O machista envergonhadamente dentro do armário

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Imagem de Isabel Santiago.

É sabido. Por estes dias há imensas feminazis, numerosas feministas sem coração nem gratidão, excessivas mulheres independentes decididas a darem cabo de instituições como a Família (com F grande) e a Maternidade (com M ainda mais grande). O que há muito pouco são machistas. Agora ninguém é machista. Os homens são todos, todos, todos amorosos. As suas acólitas femininas, o mesmo. Não podem fazer nada se as estouvadas das feministas não conseguem perceber o realismo das suas constatações, se ofendem com as suas afirmações mais inócuas, se irritam quando os bondosos homens lhes tentam explicar porque são umas desnaturadas e, a serem feministas, como os deviam ouvir para perceberem (percebermos) como é que se é feminista como deve ser. (Têm aqui um exemplo de um homem que sabe o que é o ‘verdadeiro feminismo‘, não riam, please – porque do feminismo que não é verdadeiro estão forças muito obscuras por trás.) Os homens são sem mácula e as mulheres não percebem nada.

Qualquer pessoa sensata sabe que é este o estado das coisas.

Não é? Afinal, ninguém reconhece que é machista. Nem os trolls mais obcecados. Fica mal. Portanto, as estratégias agora são outras. E enquanto dizem as maiores alarvidades machistas, declaram-se ferozes admiradores das capacidades femininas, já tantas vezes demonstradas. Até veneram a Margaret Thatcher, ou a Hillary Clinton, ou a Michelle Bachelet, ou a Angela Merkel – há maior prova de devoção quase, quase feminista?! E quem não vê como o seu coração puro está absolutamente isento de uma gota de machismo é, claro, uma feminazi e uma feminista destemperada.

Aqui vai uma lista (longe de exaustiva – ficaria ligada ao teclado nos próximos meses) dos comportamentos típicos dos machistas encapotados.

1. Os que ficam calados em qualquer caso que envolva violência sobre mulheres. Passa-lhes ao lado. Sempre. Não têm absolutamente nada a dizer. Se calhar nem reparam, que há notícias sobre futebol e têm que comentar à exaustão a frase mais sem importância que alguém do partido XYZ, de que não gostam, proferiu. Mas, claro, há uma discussão que envolva chamar nomes a feministas e estão lá caídos. Estão sempre muito atentos a casos de ‘feminismo tóxico’. Moca com pregos em cima de uma mulher? Chiu, não viram nada. Mas evidentemente muito lestos a criticar essas badalhocas das feministas.

E se há algumas mulheres que são doidas e por acaso também são feministas (reconhecemos com amargura: não é só no grupo dos machistas que há gente muito desequilibrada), fazem a correr o serviço público de gozar com o feminismo. Mensagem não muito subliminar: só alucinadas são feministas.

É que vossas mercês têm de entender: é muito mais importante expor o feminismo que criticar e exigir mudanças – legislativas, judiciais, sociais, organizativas, o que seja – em tocando às mulheres que são mortas em contexto de violência doméstica, às violações, aos abusos sexuais, à impunidade destes crimes, às penas suspensas ou às absolvições, às fundamentações intoleráveis das sentenças e acórdãos dos juízes para garantirem a impunidade dos agressores de mulheres. E nem vale a pena irmos para injustiças e desequilíbrios que não envolvam violência física, porque esses são todos invenções de cérebros toldados pelo feminismo.

Mas mantém-se. Pessoas cujas críticas vão todas no sentido de alvejarem feministas e nunca para as injustiças que recaem sobre as mulheres, são machistas. Por mais profissões de fé que façam. E são machistas dos retintos.

2. Também há os que se preocupam muito com o machismo e a condição feminina. Mas na Índia, nos países islâmicos, na China. Aí sim, há violações em barda, agressões a mulheres, desrespeito dos direitos humanos das mulheres, injustiças gritantes. Estes corações sensíveis choram e auto colocam-se de luto com o grande sofrimento das irmãs destes países. Mas é nesses países meios bárbaros. No mundo ocidental ESTÁ TUDO BEM, OUVISTE, SUA FEMINAZI?!! Os homens ocidentais são imaculados e nada se lhes pode apontar. Vejam bem que até ‘deram’ o voto às mulheres e as desnaturadas nem agradecem.

É que se não vivemos tão mal como as sauditas ou as indianas, caladinhas, ouviram?! Que é lá isso de ainda quererem mais?!

