A exploração natalícia do trabalho das mães e das avós

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É curioso. Durante o ano comenta-se como as tarefas domésticas recaem sobretudo sobre as mulheres e mães (segundo um estudo da FFMS, são 72% das tarefas domésticas e 69% das tarefas com filhos em cima das mulheres), percebendo-se a sobrecarga que tal implica, bem como as suas consequências. Cansaço permanente (e tudo o que daí advém, desde maior propensão para problemas mentais até diminuição da libido), falta de tempo para si própria, ausência de disponibilidade para tarefas de enriquecimento (como estudar ou visitar exposições ou…), incapacidade para os extras que beneficiam as carreiras. Este ano foi tema o modo como, com os confinamentos, as mulheres ficaram ainda mais armadilhadas nas tarefas domésticas. Refere-se sempre a injustiça, porque evidentemente as mulheres não têm nenhuma obrigação de, além do trabalho pago, serem as criadas gratuitas do resto da família. E do que isso implica de desvalorização implícita das mulheres – alguém que, no fundo, existe para servir os seus melhores.

Porém chega-se ao Natal e é ver as redes sociais a glorificação das mouras de trabalho que são as mães ou as avós (ou até as tias). O orgulho numa quantidade imensa de comida que estas mulheres produzem para a sua família. A descrição, logo na manhã do dia 24, de como já estão na cozinha. Não há descrição de quem levanta as mesas e faz as limpezas, que isso não dá fotografias tão boas como a aletria e os sonhos, mas imaginamos a quem calham também esses trabalhos, não imaginamos?

Não me custa muito acreditar que muitas destas mulheres fiquem felizes com esta situação, e que até vibrem de alegria com a capacidade de alimentar os familiares que mais amam. (Sobretudo num ano nefasto como foi 2020.) Até as entendo de alguma maneira. Não gosto de cozinhar, detesto passar muito tempo na cozinha, pelo que não tenho esse ímpeto. No entanto gosto muito de criar ambientes e imagino a dar-me a muito trabalho para ter uma casa bonita e acolhedora, com boa comida (cozinhada por outros, preferencialmente) e melhores vinhos, para receber os meus filhos e famílias em minha casa no Natal.

O que me incomoda é a descrição de tudo isto como se fosse normal e mesmo um estado bonito das coisas. A ordem natural. As mulheres cozinham – muito – e limpam e os homens comem. Porque, entendamo-nos, até pode ser amor das mães e das avós em toda esta trabalheira. Mas das pessoas que recebem a trabalheira e a comida sem ajudar, sem procurar aliviar as tarefas de quem tanto faz por eles, é só egoísmo. Nenhum amor.

A senhora minha mãe também gosta de cozinhar para o jantar de Natal. E cozinha. Mas é uma preocupação de todos que tenha o menor dos esforços. E nada que seja trabalhoso de fazer. Parte das sobremesas são encomendadas, dos pratos principais também, nós levamos coisas. Por a mesa (ou finalizar o processo, pelo menos, depende das horas a que chego) é tarefa minha.

É algo que cada vez mais me incomoda, e que este ano de pandemia refinou: a repugnância com os comportamentos de abuso daqueles que gostam de nós. Cada vez vejo como mais intoleráveis pessoas que respondem ao amor, ou a algum tipo de afeto, com egoísmo, com desrespeito, com desconsideração de quem oferece esse amor/afeto. Não suporto quem se aproveita da generosidade e afeto alheios, parasite estes sentimentos em benefício próprio, e não retribua, em espécie e em prol do outro, igual generosidade e afeto. Não consigo conviver com quem não aprendeu em devido tempo a tratar bem os outros, o que implica sempre reciprocidade e cuidado.

Portanto, não, não é palatável tanta descrição de trabalho doméstico feminino alheio por alturas de cada Natal, e o próprio descritor como um anafado recetáculo que os demais devem servir. Também não se entende a glorificação do trabalho das mulheres em prol de outros, como se tal não fosse reflexo de uma realidade nacional muito perniciosa. Ainda menos como se trabalhar a servir terceiros constituísse a mais nobre forma das mulheres demonstrarem amor – donde, continuem aí a ser criadas gratuitas da família, que isso é que é bonito. E, por fim, dá-se de si próprio uma imagem muito feia e egoísta. Há um presépio que o Papa Francisco muito recomenda, que tem São José com Jesus ao colo e Maria a dormir. Pois é, a muitas mulheres o melhor presente que se pode dar é a disponibilidade para descansar.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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