Eleições europeias – Winter is coming.

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Desde logo, na análise dos resultados portugueses das eleições europeias, duas perguntas que não querem calar: 

Onde anda o eleitorado? 

Onde anda a direita? 

A resposta à primeira pergunta é fácil: na praia. O eleitorado anda na praia e isso tem duas consequências: a primeira traduz-se no chorrilho de posts facebookianos a insultar o povo. É uma óptima oportunidade para os cidadãos votantes declamarem o seu heroísmo face aos alegados trogloditas do país. Constroem-se pedestais, elogios mútuos, multiplicam-se os palavrões. Clichés atrás de clichés. Nós vs. eles. 

Eu também tenho dificuldade em entender quem não dá um saltinho na freguesia para pôr uma cruz e assim honrar quem derramou sangue suor e lágrimas pela instituição da democracia. Mas a facilidade do acto do voto diz-nos  que o povo não vota porque não quer. E não quer porque não tem candidatos cativantes. Um espectro partidário que não faz uma reflexão séria após estes números escandalosos, sinceramente, merece os poucos votos que teve, tem e continuará a ter. A abstenção não é só o espelho do povo. É também o espelho de políticos que não engajam nem sequer os eleitores de carteirinha. 

O povo não votou porque estava sol, mas também porque não se sente ameaçado. O povo não votou porque, usando a metáfora futebolística, jogam todos muito bem e no fim ganha a Alemanha, perdão, o PS. E o povo europeu votou em maior número porque sentiu a ameaça das forças sinistras de extrema-direita presentes nos seus países. Talvez os números da abstenção sejam o preço a pagar pela benção da inexistência das tais forças xenófobas. Talvez os números da abstenção reflitam uma sociedade que não percebe que o que se passa lá fora interessa ao nosso país. Uma sociedade que assiste à correio-da-manhãzificação dos noticiários: interessa apenas o roubo de 5 euros pelo Sr. do café de Sortelha, que retira tempo de antena às notícias internacionais, tão mal-tratadas no nosso país. Fica o apelo: só os media têm o poder de quebrar a tendência de isolamento, de propagação da notícia simplezinha. Os noticiários devem, obviamente, cobrir as notícias locais; mas não se podem converter em spin-off do Preço Certo em Euros, com enchidos, brejeirices e fait-divers de todos os cantos do país. 

A segunda pergunta tem resposta mais difícil. Embora, claro, seja evidente que a direita ficou na praia… ou morreu nela. A derrota da direita já foi prevista e tratada em crónica passada. De 27 de Setembro para cá, nada de novo.

Nesta crónica vamos falar dos vencedores: António Costa, Marisa Matias e o PAN; este último apenas vencedor moral uma vez que, na verdade, não tem programa, rumo nem grande norte. 

Se tivesse de escolher só um vencedor, escolhia Marisa Matias. Prometo que não é por ser mulher. A vitória de Marisa Matias é mais impactante do que a de António Costa já que acontece em conluio com o poder e com o partido do lado em alta. AC demonstrou, nestas eleições, ser fácil ganhar quando o partido do lado está desnorteado. Difícil é não ter transferência de votos e arrancar uma vitória. 

Não me parece que a vitória do Bloco tenha sido obtida à custa do PC. Os militantes do PC não votam outra coisa que não PC. Votaram menos porque têm, por esta altura, uma média de idades de 140 anos. Face à geriatria dos seus militantes-camaradas, impinge-se um João Ferreira, com sua cara laroca e aspecto de beto convertido comunista. Não chega. Tácticas fossilizadas serão tácticas fossilizadas, independentemente da idade do  candidato. O contrário também é verdade. Veja-se como o Corbyn está a acabar com o Labour com o fulgor de hippie imberbe e como Vince Cable está agora com a vitalidade de um teenager europeísta saído do Erasmus. 

Não sendo a idade documento, no BE parece que os olhos claros o são. Não me lembro da última eleição com um candidato do BE de olhos não-claros. O BE é aquele partido que no papel aprecia a inclusão, mas chega às eleições e puxa pelo filtro influencer-instagrâmico que dá aquele toque de “sou de esquerda (caviar) e não tenho culpa de ser assim“. A diversidade, essa, fica pelo caminho.

Em eleição importantíssima e periclitante, em que BE corria o risco de ser esvaziado por decorrência do seu compradio com o governo de direita – perdão, do PS – o Bloco, qual Benfica de Bruno Lage, dá a titularidade a Marisa Matias, essa Félix da política portuguesa. 

Os eleitores de direita mais sensíveis podem agora fazer scroll down, porque vai sair elogio. 

