Myanmar, a tatuagem invísivel e a tanakha

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Fotografia de Catarina Barata.

Qual o único país onde se come chá? Em que país pode visitar o maior livro do mundo ou conhecer um templo que alberga mais de 500 mil budas? Qual o país onde se guia pela direita, com volantes à direita? Qual o país com um lago de postal onde a pesca é um bailado e os seus habitantes remam com o pé?

Se respondeu Myanmar, acertou. Birmânia também, embora não seja mais o nome oficial daquele país do sudeste asiático. Agora é fazer as malas – ou a mochila, como no meu caso – e partir na direção de um sonho sob a forma de lugar.

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Mingalabar não é um simples “olá” em Myanmar, a ex-Birmânia, referi aqui na reportagem fotográfica. Significa “que tenhas sorte e prosperidade”, um cumprimento auspicioso que nos arrebata pelo seu significado e musicalidade. Myanmar, ou o país do Shwe, ou dourado, a Budolândia, como tão bem descreve o viajante e exímio contador de histórias, Jorge Vassallo @fuidarumavolta, que de forma sublime foi o timoneiro, meu e de outros sete companheiros, de caminhos e de momentos menos contemplados a oriente.

Myanmar tinha de acabar com a expressão amar, porque não há outro verbo que descreva de sobremaneira mais fidedigna o que senti por aquele país, aquela terra. Terra que é chama do alto das suas estupas de ouro e nos chama, pela gentileza das suas gentes, pelos mercados multicolores – e multiodores – pelo caos agridocemente organizado, pelos (bons) costumes ancestrais, pela beleza e diversidade das suas paisagens que tranquilizam, pacificam e regeneram, pela fé personificada nos monges, monjas e monjinhos, eternizada nos mosteiros, templos, montes e horizontes. Terra imbuída de um magnetismo tal que nos enfeitiça e subtilmente segue o nosso encalço –  regressei a casa há dois meses e parte da alma permanece remadora nas águas do Inle, motard pelos trilhos dos templos de Bagan, rejuvenescida na descida do Irrawaddy até Mandalay. Os locais que assaltam os nossos sentidos tornam-se eternas tatuagens invisíveis.

Vêem-se muito poucos turistas. Myanmar é um país que, por circunstâncias históricas – pretenderem esconder um país paupérrimo e uma economia estagnada por décadas de ditadura e (des)governação pós-independência dos britânicos – abriu apenas ao turismo em 2011. De forma muito redutora, imaginem uma Tailândia sem turistas. Era muito comum pedirem-nos para tirar fotografias connosco – bem, o crescimento nos smartphones ultrapassa o de turistas – houve sítios em que os olhos “esbicalhados” dos mais novos denunciavam a raridade que era dar de caras com (nove!) caucasianos. Fui quase sempre a mais alta durante todo este tempo, acima da minha linha do olhar só mesmo os Budas, esses batiam-me às dezenas e, às vezes, centenas de metros (sou “miúda” para 1,75 m).

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Fotografia de Catarina Barata.

Não me senti insegura. Foram três semanas sem nenhum sensor de perigo a subir os níveis de ansiedade, as pessoas são muito tranquilas e olham-nos ou abordam-nos por mera curiosidade. Para minha enorme tristeza, existe a guerra contra a minoria Rohyngya, sim, mas encontra-se circunscrita a uma zona muito reduzida do estado de Rahkine, onde também estive, com a devida distância de segurança. É uma mancha muito triste, perpetuada por fundamentalistas, monges e militares, num país que testemunhei ser, na maior parte do território visitado, multicultural, multirreligioso e tolerante com a diferença e a diversidade. Myanmar, com as suas 135 etnias, é tanto mais do que esta calamidade.

Myanmar é controlado pelas forças armadas que detêm obrigatoriamente 25% dos assentos parlamentares. Apesar de Aung San Suu Kyi ter sido democraticamente eleita, os militares encontraram uma desculpa para “a Senhora” não assumir o poder, alterando a lei após a sua eleição: nenhum Chefe de Estado poderia ser casado com um estrangeiro, como era o seu caso – é State Counsellor, ou Conselheira de Estado. Não vou dissertar sobre a história da Birmânia. De forma breve, o pai de Aung San Suu Kyi, Aung San, ele próprio um militar, é considerado o Pai da Independência do país em 1948 (para ser rigorosa, os japoneses ajudaram os birmaneses a expulsar os britânicos, mas acabaram eles próprios por se tornarem colonizadores durante um breve período). O general Aung San não viveu para assistir a este momento, porque foi assassinado por um rival político em 1947, após ter assinado o acordo de independência em Londres. Tornou-se o ídolo nacional, a sua filha com dois anos na altura. Restaurantes e hotéis têm grandes retratos destas suas duas figuras mais proeminentes bem à vista.

