempre dos piores crimes (apesar de em Portugal serem normalmente premiadas, nos poucos casos de condenação judicial, com penas suspensas). As violações de guerra, se possível, conseguem ser ainda mais insidiosas. Não só pelo facto de geralmente ocorrerem em massa. Nem por, muitas vezes, as vítimas serem submetidas a violações em grupo por vários soldados – e um gang rape é particularmente traumatizante. Mas pelo objetivo das violações de guerra: usar os corpos das mulheres como objetos onde se vingam dos e onde punem os atos de guerra dos outros homens. Tal como incendeiam as casas e os carros, destroem as colheitas, pilham os monumentos e os bens valiosos dos civis, aniquilam os hospitais e outras infraestruturas essenciais, bem, na mesma linha de dar cabo de coisas violam as mulheres. Para os donos (homens) destas coisas todas aprenderem. Bombardeiam-nos uma aldeia, ou uma fábrica ou uma coluna de tanques de guerra e nós, como desforra, destruímos de volta as vossas coisas: violamos as vossas mulheres.
As violações em massa também acontecem frequentemente quando há disputas étnicas ou religiosas. De modo a engravidar à força as mulheres do lado inimigo, que assim vão gerar filhos que não são nem da sua etnia pura nem da sua religião. Nestes casos as mulheres são coisas parideiras que valem como produtoras de outros seres humanos que serão motor de uma diluição étnica ou religiosa – a contento do lado da guerra que viola em massa. Aconteceu há duas décadas e meia na Europa, na guerra da Bósnia, onde se criaram ‘campos de violação’ para engravidar à força muçulmanas bósnias de modo a gerarem filhos de sérvios. Acontece presentemente com as mulheres rohingya na Birmânia ou refugiadas no Bangladesh.
As violações de guerra em massa são o clímax da objetificação, da coisificação, da desumanização das mulheres.
Estão agora a acontecer massivamente na Ucrânia, perpetradas pelos soldados russos. De resto, os herdeiros do infame exército soviético, que violaram a eito as mulheres alemãs depois de terminada a Segunda Guerra Mundial, ultrapassando em número e crueldade as violações de outros exércitos, desde o alemão (violaram mulheres judias sem grandes preocupações raciais) até ao americano, passando pelo canadiano.
A Human Rights Watch, no meio de outras atrocidades arrepiantes, confirmou a violação de uma mulher em Bucha. A deputada ucraniana Lesia Vasylenko tem reportado na sua conta de twitter violações de mulheres pelos soldados russos e até de crianças de dez anos. Há imagens de mulheres assassinadas depois de violadas, com a suástica gravada na pele.
Todas estas notícias transtornam. Já havia indícios destas violações a acontecer. E vêm na sucessão desse desprezível crime de guerra recorrente que é violar mulheres. Aconteceu no Kosovo, mais uma vez na civilizada Europa. No Congo (com mulheres e também crianças). Na invasão do Koweit pelos iraquianos em 1991. Na Síria (foram violados homens, mulheres e crianças). Na Chechénia (novamente pelo exército russo). No Iémene. Pelos rebeldes iraquianos do ISIS no Iraque com as mulheres yazidis. Na China, Coreia e Sudeste Asiático pelos japonses na mesma II Guerra Mundial – o tenebroso tema das ‘mulheres de conforto‘. A lista, infelizmente, é interminável.
Resta-nos fazer pressão através da opinião pública para que os governos europeus, bem como a União Europeia, incrementem as sanções económicas à Rússia, bem como a ajuda humanitária (incluindo respostas de apoio psicológico às vítimas) e a ajuda militar à Ucrânia. A suspensão da Rússia das mais variadas instâncias multilaterais, incluindo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. E o que mais a imaginação – e a política – permitir.
