Intragável

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Por vezes lemos artigos em publicações credíveis que são tão fracos que rapidamente decidimos não serem merecedores de resposta. Mas outras vezes o nível de desonestidade é tão chocante que não podemos deixar passar incólume.

Este artigo pertence ao último grupo. É tentador ignorar, mas depois lembramo-nos que livros de auto-ajuda como o “12 regras para a vida” são best-sellers em Portugal, pelo que é nosso dever patriótico repor a verdade e tentar salvar estes pobres homenzinhos beta que jamais serão alfas, por muito que se endireitem e que arrumem o seu quarto. Como canta o refrão da minha música pimba preferida: “Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré”.

Ora neste artigo o sr. Gonçalves apresenta-se muito irritado com o backlash da “publicidade” do talho em Gaia. Relembre-se a polémica em causa: um senhor talhante nortenho resolveu imprimir umas fotografias de uma mulher branca em bikini na praia para publicitar a “vitela branca para assar” que estava em promoção.

Segundo o sr. Gonçalves estas seriam as reações normais: “Quando passasse pelo estabelecimento, uma pessoa normal teria uma de várias reacções. Podia não reparar em nada. Podia avaliar momentaneamente os atributos da moça. Podia sorrir da parvoíce em questão. E podia adquirir uma selecção das carnes anunciadas, motivado pelos preços módicos. Em qualquer dos casos, num mundo de pessoas normais, a vida continuaria sem sobressaltos e o talho continuaria com as fotografias.”

Não existe normalidade neste episódio, exceto a que resulta de vivermos num mundo de pessoas anormais. Se o sr. Gonçalves é tão cego à cultura de objectificação feminina – cujo cúmulo é a pornografia – ao ponto de considerar esta “publicidade” como “normal”, o anormal é ele. Ética e moralmente anormal.

Embora sejam idênticos na dinâmica e impacto, o racismo ainda é pior tolerado que o sexismo. Vamos pois por isto em termos que até as pessoas moralmente defeituosas compreendam: se o mesmo talho tivesse a fotografia de um homem negro na praia com o título: “porco preto para grelhar”, talvez aí o sr. Gonçalves já se mostrasse mais empático e conseguisse alcançar o evidente racismo subjacente. (A palavra chave aqui é homem, não é negro).

Ou se, pese embora o sexo, a raça for impeditiva de conexação com este exemplo, sugere-se a fotografia do próprio sr. Gonçalves promovendo “salsicha branca” em saldo. A ausência de cabelo do modelo é reminisciente do referido embutido.

Sem qualquer pudor em revelar abertamente a sua ignorância sobre epidemias como o tráfico sexual, prostituição e violência sexual – cujas vítimas são mulheres e meninas em mais de 90% – o autor continua o seu queixume gozando com o termo “vender o corpo da mulher”. Aparentemente este senhor vive num planeta distante de pessoas normais onde o pornhub nunca chegou, nem prostituição, nem publicidade sexista, nem objectificação. Que sonho! Também quero.

Mas infelizmente ainda vivemos todos num mundo onde uma classe de pessoas compra e venda permanentemente o corpo de outra classe de pessoas para exploração e gratificação sexual. E essa opressão está tão normalizada que as mulheres que a denunciem são imediatamente criticadas e apelidadas de histéricas e anormais.

O autor atinge o ponto mais baixo do seu texto nessa crítica: não só insulta o site, gramática e posições de um dos grupos feministas que denunciou o talho de Gaia, como não se inibe de tecer comentários à aparência física das mulheres em causa: “Não pensem que estou a presumir o físico das sócias do MDM a partir de estereótipos. Em nome do rigor científico, visitei o site daquilo. E os estereótipos batem certíssimo. O pior é que os estereótipos exteriores não são o pior. Além de também baterem certo, os interiores batem recordes.”

Ou seja, ele tenta negar que exista objectificação feminina, objectificando mulheres. Obrigada por provar o nosso ponto, sr. Gonçalves, acho que não conseguiríamos ilustrar melhor.

Menti. O mais baixo não foi o comentário estético, foi antes a minimização e descredibilização da violência contra mulheres: “Há relatos de “manifs” em que o MDM garante ter lutado e gritado imenso, contra “as violências” [sic] e dramas do género”. Cá está: a violência de género como “drama”, como histeria colectiva de um pequeno grupo de feministas ruidosas, nada atraentes por sinal.

Ainda mais grave que a calvice precoce é a extensão da cegueira que afecta o sr. Gonçalves: Portugal é 2.o pior país europeu no que toca a homicídios de mulheres. Temos níveis endémicos de violência doméstica, aliados a taxas baixíssimas de denúncia de crimes sexuais. Acusar-nos de “dramatizar” esta violência é mais intragável que o anúncio do talho.

A ignorância tem limites: negar o evidente sexismo desta “publicidade” não é só impossível, é inútil e pernicioso. O sr. Gonçalves está perfeitamente ciente do significado de tratar mulheres como pedaços de carne. O verbo comer aqui não é uma alusão ao canibalismo, mas sim ao consumo de corpos femininos para uso sexual. É este o status quo que o autor quer defender a todo o custo: que os corpos das mulheres continuem a ser vendidos e comprados, consumidos e violados por homens (de preferência brancos), e que as mulheres que reajam sejam ridicularizadas pelos nossos medos, convicções, activismo e aparência. Esforço inútil, este status quo está condenado ao extermínio.

Uma nota final para destacar a oldie but goldie estratégia dos defendores dos direitos dos homens que o autor não resistiu à tentação de usar: o whatabout mulheres islâmicas. Sim, sr. Alberto, feminista nenhuma nega que as mulheres nas sociedades muçulmanas são oprimidas. Mas como qualquer activista sabe, as nossas acções são mais bem sucedidas e impactantes quanto maior a proximidade geográfica. Há, infelizmente, muito trabalho a fazer em Portugal para atacar a violência preocupante contra mulheres e meninas. Mas ainda assim sugiro que pesquise Jineologia e se eduque sobre a impressionante luta das mulheres curdas. Saiba que há feministas portuguesas a trabalhar com elas.

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