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Entre os 15 anos e o (fatídico) ano de 1988, Aung San Suu Kyi viveu fora da Birmânia. Licenciou-se em Oxford, onde conheceu o historiador britânico Michael Aris com quem casou. Um golpe militar em 1962 conduziu a Birmânia a um regime totalitário, regido pela lei marcial. Sem estruturas de saúde nem de educação. O povo sofria com a fome e a escassez num país completamente fechado ao exterior. Em 1988, Aung San Suu Kyi regressou à Birmânia para visitar a mãe doente. A 10 de Agosto, o hospital de Yangon foi alvo de um enorme massacre, quando soldados abriram fogo sobre enfermeiros e ativistas – os protestos pacíficos contra as condições de vida, conhecidos como Revolta 8888 Uprisings, eram encabeçados por estudantes, aos quais se juntaram os monges. O slogan “Aung San não treinou os militares para matar o seu próprio povo” era erguido bem alto pelos pacifistas.

Após a chacina, suplicaram a Aung San Suu Kyi que ficasse para conduzir o país da ditadura para a democracia, e terminar o trabalho iniciado pelo pai. A 26 de Agosto de 1988, discursou no principal templo de Yangon, o Shwedagon, comprometendo-se com o seu país – não desistiria de libertar a Birmânia da opressão e abri-la ao mundo. Surpreendeu a audiência ao falar em birmanês. Com o seu carisma, tornou-se ícone nacional. Fundou a National League for Democracy, ganhou eleições em 1990, mas não lhe deram o poder. Ao invés, colocaram-na em prisão domiciliária, mesmo antes das eleições, onde permaneceu durante 15 anos, de um total 21, até 2010. Quando o marido adoeceu e foi proibido de a visitar, foi oferecida a Aung San Suu Kyi a possibilidade de o ir ver, pela última vez, em Inglaterra. Sabendo que não poderia regressar, escolheu o País. Ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1991.

Uma curiosidade: Apesar de “a Senhora” ser filha do Pai da Independência, alguns amigos próximos (segundo o livro “The Face of Resistance” de Aung Saw) acreditam que seria a mãe a sua maior mentora e fonte de inspiração:  Khin Kyi era das mulheres mais influentes da Birmânia. Enfermeira-chefe num hospital de campanha, conheceu Aung San quando o tratou durante a 2ª Guerra Mundial. Foi membro do Parlamento de 1947 a 1952, Presidente da Associação de Mulheres Birmanesas e líder de vários organizações sociais. Em 1960, tornou-se a primeira e única Embaixadora da Birmânia, representando o seu país na Índia, e recebeu várias distinções pelo seu trabalho.

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Depois deste grande à parte, e voltando à viagem, confesso que não foi imediato o deslumbramento por Myanmar: por nenhumas terras do sudeste asiáticas é, ao aterrar nas grandes cidades, neste caso em Yangon. São dois dias de habituação a realidades muito diferentes. É o calor tropical, são as vielas com odores inenarráveis, os buracos na calçada do tamanho de carrinhos-de-mão. Acresce termos aterrado em vésperas do novo ano chinês e ido diretamente para Chinatown. O Jorge, melhor contador de histórias do planeta e profundo conhecedor dos meandros da Indochina, Índia e Birmânia, quis dar-nos um “tratamento de choque” após uma noitada, vulgo escala da meia-noite às 7 no aeroporto do Dubai. A Rua 19 é a mais popular – como em Espinho – e foi aqui que nos estreámos com os kebabs do Kaung Myat Restaurant, imortalizados por Anthony Bourdain no documentário da CNN, Parts Unknown, que a todos aconselho assistir por ser sobre tanto mais do que comida. É verdade que pelos sabores vêm os amores. Tive o privilégio de viajar com um líder gourmet que conhece muito bem o terreno (e as iguarias!) e para quem cada local é um amigo e potencial membro da sua família alargada.

