O anti-feminismo é discurso de ódio e indício de personalidade perigosa

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Uma das constatações que tenho feito na vida nos últimos anos é esta: a ligação entre pessoas maldosas e com defeitos de carácter e o anti-feminismo – e nunca esquecer que o anti-feminismo é uma das formas do sexismo galopante se revelar. E também não tenho dúvidas de que o discurso misógino é uma das mais vulgares formas de discurso de ódio – ódio às mulheres e, sobretudo, às mulheres com voz. Cujo objetivo muito claro é expulsar as mulheres do debate público e do espaço público digital. A associação entre a cultura incel e o ódio online dirigido às mulheres está há muito estabelecido.

Mas vai mais além. Helena Tender já aqui escreveu das motivações anti-feministas do terrorista de Montreal. Em 1996, em Taiwan, a política Peng Wan-ru foi violada e assassinada. O caso nunca foi resolvido, mas o crime deu-se durante a campanha de Peng para o estabelecimento de quotas de 25% para mulheres no parlamento da ilha. Em 2018 um outro misógino incel em Toronto atacou um spa e assassinou uma mulher e feriu outra. Um terrorista que atropelou mortalmente, também em Toronto, dez pessoas com uma carrinha era um declarado misógino e foi também radicalizado pela cultura incel. Outro misógino em 2014 matou seis mulheres num campus universitário de Isla Vista, California, como vingança por não conseguir arranjar parceiras sexuais. Um outro terrorista que matou nove pessoas já este ano em Hanau, Alemanha, era racista em também incel. E há mais casos.

Não é incomum que o ódio anti-feminista resulte em mortes. Geralmente resulta em mortas – são as mulheres que são mortas.

Esta semana em New Jersey, Estados Unidos, o filho único da juíza federal Esther Salas foi assassinado por um homem que se afirmava anti-feminista e era ativista dos direitos dos homens (essa realidade tão em perigo). Já tinha colocado processos pela existência de descontos para senhoras nas ladies nights, pelo recrutamento de reserva para as forças armadas, e a universidade de Columbia por ter cursos em Estudos Femininos. O marido da juíza foi ferido. O assassino é suspeito de ter assassinado há umas semanas outro advogado de direitos dos homens e desconfia-se que iria atacar outra juíza de Nova Iorque.

O anti-feminismo está, portanto, ligado a personalidades violentas que podem trazer consequências mortais a outros. É certo que a violência contra mulheres nunca merece grande atenção social (e política e dos meandros judiciais). Mas é bom irmos assentando esta informação sobre os declarados anti-feministas. Para os vigiar, inclusive pelas autoridades. Para exigir às redes sociais que lhes limitem a propagação de ódio devido ao potencial de violência. E para pessoalmente os mantermos à distância.

 

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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