Marisa Matias é uma política excepcional. Em primeiro lugar, ideologias à parte, porque conhece os dossiers e tem trabalho feito. Mas, acima de tudo, Marisa Matias é uma máquina angariadora de votos porque gosta (ou parece gostar) verdadeiramente de pessoas. E a política parece ter-se esquecido deste pormenor: para se ser popular, é preciso gostar de pessoas. O carisma começa por não ser nada mais do que isto: a capacidade de fazer política criando impacto pessoal. Não é por acaso que Maria Matias e Marcelo Rebelo de Sousa acabaram a campanha das presidenciais trocando elogios. São exemplares em vias de extinção de um tempo de leveza e entendimento transversal que terá que regressar. Já eu, perdi a conta ao número de pessoas de direita que desabafa “aquela Marisa Matias é de esquerda mas é uma simpatia”. 

Mais ninguém no BE aprendeu esta lição. Catarina Martins tenta ter este discurso, mas nota-se a teatralidade e o desgaste de aproximadamente 500 anos de liderança. As irmãs Mortágua representam o oposto. E teimam em não perceber que, com a geringonça, o Bloco perdeu a legitimidade para ter um discurso de ódio face ao capital. A partir do momento em que se pactua com o Governo com maior carga tributária da história, não se pode manter o tom de Corbyn/activista do PREC. O BE entrou no Gambrinus para almoçar. É ineficaz e desajustado ter um discurso de quem acabou de sair do BOOM. Marisa Matias percebeu isso, refinou a mensagem, cativou o eleitorado, escolheu as bandeiras certas, pondo a tónica nas pessoas. A esquerda até pode odiar o capital, mas não quer dizer que tenha de afugentar o eleitorado. Com esta correcção, abriu caminho para um novo BE e posicionou-se para a liderança do mesmo. Como dizia Fareed Zakaria nas Conferências do Estoril: 

People want to hear the music, they don’t want to just hear the lecture

Ao contrário do que se pensa, tudo isto pode ser aplicado a todos os partidos políticos. É a chave para o sucesso de Ocasios, Marisas e Guys (Verhofstadt). Da esquerda à direita, quem perceber isto terá a chave para o sucesso. 

O segundo vencedor é Maquiavel, perdão, António Costa. Que ganha mesmo com um dos candidatos com menos carisma e visibilidade da história da democracia portuguesa. Pedro Marques é um Bruno Varela do Ajax. Levado ao colo pela máquina bem montada do PS, lá ganhou uma taça sem saber bem como. Com a escolha do cabeça-de-lista, António Costa dá dois golos de avanço ao melhor marcador do torneio do Pontal. Escolhendo uma fraca figura, aposta na gratidão do escolhido e aproveita para entrar na campanha das europeias, ou, como o PS gosta de chamar, pré-legislativas. Marca presença em eventos, em cartazes, entra pelas televisões adentro. O PSD quase marca com aquela sondagem a dar igualdade de pontos (um dia escrevo sobre sondagens e os efeitos propositados ou inocentes nos resultados das eleições), mas logo se segue o festival de tiros no pé do professores-gate e o recrutamento da panóplia de figuras socialistas – menos Pedro Silva Pereira, claro – que corre em auxílio do candidato. 

Resultado: Costa bate na oposição, esvazia a direita com o novo conceito de “PS o partido das contas certas e grandes vitórias eleitorais”. Não é ofuscado pelo seu cabeça-de-lista. Sorri, deliciado, com a possibilidade de vir a formar governo apenas com a ajuda do PAN. 

Por falar em PAN, termino o artigo dizendo que cada país tem os verdes que merece. Portugal tem o PAN e o Sporting. Tanto um como outro não conseguem suscitar grandes ódios nas suas vitórias. Apenas um encolher de ombros, um meio-sorriso, uma quase-alegria por ver felizes aqueles que ganham tão pouco. Mas as suas vitórias também lembram as falhas dos grandes: do FC Porto, que tinha tudo para ganhar a taça; dos partidos, que continuam impermeáveis às novas preocupações do eleitorado. Que desde a última eleição tiveram a oportunidade de falar mais e melhor acerca  de sustentabilidade e ecologia. Não o fizeram. Ganha um partido que não se sabe bem o que quer, quando quer e como quer. Que é mais um lobby do que outra coisa qualquer, mas que, de alguma forma, responde às preocupações gerais, pobremente elaboradas, dos portugueses. 

Assim vai a esquerda, maravilhada com a sua geringonça. Faz lembrar o meu vôo da TAP do outro dia, em que o Capitão começa por anunciar um atraso de uma hora. Quando rectifica para meia hora, ouvem-se suspiros e palmas. Chegámos atrasados mas a maioria chegou feliz por não ter sido um atraso trágico. Good cop, bad cop. Gestão de expectativas e gestão da realidade. Portugal pensava que a geringonça ia ser trágica. Como não foi tão horrível assim, a esquerda, apesar de incongruente, atravessa um período de estado de graça. 

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Teresa Morais tem 35 anos, é jurista, tradutora e activista. Depois de viver em São Paulo e em Londres, voltou, há dois anos, à Lisboa que a viu nascer. Gosta de biografias, boas revistas, boas séries, bons políticos e bons amigos. Ouve música de todos os estilos, a toda a hora, em qualquer lugar. Está no Capital Magazine por acreditar ser esta a hora de falar de causas e de fazer melhor política em Portugal.

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