Sucesso feminino só depois dos 60

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Há uns tempos estive em Londres num curso da Christie’s Education. A dias tantos, uma das conferencistas dizia que os artistas que mais agitação e interesse geravam atualmente no inner circle do mercado da arte eram as mulheres artistas já de idade avançada. Deu duas razões. Uma: nestes anos em que a vaga feminista está sem contenção, de repente os players do mercado repararam que várias mulheres artistas tinham sido menosprezadas (o costume), os seus trabalhos eram de qualidade que não havia sido reconhecida na altura, a sua produção artística finalmente merecia ser devidamente celebrada e divulgada. Duas: o mercado da arte é como é, quando um artista morre deixa de produzir, a oferta de obras torna-se fixo, a procura tende a aumentar, pelo que os preços sobem. Interessa a um galerista promover um artista que não viverá muito mais décadas – assim dentro de pouco as obras estarão em valores em crescendo.

Acrescentaria outra razão que não foi dita. Às mulheres artistas mais velhas é-lhes dado o reconhecimento – porém tardio. Para as artistas mulheres mais novas continua tudo igual, mais ignoradas e menos divulgadas e com preços menores que os homens. Lá terão de esperar umas décadas até que também se descubra que afinal são fabulosas e foram indevidamente esquecidas. É como se só no fim da vida – quando já fazem pouca concorrência aos artistas homens mais jovens – é que se pudesse reconhecer o talento das artistas. As novas ainda podem atrapalhar os concorrentes, pelo que vamos ignorá-las e não lhes reconhecer a qualidade do trabalho.

Claro que estes processos não serão, maioritariamente, conscientes. É o agente que escolhe o rapaz artista porque sim. É o galerista que se identifica mais com a estética dos artistas masculinos. É o comprador de arte que não sabe o que está a fazer e compra um quadro de arte conceptual de um homem de valor artístico subterrâneo, porque esse artista tem um ego insuflado (ocorre mais nos homens) e ao fim de duas exposições já contratou vários minions que pintam o quadro por ele – e, em consequência, é um artista prolífico e produz e vende imenso. (Estou a descrever um caso concreto.) As mulheres são menos dadas a estas megalomanias pelo que produzem menos e vendem menos. (Ressalve-se que muitos artistas masculinos passariam anos em psicoterapia se comprometessem desta forma a integridade das suas obras; a maioria dos artistas masculinos também não tem propensão para vendedor de seguros.) Muitos efeitos concorrem para este resultado. Estamos programados para atribuir menos valor ao trabalho feminino. (Deixo aqui ligação para um singelo estudo que mostra isso mesmo, de entre tantos no mesmo sentido.) Depois juramos a pés juntos, cruzando os dedos, que fomos justos e imparciais. O certo é que, entre fatores conscientes e deliberados e comportamentos para que estamos culturalmente programados que reproduzimos sem notarmos ou questionarmos, este efeito é transversal a todas as atividades.

Na política ocorre o mesmo, por cá sobretudo nos dois maiores partidos. As mulheres com protagonismo são geralmente mais velhas. Raramente os partidos, os dois maiores com proporcionais culpas, e onde a centrifugação do poder mais se faz sentir, destacam mulheres de vinte ou trinta anos – e quarenta é só com sorte. Por que razão? Há que não criar competição aos promissores jovens em ascensão.

Curiosamente por estes dias no PSD – que tem direção e órgãos políticos bastante mais velhos que no ciclo anterior – clama-se pela falta de renovação. Como não há lugares para os homens novos que querem construir carreira, agora sim, proclama-se que existe um problema. Quando se excluíam mulheres com a carreira quase toda pela frente – bem, é porque eles são tão mais dotados

No entanto, a vida é feita de paradoxos. São estes homens mais velhos que, pela primeira vez, colocaram o PSD a votar favoravelmente as quotas de mulheres nas listas eleitorais (na última alteração da lei da paridade que colocará a representação feminina nos vários órgão eleitos nos 40%) e na administração pública. Porquê? Porque já têm idade para ter posição e sabedoria – sabedoria para saberem reconhecer o mérito sem preconceitos e posição para já não temerem o acréscimo de competição que seria ter mulheres a disputarem os mesmos cargos. Poderia dizer que a alteração ocorreu também porque tiveram a inteligência de ir atrás do voto das mulheres citadinas mais novas, que percebem, ao fim de alguns anos no mercado de trabalho, como o status quo está inquinado contra elas. É, como todas, uma decisão para seduzir um certo eleitorado.

Claro que na própria comissão política de Rui Rio e no governo sombra que criou há muito poucas mulheres. E Assunção Cristas, do CDS, adepta das quotas para mulheres, quer preservar o segundo lugar masculino nas listas das próximas eleições europeias. Enfim, há sempre um leve odor pestilento nestas maquinações políticas que colocam promessas de lugares à frente de valores, ou que parecem mais rebuçados para as eleitoras do que convicção profunda. É uma pena que a direita, quando começa a encarar as questões femininas sem os rodriguinhos a que os muito conservadores obrigam, não se porte com uma verticalidade que nos permita, mesmo com o atraso considerável, dar-lhe os parabéns.

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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