The Crown: revisão da matéria quando aí vem a terceira temporada

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A terceira temporada de The Crown estreia no próximo domingo, 17 de novembro, no Netflix, depois de um intervalo de dois anos do lançamento da segunda temporada. Veremos se estes novos episódios, numa nova década da vida da Rainha Isabel II e do Reino Unido da segunda metade do século XX, serão apetecíveis e dignos sucessores das temporadas anteriores. Há boas notícias: Olivia Colman (de Broadchurch e A Favorita) e Helena Bonham-Carter (de tanta coisa, desde uma das bruxas malvadas dos filmes de Harry Potter até às adaptações de E.M. Forster como Howard’s End e Um Quarto Com Vista Sobre a Cidade, passando por As Asas do Desejo, adaptado de Henry James) são as duas irmãs, a rainha e a Princesa Margarida, o que traz um travo picante à série que não será de somenos. (Ah! Helena Bonham-Carter também representou a sua mãe ficcional em O Discurso do Rei, com Colin Firth.)

The Crown não é uma série feminista. Não faz parte do movimento dos últimos anos que quer promover o debate sobre a situação feminina e as discriminações que caem em cima da dita situação. E teve até aquele caso bicudo de pagar menos a Clare Foy, a Rainha Isabel II nos seus anos mais jovens e a absoluta protagonista da série, que a Matt Smith, que afinal representava só o consorte e não ensombrou o brilho de Foy. Já o contei aqui.

No entanto, todas as coisas existem dentro do seu contexto. Donde, é impossível não apreciar The Crown com os seus laivos feministas. A forma como contamos o passado conta sempre mais do presente que do passado. A história do reinado de Isabel II, nas suas facetas mais públicas e nas mais pessoais e íntimas, e da história britânica que a influenciou, ensombrou ou inspirou – que é contada em The Crown – é necessariamente lida com os temas e assuntos fulgurantes desta segunda década (mais um bocadinho, a terceira) do século XXI.

Isabel II é uma mulher conservadora que preferiria ter uma vida longe dos holofotes, numa propriedade onde pudesse criar os seus cavalos e cães em sossego e ter uma vida familiar recatada. Além disso, casou com um homem com personalidade forte e orgulhosa, que se remete com dificuldade para o papel secundário do serviço da coroa, a quem, noutras circunstâncias, ela alegremente se submeteria.

Calhou-lhe um destino diferente, e não pode deixar de dar algum gozo feminista ver como a mulher tradicional e conservadora assume a sua missão e não deixa que a subserviência feminina que dela se esperava estorve o trabalho de reinar.

O Príncipe Filipe (primeiro só Duque de Edimburgo) é uma força modernizadora, sensata e até rebelde naquela instituição rígida e anacrónica que é o Palácio de Buckingham e o conjunto de todos os servidores da Rainha. Em todo o caso, as decisões são sempre dela. O marido é remetido ao papel típico de esposa troféu (ele é o homem bastante atraente por quem Isabel se apaixonou, tendo sido ela a fazer a escolha em vez de ser a escolhida), divertindo-se com os amigos nos clubes londrinos, indo dançar com as prováveis amantes, brincando na caça e nas férias na neve – enquanto a mulher se reunia com os primeiros-ministros, constantemente em crises governativas, e os aconselha. A única decisão que Filipe força, de que não abdica, é a do colégio que frequenta Carlos, o filho mais velho. Novamente numa inversão dos papeis tradicionais, cabendo a decisão sobre a educação e a vida das crianças normalmente mais à mãe.

No resto, Isabel II reina – e também na vida familiar. As visitas oficiais obrigam até a injeções analgésicas – que toma, contra o conselho do marido de regressar. Na coroação, Isabel II insiste que o marido se ajoelhe para lhe jurar fidelidade (ele protestou furiosamente). O nome da família permaneceu o dela, apesar das investidas de Filipe para que adotassem o Mountbatten. Foi a Rainha que decidiu ir viver para Buckingham, quando o marido preferia a casa mais pequena que tinha redecorado. A decisão da impossibilidade do casamento da irmã com um homem divorciado pertence-lhe também. É ela que decide ter mais dois filhos. E por aí adiante.

No fundo é a história de uma mulher que não prescinde do poder que sabe ser seu, quando teria sido porventura mais fácil partilhá-lo com o marido. Claro, também é uma história de uma rainha no meio dos eventos da segunda metade do século XX. Bem contada, atores no ponto, bons diálogos, bem pesquisada, personagens credíveis e bem construídas, cenários e figurinos bonitos. Para a terceira temporada esperamos, portanto, mais disto tudo.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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