O Silêncio das Mulheres, de Pat Barker

Nas epopeias clássicas gregas as mulheres não têm papel de destaque. São poucas e sobretudo usadas para explicar as arrelias que trazem aos valentes homens. Helena, claro, é a causadora da guerra entre helenos e troianos — ela, evidentemente; não o sensaborão do marido Menelau, que a levou a fugir a correr para o outro lado do mar Egeu com o vaidoso Páris. Cassandra, a troiana, só falava em desgraças: traduzindo, percebia o que se passava no mundo e verbalizava-o, mas quem liga aos avisos de uma mulher? Penelope é das poucas que merece elogios — afinal, esperava pacientemente por Ulisses, o marido, enquanto este seduzia sereias e outros seres mitológicos do sexo feminino.

O Silêncio das Mulheres, de Pat Barker

Clitemnestra, ou o preço de agir

Clitemnestra, por quem tenho uma dedicada veneração desde que visitei Micenas nos idos de 1996 ou 97, é formidável — pelo que, claro, é representada como uma serpente venenosa pelos autores pouco dados a apreciar mulheres donas do seu nariz. Agamémnon, seu marido e irmão de Menelau, sacrificou Ifigénia, a filha de ambos, em troca de bons ventos para a frota grega chegar a Troia. Como represália, Clitemnestra, ficando a governar Micenas durante a ausência do marido, envolveu-se com Egisto e, quando Agamémnon regressou, assassinou-o. Bem feito, é o que merecem os pais que sacrificam as filhas aos deuses.

Ao invés de ser aplaudida por uma ação natural numa mãe, Clitemnestra é também assassinada na Oresteia, pelo ingrato do filho Orestes, sedento de vingar a morte do pai. Era a Idade do Bronze, e não choca muito o revanchismo anti-mulheres dos escritores dessa época. O que choca é perceber como as mesmas ideias ainda permanecem em escritores do século XXI, ainda que com menos assassinatos à mistura. Leia-se “Mulheres & Poder”, da classicista Mary Beard, para se indignar com as linhas de continuidade.

O exercício de Pat Barker

Pat Barker, vencedora do Booker Prize, faz esse exercício em “O Silêncio das Mulheres”: escrever a história das mulheres da guerra de Troia. A narrativa centra-se em Briseida, rainha de Lirnesso, cidade vizinha e aliada dos troianos. Quando Lirnesso cai, Briseida é entregue a Aquiles, o invencível, como prémio de guerra, e torna-se — ou tornam-na — sua concubina.

Saindo das proezas das batalhas, Pat Barker descreve a retaguarda onde estavam as mulheres capturadas aos inimigos, os tais troféus. Afinal, nem só os homens existiram na História, apesar de pelos livros de História e pela literatura às vezes parecer. Barker conta, inevitavelmente, uma vida de indignidades, de mulheres usadas como prémios sexuais e sem qualquer controlo ou agência sobre a própria vida. Conta também das ligações e dependências complexas que se estabelecem entre seres humanos, mesmo nas mais desiguais circunstâncias.

FiguraPapel na tradiçãoO que Barker ilumina
HelenaCausa da guerraO corpo da mulher como pretexto dos homens
ClitemnestraSerpente vingativaA mãe que pune quem sacrifica a filha
CassandraProfetisa ignoradaA voz feminina desvalorizada
BriseidaPrémio de guerraA vida concreta de quem foi troféu

Briseida, a mulher sem nome de rainha

A escolha de Briseida como centro da narrativa não é inocente. Rainha no seu país, torna-se concubina no campo inimigo: perde o nome, o estatuto e o próprio corpo, que passa a pertencer ao vencedor. Barker recusa heroicizá-la e mostra-a a sobreviver dia após dia, com as pequenas astúcias de quem não tem poder nenhum. É essa vida miúda, feita de humilhações e de laços improváveis, que a epopeia clássica deixou de fora.

A continuidade até hoje

A força do livro está em percebermos que a lógica que trata o corpo das mulheres como despojo de guerra não morreu com a Idade do Bronze. Atravessa os séculos e reaparece sempre que se decide que a voz de uma mulher incomoda. Ler Barker e Beard em paralelo é ver a mesma linha de continuidade a atravessar a Antiguidade e o presente, com menos assassinatos à mistura, mas com a mesma tentação de silenciar.

O silêncio do título

O título do livro — “The Silence of the Girls” no original — é sintomático. Por pretender terminar o silêncio sobre as vidas das mulheres que não foram contadas pelos historiadores nem pelos escritores. Mas também por ilustrar essa grande crença do mundo de todos os tempos: “o silêncio assenta bem às mulheres”, escreve a autora a dada altura.

  • Os livros de História contaram a guerra sem as mulheres que a viveram.
  • Barker devolve agência e nome a quem foi tratada como prémio.
  • As continuidades com o presente estão na base do incómodo que o livro provoca.
  • Mary Beard mostra como a mesma hostilidade à voz das mulheres atravessa os séculos.

“O Silêncio das Mulheres” é um bom livro para as férias. Podem emparceirar com (recomendo outra vez) “Mulheres & Poder, Um Manifesto”, de Mary Beard. A primeira parte é dedicada a mostrar como o mundo, desde a Antiguidade, acha irritante essa coisa que é a voz das mulheres. Bom, irritemos, então. Boas leituras.

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