Olha, no Expresso lá se esqueceram outra vez que as mulheres existem

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Imagem de Isabel Santiago

O Expresso publicou uma lista com os 40 líderes empresariais do futuro de Portugal que têm agora menos de 40 anos. A composição da lista foi decidida pelo Expresso e pelo Fórum de Administradores e Gestores de Empresas. Não sei quem foi, do Expresso, que deu a sua excelsa opinião nesta matéria, nem ouvi falar deste Fórum, mas, neste caso, e tendo em conta que apenas 12% das administrações das empresas cotadas em bolsa são mulheres, aposto que o júri foi mais masculino que feminino.

Ora a lista, em 40 alegados futuros líderes, tem duas mulheres. Repito: duas – duas! – mulheres. 5%. Uma percentagem ainda menor que a percentagem vergonhosa das empresas cotadas. Isto é tão gritante que se pensaria que qualquer jornalista se questionaria antes de publicar tal tontice. Mas aparentemente ninguém considerou estes números estranhos, e todos alegres dedicaram-se a entregar prémios com festa e tudo.

Bom, aqui chegados, temos de fazer umas tantas considerações.

1. A lista não vale nada. Uma realidade inescapável do nosso país é que os jornalistas não entendem absolutamente nada do que é um empresário, gestor ou empresa com futuro. (E digo isto tendo boa parte da minha experiência profissional na gestão e como empresária.) Os jornalistas gostam de gestores e empresários e empresas parecidos com os políticos: com lábia, tendência para a aldrabice, exagero, com planos megalómanos, que falam muito e gostam de se ouvir, cheios de esquemas que ‘sabem’ que vão convencer as pessoas, convencidos da própria genialidade, e por aí fora. Os projetos que os jornalistas admiram são sempre coisas grandiosas, disruptivos na teoria, concebidos para provar mais a genialidade do criador do que para responder a necessidades dos consumidores.

É por isto que os jornalistas adoram elogiar empresários que, mais tarde, acabam falidos ou a espatifar empresas. Quando vejo uma nova empresa ter visibilidade na imprensa, para mim é certo e sabido: vai correr mal. Os exemplos são intermináveis. Não estou a falar de publicidade ou de notícias sobre novos produtos, mas daquelas peças que servem como elegias aos empresários e às ideias que agradam aos jornalistas (ou que as empresas de comunicação lhes impingiram). Um gestor decente não gasta recursos iniciais a aparecer num jornal, pelo contrário (porque sabe que pode falhar e que a maior visibilidade lhe traz maiores custos reputacionais). Só gasta recursos e tempo nisso quem não percebe patavina do que está a fazer. Um gestor sólido gasta recursos inicialmente, porque são poucos, somente a comunicar com os potenciais clientes. Sabe que os projetos têm períodos de crescimento e que há muito trabalho nisto, daquele invisível e tantas vezes inglório. De forma nenhuma gasta o seu tempo e imagem a promover algo que não sabe se vingará.

Os empresários e gestores sólidos e que têm sucesso são discretos, percebem que raramente as ideias excessivamente mirabolantes vingam, e quando vingam têm muito trabalho pouco sedutor por trás e muita tentativa e erro. Os projetos de sucesso e os gestores de sucesso nunca se anunciam: dá-se por eles quando já são incontornáveis. É só SEMPRE assim.

Concluindo, com homens, mulheres ou sexualmente fluídos, a lista vale zero porque a comunicação social nunca acerta nestes assuntos.

2. Isto dito, não valendo nada, não deixa de ser simbólico como se continua a supor normal as mulheres estarem excluídas das empresas. É o velho hábito de sempre: fingir que as mulheres não existem, por uma ou duas a fazerem figura só para não dizerem que não há nenhuma, ignorar os contributos que as mulheres fazem, não reconhecer mérito para aparecerem, enfim, relegá-las para o seu lugar secundário.

Esta estratégia – fazer desaparecer as mulheres do espaço público, não as mostrando e fingindo que elas e os seus contributos não existem – é das mais velhas e eficazes. Sucede em todas as áreas. Fala-se de gestores homens. De artistas homens. De escritores homens. De jornalistas homens. De publicitários homens. De políticos homens. De cientistas homens. De homens.

(Já aqui falei deste apagamento das mulheres no mundo das artes plásticas.)

E, assim, há pouco tempo tivemos a Visão a fazer uma capa com as pessoas que tinham revolucionado o nosso mundo com a tecnologia e eram só homens. O Público a convidar só homens para dar os seus cêntimos sobre o que seria o ano de 2017. Inúmeros programas televisivos recorrentemente não têm mulheres ou têm uma de vez em quando. As entrevistas são a homens.

Nada disto por que as mulheres não façam contributos ou não tenham nada a dizer. Simplesmente porque nestes meios para os decisores só interessa ouvir o que os homens têm para dizer e só valorizam os contributos masculinos.

O que podemos fazer? É fácil. Por mim, uso o meu poder como consumidora. Uma comunicação social que não percebe que exclui o ponto de vista de metade da população, e que não considera metade da população com mérito suficiente para ser exibida, bom, é uma comunicação social que não me interessa. Não leio, não compro, não assisto ao programa. Como em tudo na vida, não retribuo positivamente a quem me trata mal. Convido-a a fazer o mesmo.

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