A Tosse é o último projeto de Mami Pereira. É um livro com uma capa irrepreensivelmente bela — e não podia ser de outra forma, tratando-se de uma autora apaixonada pela estética art déco que lhe inspira o exterior — e que versa, no interior, um tema habitualmente tido como elitista: a música clássica. Mas que, como a própria Mami diz, “é um livro de punho no ar”, que “de quadrado só tem a forma” e que “não é para oferecer aos avós fascistas”. A contradição entre o interior contestatário e o tema erudito é apenas aparente.

Quem é Mami Pereira
A Tosse não é a primeira obra da autora. Mami Pereira assina também outro livro quadrado, igualmente irrepreensível por dentro e por fora, com o título autoexplicativo MAMIGEOGRAPHIC — Crónicas de Viagem. Antes desta pandemia que nos prendeu em casa, ou nos melhores momentos dentro do país, era essa a sua atividade profissional: escrevia crónicas sobre as viagens, primeiro para o Dinheiro Vivo durante três anos e, depois, para o Eco durante dois. Retomará essa atividade “assim que possa e assim que o mundo possa”.
O caminho até às crónicas de viagem não foi linear. Licenciou-se em Comunicação Cultural e fez um mestrado em História da Arte porque queria ser professora, uma vontade que atribui à sua “veia pedagógica”, descrevendo-se como um “rato de biblioteca”. Escreveu para a Le Cool, os Guias Com Vida e a Arqueolojista. Entretanto começou a viajar: foi à China e à Índia e percebeu que gostava mais de viver nesses lugares do que de os visitar. Passava lá seis meses por ano, fugindo ao inverno português.
Música clássica como ponto de partida
A escolha da música clássica para tema do segundo livro é, de resto, bastante previsível. Mami conta que é “melómana”, que cresceu na Companhia Nacional de Bailado — a mãe era lá produtora — e que cresceu também no São Carlos e no São Luís. A escolha das músicas obedeceu ao melhor dos critérios: são as de que mais gosta. A Tosse traz cinquenta textos sobre cinquenta músicas de cinquenta compositores e, além disso, funciona como um bom livro de divulgação musical.
As crónicas, porém, não são apenas sobre peças musicais. O último texto, dedicado a Leonard Bernstein e ao célebre West Side Story, evoca a sempiterna questão da imigração e do preconceito para com quem chegou há pouco tempo de outras paragens. Os temas do feminismo também por lá se passeiam, inevitavelmente no texto sobre a ópera Carmen, de Bizet, com o ciúme, a violência e as mulheres que têm de pagar se não se portarem bem.
Mulheres cujo trabalho foi apropriado
Outro texto carregado de feminismo traz Lili Boulanger e a velha questão das mulheres cujo trabalho e contributo artístico é apropriado por — e atribuído a — irmãos, maridos ou qualquer parente masculino capaz de descansar o mundo reforçando a convicção de que uma coisa tão boa não pode ter sido criada por uma mulher. E Florence Price, compositora negra americana dos inícios do século XX, levanta a questão do racismo e da dupla exclusão de ser do sexo e da raça que não são os preferidos dos poderes instituídos.
As obras e os temas no centro do livro
| Obra ou autor(a) | Tema que suscita no livro |
|---|---|
| West Side Story, de Leonard Bernstein | Imigração e preconceito |
| Carmen, de Bizet | Ciúme, violência e castigo das mulheres |
| Lili Boulanger | Apropriação do trabalho das mulheres por parentes masculinos |
| Florence Price | Racismo e dupla exclusão |
Viagens que mudam quem viaja
A escrita de Mami Pereira usa o humor em barda, é irónica e satírica com abundância. A leveza e a refinada elegância estilística não devem enganar: na sua voz estão plasmados os “países que nos obrigam a tomar uma posição”. Viajar, diz, “confirmou os meus valores. Vemos o outro lado da História”, da colonização, por exemplo. E o que muda numa pessoa depois de tantas viagens? “Percebi quem sou fora daqui; nós por cá temos a nossa personagem.”
Nas redes, Mami Pereira usa e abusa do Instagram, onde passeia ideias, viagens e projetos. As fotografias são sempre deliciosas, mas, garante, “eu estou nas legendas, não estou nas imagens”. Para passar a mensagem de que “vivemos numa sociedade patriarcal que nos usa como objetos”, deixa crescer o cabelo e usa pestanas postiças: com uma imagem de mulher, o algoritmo leva as palavras a muito mais gente.
- A Tosse reúne cinquenta textos sobre cinquenta músicas de cinquenta compositores.
- MAMIGEOGRAPHIC reúne crónicas das viagens da autora.
- Escreveu para o Dinheiro Vivo, o Eco, a Le Cool, os Guias Com Vida e a Arqueolojista.
- Licenciou-se em Comunicação Cultural e tem um mestrado em História da Arte.
- As redes sociais são usadas para levar as suas ideias a mais gente.
Um farol, não uma conversão
“O que tento fazer nas minhas redes é ser um farol dos meus ideais. Um farol faz sentido para os barcos. Quem for barco, aproxima-se; quem for trator, não. Não quero converter ninguém, quero encontrar a minha tribo.” E assim se descreve uma autora que se apresenta como uma colecionadora de beleza, sempre de modo apurado e prazenteiro, num livro que é, ao mesmo tempo, um exercício de contestação e uma festa de música.
