O fetiche das cenas de violação nos filmes e nas séries de televisão

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Há umas semanas estava na Netflix a espreitar séries para ver. Arrisquei numa. O início levou-me para os Países Baixos de meados do século XIX e começava logo, sem qualquer aviso (ou, havendo, era discreto, que eu não dei por ele), com uma cena de violação de uma mulher jovem. Saí imediatamente daquilo. Não vi qual o desenvolvimento da narrativa a partir da cena inicial, mas tenho a certeza, mesmo não vendo, que a cena da violação foi gratuita e só pelo gosto – sim, gosto – de se mostrar uma violação. Tal intenção – por os homens que viam a série a salivar com o visionamento de uma violação – era notória pela forma despudorada e bruta como a cena foi filmada e exibida.

Não é caso único nas séries de televisão ou nos filmes. Claro que há obras em que é inevitável mostrar uma violação, e porventura de forma gráfica – recordemos o filme Os Acusados, precisamente sobre uma mulher violada por vários homens; seria impossível não reproduzir a cena ou floreá-la como menos grave do que o exibido (e, ainda assim, a realidade foi pior). O filme contava uma história verdadeira e pretendia chocar – porque a realidade foi chocante.

Porém, é diferente um filme ou uma série que mostra uma violação para agredir o espetador com uma realidade, a da violência sexual, que é também ela agressiva e para a retratar como a tentativa de destruição de uma pessoa que é – de uma série ou um filme que mostra uma violação como se algo leve se tratasse, porque faz parte do imaginário de alguns homens e há que lhes oferecer os produtos que procuram. Nestes casos, as violações são sempre exibidas ao pormenor, apesar da desnecessidade de tal exibição para a narrativa. Há uns anos houve um filme com Monica Belluci onde por longos minutos a sua personagem era violada, numa clara glorificação do ato. Game of Thrones também ofereceu uma violação como ponto alto de uma temporada. Há mais exemplos.

Tão mau como forçar uma cena de violação é o tratamento que normalmente se lhe dá de seguida. Ou a narrativa deixa de ser sobre a vítima (bem, nestes casos as violações nunca são sobre as vítimas, pelo que o after também não é) ou se romanceia o assunto e se torna uma violação em algo que se resolve facilmente a tempo do final feliz. Nada de muito grave numa violação, portanto – é a mensagem que pretendem transmitir.

Ora julgo profundamente ofensivas estas cenas. Haveria que aprofundar também a razão que leva argumentistas e realizadores homens – porque normalmente são homens – a deliciarem-se tanto com cenas de violação. Mas nem todos os textos escritos no mundo têm de ser sobre homens – e este não é. As cenas gratuitas de violação são ofensivas por quatro tipos de razão.

Um. Porque trivializam atos de violência contra mulheres e os tornam fetiches e fantasias de homens. Dois. Porque incomodam profundamente, e são verdadeiras agressões, a mulheres que já viveram experiências de abuso sexual e de violação. Frequentemente funcionam como triggers para as vítimas, fazendo-as reviver traumas próprios. Três. Porque menorizam as consequências que a violência sexual tem na vida e na saúde das mulheres, como se fosse algo comezinho que se trata com facilidade. (O contrário do que necessitamos. É muito preciso dar a conhecer o stress pós traumático das vítimas, os gastos em saúde, o tempo que demoram a curar-se,…)

Quatro. Porque ao menorizarem quer o ato quer as sequelas, ajudam a transformar a visão que os homens têm da violação de algo grave para ocorrência que não é muito grave, donde se se violar uma mulher ou duas também não é o fim do mundo, pois não? Traduzindo: estas cenas são efetivamente aquilo que normalmente se chama de rape culture, a cultura da violação, gerando um ambiente mais propício a uma visão rosada e permissiva de uma violação. Donde, mais provável de acontecer.

As cenas de violação visualizadas são daninhas para mulheres e para homens, sobretudo se homens jovens. Como há uns anos perguntava o NY Times, se estão banidos de novos filmes e novas séries de televisão cenas com personagens a fumar, por se concluir que é um incentivo a comportamentos perniciosos, porque não se banem cenas de violação pelo menos das obras televisivas? É tempo de começarmos a exigir isso mesmo.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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