O Jorge utiliza um termo que se aplica às singularidades da Birmânia, as birmanesices. Como guiar do lado direito da estrada, ainda com volantes do lado direito, para cortar com a tradição inglesa. Apenas os carros novos têm volantes à esquerda. Na principal cidade, Yangon – a capital é Naypyidaw – andar de mota é proibido pelo número de acidentes e de atentados consumados. Como sabem, a mota é o meio de transporte mais comum nesta zona da Ásia, onde é comum ver mais cabeças do que rodas por mota – e patas, cheguei inclusive a ver um cão motard. Bem, não em Yangon. Ah, e quem visitar o país têm de levar notas “pristine” para trocar por Kyat, riscos ou dobras não passam pelo crivo apertado dos Bancos ou casas de câmbio. Lá, o provérbio “não se nega um copo de água a ninguém” é levado à letra e todas as lojas, ruas, mosteiros têm bidons de água filtrada para acesso geral. Outra birmanesice é o uso da tanakha – que gosto de chamar ouro na cara -, uma pasta resultante da árvore com o mesmo nome, utilizada há mais de um século como ritual de limpeza e protetor solar – principalmente como expressão do orgulho nacional. Dá um ar tribal e, ao primeiro impacto, é confesso, ligeiramente assustador. Acabei por me render aos seus encantos e efeitos e também experimentei.

É um país que não dorme. Acordámos às 4 da manhã num “dia de maior infortúnio”, digo eu que sou pouco cotovia, e lá estavam os birmaneses a montar as bancas nos mercados, a varrer as ruas, à conversa nas salas de chá existentes em cada esquina onde parece que estamos na Kidzania – mesas e bancos de plástico colorido, tudo em tamanho XS. Fomos ao principal templo de Mandalay – Mahamuni Pagoda – assistir à higiene diária do Buda – ouviram bem. Antes das 5, os monges começam a lavar-lhe a cara, os dentes, os populares fazem oferendas. Diz-se que o próprio Siddartha assistiu à construção desta sua imagem, hoje em dia parcialmente desfigurada porque os homens (os únicos que têm acesso ao “altar”, nem tudo é perfeito) o cobriram durante séculos de folhas de ouro para ganharem méritos e bom karma.

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Fotografia de Catarina Barata.

O charme espreita a cada esquina, principalmente nas celebrações – em Myanmar, tudo é razão para festejar. Mulheres bonitas, maquilhadas e bem arranjadas, com os seus longyis coloridos (os sarongs birmaneses), com filhos felizes pela mão. Homens também usam longyis e as famílias são alegres. Das celebrações que presenciámos, tivemos a sorte de assistir a um cortejo de Principezinhos, ou meninos de 5, 6 anos que vão entrar para um mosteiro por um curto período e que, dias antes, se vestem de Príncipes durante um dia. Siddartha era filho de um rei e, antes de atingir o nirvana, saiu do palácio, tornando-se um asceta até chegar à via do meio, o maior ensinamento do budismo. Esta é, portanto, uma homenagem ao próprio Buda. As crianças passam pouco tempo no mosteiro, para regressarem aos 16, 17 anos de idade e nessa altura decidem se optam definitivamente pela vida monástica.

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Outra experiência memorável foi o workshop de birmanês logo no primeiro dia completo – língua, história e aula de culinária com ida ao mercado – em casa do Zayar, um amigo do Jorge, que nos introduziu, de forma exímia, à cultura local. Aconselho vivamente DoBurma a quem quer conhecer – dominar! – o “Birmanês do dia-a-dia”, ter uma introdução histórica, sobre as artes e os ofícios, costumes e tradições do povo, e, folha de chá no topo do bolo, ter o guia ideal para o mercado local. Ou nem tanto, porque nos deixou por nossa conta, divididos em grupos, para comprarmos um quarto de couve chinesa, uma lima, um tomate verde e um vermelho, tudo em birmanês! Ensinou-nos a arte de cozinhar a melhor Lahpet thoke salad, (salada de folha de chá) de toda uma viagem, onde comemos sempre que nem uns abades (monges não, que a partir das 12h estão em jejum). Como vêem, em Myanmar come-se chá! “Mingalabar”, “Dsiju ba” (obrigada), “da blau lé?” (quanto custa) e “no no xô bá” (dê-me o preço mais baixo que consegue) passaram a fazer parte do dia-a-dia.

Esse final de tarde foi passado no monumento que é o mais importante templo budista, pelas relíquias que alberga, e símbolo da resistência do Myanmar, pelo discurso de Aung Saan Su Kiy no Verão de 1988, o imponente Shwedagon. Com quatro entradas, a stupa principal coberta de ouro e guardiã de pedras preciosas oferecidas como prova de fé, altares de Budas e de animais do horóscopo birmanês – a cultura do país baseia-se no budismo teravada, influenciado pelo animismo e elementos locais. Como nasci na quarta à tarde, “dei banho” ao Buda posicionado ao lado do elefante sem dentes, acendi uma vela, e ofereci-lhe flores por uma intenção especial.