3. Negacionistas do wage gap. Ou o gender wage gap não existe, ou existe só por razões perfeitamente racionais economicamente (RIP neurónios, por muitos graus académicos que tenham. Não tiveram uma única cadeira relacionada com recursos humanos, nem qualquer experiência com gestão de recursos humanos, nem, claro, gastaram o seu tempo a ler e a informarem-se sobre o assunto). As mulheres engravidam (o que é que isso explica, tendo em conta o número escasso de gravidezes por mulher, ou como diminui a competência é que não contam). As mulheres escolhem trabalhos mal pagos. As mulheres trabalham menos horas, e trabalhos menos perigosos e mais aprazíveis (porque limpar retretes de centro comerciais com químicos que danificam os pulmões é aprazível e nada perigoso, só para dar um exemplo de trabalho maioritariamente feminino). Blablablabla. Reconhecer a discriminação permanente envolvendo trabalho das mulheres – malgrado estar estudada e documentada – é que não. (Voltarei a este assunto.)

4. Claro que estas alminhas são contra a violência contra mulheres. Quem não é? Em teoria. Porque em cada caso concreto de violência doméstica ou de violência sexual, encontram forma de relativizar, de defender sentenças e acórdãos iníquos (este último tuite que fala em ‘consentimento ambíguo’ foi feito a propósito do caso da violação da grávida pelo psiquiatra, na altura do acórdão que o absolveu). Em cada caso concreto, defendem os agressores. A conversa das acusações falsas de violação ou de violência doméstica está sempre na ponta da língua. (Também voltarei em mais detalhe a este assunto.)

5. Os liberais que só são liberais quando o liberalismo e o capitalismo penaliza mulheres. Dou um exemplo. Os ‘liberais’ (é conveniente por muitas aspas quando se fala de certos ‘liberais’) defendem, com lógica, que as empresas privadas devem poder discriminar negativamente as mulheres em ordenados e promoções, mesmo se for má política económica. E eu concordo: as empresas privadas têm esse direito. Simplesmente acrescento que, se exercem esse direito, estão a penalizar objetivamente a sociedade (porque penalizam metade da população, reduzem o potencial económico das empresas, não respondem efetivamente a grandes segmentos do mercado – os femininos -, impedem metade da população de ter plena participação laboral, de se realizar profissionalmente e de aceder a rendimentos que a avaliação justa do mérito lhe daria, um quilométrico etc.). Donde – e isto em economia chama-se externalidade negativa – faz todo o sentido o estado taxar mais estas empresas, não as escolher para fornecedoras, não lhes atribuir subsídios, não lhes adjudicar concursos públicos, e por aí adiante.

No entanto, o liberalismo destes ‘liberais’ é coisa superficial. Recordam-se de um memorando ranhoso, cheio de links para o wikipedia mas a armar ao científico, que um empregado da Google escreveu? Tendo sido despedido por isso? Ora os mesmos liberais, que consideram que as empresas têm direito a discriminar mulheres, ficaram muito ofendidos porque a Google preferiu não irritar a metade feminina dos seus consumidores e decidiu despedir o misógino de serviço. Aí já não gostaram da liberdade empresarial. Mas não se preocupem: se falarmos da ausência de mulheres nas empresas de tecnologia, estes ‘liberais’ voltam a correr a defender estas techs.

E não querendo demonizar o autor do memo – julgo-o melhor que muitos dos seus defensores, consideravelmente mais cínicos – também valia a pena começarmos a estabelecer a relação entre machistas e dificuldades diagnosticadas como autismo (é o caso do autor), síndromes de asperger, dificuldades de relacionamento em geral e com mulheres em particular e outras condições psicológicas.

6. Homens que dizem insanidades como ‘os homens é que são pedreiros e mineiros’. (E?! As mulheres é que limpam os hotéis e os centros comerciais. As mulheres é que são a maioria das pessoas que se prostituem. Onde está o argumento?). ‘Os homens são a maioria da população prisional.’ (Isto é tão absurdamente imbecil que nem dá para alinhavar resposta.) ‘Os homens é que morrem nas guerras.’ (E as mulheres é que são violadas nas guerras. Novamente: qual o argumento?) As pessoas que dizem isto são profundamente burras, é certo. Profundamente. Não há outra forma de qualificar. Mas também são machistas. Muito machistas.

E por agora termino com a lista de alguns comportamentos-tipo dos machistas que estão dentro do armário. Quando passarem por eles nas redes sociais, já sabem, chamem o que veem pelo nome. A censura social faz milagres e, como o realizador do documentário Internet Warriors constata, até os misóginos têm vergonha de se assumir como misóginos. Não lhes façamos a vontade.

(Os tuites vêm de uma pesquisa rápida no twitter, geralmente de casos que me recordava. São somente uma pequena amostra do machismo que anda pelas redes.)

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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