O dia em que decidi não ser psicanalista.

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Entre putas e santas fomos sempre vitimas 1/6

Os últimos dias têm sido férteis em desenterrar memórias. Devo ter escrito para cima de umas 20 páginas. Elas, as memórias, não me têm deixado sossegada para as moldar em palavras limpas.

Peguei no assunto de variadíssimas formas. Sei que irei conseguir dar a volta, mas para já há uma memória que hoje se soltou e está a deixar-me mal. Muito mal. Está a bloquear tudo. Foi em 1984 que me formei. Fiz estágio curricular e o trabalho de seminário na área da psicanálise. Aqui pela primeira vez tive contacto com consultas. Foi numa escola da cidade e eram jovens à procura de respostas. Eu tinha 24 e ela talvez uns 14. Após duas ou três sessões percebi que o pai a violava. Atónita, sem saber o que dizer, relatei o caso na supervisão clínica. Eu própria tive algum cuidado na forma como narrei o problema a quem me orientava. Depois de uma conversa de muito “jogo linguístico” ele acabou por me dizer:

Não podes ter medo; tens de lhe dizer preto no branco que o que ela tem, em relação ao pai, é inveja de não ter um pénis.

Achei tão mas tão absurdo, que nessa noite não consegui dormir. Não fazia sentido. Tomei a decisão de não o fazer e nunca o comuniquei a quem me supervisionava. Lembro que foram apenas mais três ou quatro sessões. Vieram as férias da Páscoa e a urgência de terminar a licenciatura impôs-se. Nada poderia ficar em suspenso, pois andava com a “parva” da cadeira de estatística pendurada desde o 1º ano.

O modelo psicanalítico como paradigma conceptual para a explicação do mundo interior de que somos feitos sempre foi aquele com o qual mais me identifiquei. Até este episódio ocorrer tinha ponderado ser psicanalista. Cheguei a informar-me sobre a chamada psicanálise didática. Foi um murro no estômago verem numa jovem abusada há anos, pelo pai, como esta, “sendo a responsável por esse facto”. Não tenho já a certeza, mas penso que o meu supervisor achava que era uma fantasia da parte da jovem. Relembro: estávamos em 1984.

O conceito de “patriarcado”, numa perspetiva de luta feminista, é um preceito recente, em mim. Talvez uns cinco anos tendo-o estudado mais, “afincadamente”, nos últimos dois, mas sempre numa perspetiva de entender o como nos organizamos internamente.

O recente caso de Leonor Poeiras acordou essa e muitas outras memórias, de gente ligada ao mundo da psicanálise, de ambas as margens desse rio que nos percorre o corpo. Muitas das histórias e medos e desistências, intuí-o, agora, decorreram de situações de abuso; num dos casos há envolvimento sexual. Abuso que, tenho a certeza absoluta, nem as próprias pacientes, sim, são mulheres as que conheço, percecionaram como tal. Mais ano menos ano, são mulheres da minha geração. Sei que não irão falar. É um assunto que morrerá com elas. A vergonha é muita. Expôr a sua saúde mental continua a ser tabu; assumir que, nessas sessões se sentiram tratadas como “sem-abrigo” é reforçar a sua fragilidade emocional. Falei com três, e todas me disseram que não querem fazer a exumação do cadáver há muito enterrado.

Quero aqui salientar que o modelo psicanalítico enquanto instrumento conceptual que nos ajuda a compreender essa luta titânica entre o bem e o mal continua tão válido como a Bíblia, a Torá ou os Anacletos. O grande problema reside na deturpação que o género masculino lhes dá para perpetuar o seu páter em que as mulheres, segundo Kate Millet, são uma casta com um destino previamente traçado: a submissão. Urge, por isso, repensar, integrar e resgatar à luz dos tempos atuais Shulamith Fireston, tão enxovalhada pelo patriarcado, e não compreendida por muitas feministas dessa segunda vaga. No livro “A Dialética do Sexo” esta mulher, revolucionária, propõe-nos que a psicanálise poderia ser uma mais-valia para a luta feminista. Não consigo deixar de concordar com ela. Por isso, a partir de hoje e partindo destes episódios recentes, proponho-me falar do corpo físico, mental e emocional, da mulher como instrumento – meio e fim – que o modo capitalista de organizar a sociedade impôs; o mesmo que dizer como forma de nos submeterem.

Assim encontre o engenho e a arte para desconstruir todas as armadilhas a que ardilosamente fomos submetidas.

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Maria José Carrilho
Psicóloga desativada com uma costela, no feitio, de Brites de Almeida em que tal como ela é mais a fama do que o proveito. Entre 1960, em Trás-os-Montes onde fui parida e o Porto onde fui feita segundo rezava o meu pai quando farto das minhas impertinências desabafava "por que não fui à pesca nesse dia?" e hoje, Coimbra, do meu mundo fazem parte 5 rios, o primeiro dos quais no alto alentejo raiano e 12 localidades por chão onde muitas vezes me descalcei para ser alimentada. Não sei quem escreveu mas um dia li e tomei como minha "se vos contasse tudo o que penso e vejo seria internada" Saltimbanca me sinto desenguiçando o emaranhado das ideias, qual marioneta, no caos do mundo em que me sento a atuar no pequeno palco comandada por forças que não controlo.

1 COMENTÁRIO

  1. Ainda há os que buscam, aproveitar da psicanálise o que esta trouxe de bom e inovador. Praticá-la de forma crítica em relação ao obscurantismo patriarcal e misógino. Como será possível? Não o posso dizer. Nunca fui psicanalista. Sou mais adapto da limitada ciência. Estou mais próximo das teorias psicossociais, por assim dizer. Mas tenho colegas que empenham-se nas leituras de Freud e Lacan e conseguem tirar tesouros de lá, a luz de éticas mais contemporâneas e necessariamente mais feministas.

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