Andámos de vários meios de transporte, riquexós, trixós (será isto?), sidecars, e-bikes, canoas, barcos lentos, comboio em ordinary e upper class, voo doméstico. Vimos o nascer e o por do sol em modo repeat. Destaco o de Bagan, cidade-natureza com mais de três mil templos de terracota onde o sol nasce em conjunto com centenas de balões de ar quente a ascender e a inundar o céu. Um buda espreita a cada colina, a cada canto, ou 500 mil como num único templo, o Sambuddhe Pagoda, em Monywa, Mandalay. Outro Buda que me marcou foi o “Budão” de pé, na mesma cidade (ver dimensões na reportagem fotográfica, ultrapassa os 100 metros, é o segundo maior). E os Budas em mármore da carving marble street em Bago, esculpidos por miúdos e graúdos, numa demonstração de dureza e devoção.

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Fotografia de Catarina Barata.

Destaco como lugares de assinalável beleza, sentimento difícil de expressar, ou experiências monumentais (em sentido literal e figurado), os seguintes: dança dos remadores no lago Inle, um lugar-postal de casas de palafita e hortas flutuantes, onde os moradores vivem numa simbiose com as águas que lhes dão sustento. Lá tivemos o privilégio de pernoitar em casa de um local; passeio de e-bikes pelos templos de Bagan e, claro, visitas aos principais templos ou a algum que nos prenda os sentidos; descida pelo rio Irrawaddy de Mandalay a Bagan; nascer do sol na ponte U Bein, a maior ponte de teca do mundo; as praias desertas, de ondas e água morna e cristalina, areia branca, camarões e abacate, e fogueiras, de Ngapali Beach; o maior livro do mundo, cada folha com os ensinamentos do Buda numa estupa, no Kuthodaw_Pagoda, em Mandalay; o templo “vestido de noiva”, com a forma do Monte Meru (onde vivem os deuses do hinduísmo), em Mingun.

E as subidas, meu Buda (obrigada, Jorge), os 1.729 degraus de Mandalay e a quase escalada ao Monte Popa, ou quase escaldada dado os quase 35º que enfrentámos. O Monte Popa é refúgio dos Nags, ou espíritos que convivem “amigavelmente” com os Budas, alvo de devoção dos birmaneses – e dos muitos macacos – e local de peregrinação, pelo menos uma vez na vida, como o Shwedagon ou a Rocha Dourada. A Rocha Dourada que vimos apenas num recuerdo porque estava em obras e é…uma rocha dourada, ou seja, uma rocha coberta de folhas de ouro que desafia as forças da gravidade, a curta distância de Bago e é casa de uma relíquia do Buda.

Aconselho à “deambulação” em Yangon, pela zona colonial, bairro hindu, muçulmano, chinatown, becos reabilitados com belíssimas pinturas, mercados de livros com exemplares d “O Principezinho” em birmanês. Para além do imperdível Swhedagon, claro. Mercados há muitos e com sedas e peças de prata, madeira, lacadas, que refletem os principais ofícios locais. Fã de elefantes me assumo, quase uma dezena adquiri e dos mais diversos materiais para adornar a minha casa e a mim própria. O elefante é um símbolo sagrado para o budismo, foi este mamífero que – a modos de Anjo Gabriel – anunciou à mãe do Buda que este vinha a caminho. Os templos são ladeados por elefantes ou, maioritariamente, por Chintés, leões místicos e lendários, guardiões da Birmânia.

Fecho com chave (de folha) de ouro: os sorrisos desarmantes dos birmaneses e o seu olhar doce e profundo, de curiosidade e alguma timidez. Um amigo-família do Jorge, o Kyaw Kyaw (Joe Joe), artista, condutor de tuk tuk e pessoa muito especial, convidou-nos para um dos melhores almoços de viagem, em sua casa, em família – a mulher Win Win e as duas filhas pequenas de nomes similares e totós espetados. O Jorge convidou-o a vir ao lago Inle connosco, o Kyaw Kyaw, de trinta e poucos anos nunca tinha saído de Bagan. O Inle ficava noutro estado, em Shan, e tinha outra língua. Andou como viajante, sempre de sorriso aberto, surpreendido pela vida, numa atitude de gratidão desarmante e uma alegria de criança. Era o final da viagem, também andávamos em levitação, quase a caminhar pelas águas. Parece-me que o Kyaw Kyaw é sempre assim, nós é que no lufa-lufa diário perdemos a capacidade de nos surpreender. E repetia “I am so happy”.

Repito, também, como o Kyaw Kyaw, surpreendida e deslumbrada: “Myanmar, I am so happy”.

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Fotografia de Carlos Martins

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