Faz hoje 29 anos que no dia 29 de Abril de 1992 uma mulher se decidiu pela vida de outra mulher, a minha. Proponho à cidade onde pari que a nova maternidade de Coimbra leve o seu nome: Teresa Sousa Fernandes.

0
Teresa Sousa Fernandes

– Fica marcada para dia 29 de Abril. Esteja cá às 9:30 da manhã. Uma quarta-feira, estou de serviço. No dia seguinte vou para o estrangeiro. A cria já está apta a aguentar-se fora. Não há necessidade de entrar em trabalho de parto e ir parar a umas mãos quaisquer.

Só agora, passados 29 anos, alcancei o verdadeiro significado desta decisão da minha obstetra, Teresa Sousa Fernandes: proteger-me daquilo que hoje se classifica como “violência obstétrica”.

Às 24 semanas fui internada com ameaça de parto prematuro. Não fosse ter tido vontade de fazer xixi e ter visto umas gotitas de sangue nas cuecas nem me passaria pela cabeça ir às urgências da maternidade, pois até esse momento os movimentos mais intensos que estava a sentir na barriga não passavam, para mim, de uma agitação da cria.

Chegados lá, deu-se a coincidência de o médico de serviço ser colega de curso do meu atual ex-marido, pelo que a consulta, a que se seguiu internamento, decorreu de um modo mais informal. Foi aqui que ouvi esta frase:

– Fiz um parto pélvico para ver como era pois tinha imensa curiosidade.

Não lembro quase nada dessa semana. Porém três coisas recordo com clareza:

– numa das visitas de cortesia à enfermaria por parte da Dr.ª Teresa contei-lhe da minha indignação do parto pélvico feito pelo médico x, apenas porque sim. A minha preocupação foi no sentido deste ter uma atitude irresponsável pois não se tinha preocupado por ter colocado o bebé em perigo. O meu trabalho era com crianças portadoras de deficiências mentais e paralisias cerebrais, pelo que sabia das estatísticas relativas a esta questão. A perceção de violência exercida sobre uma mulher era um cenário que não existia para mim.

– o nome do médico por aquela atitude insensata: Br.

– o médico que me acompanhou nesse internamento, Antonino Silvestre, ter-me dado os parabéns pela minha calma quando lhe disse:

– Só quero que a cria se aguente até às 28 semanas para ser viável. O resto logo se verá.

Uma vez que a natureza decidiu que eu nascesse com um hemi-útero tal implicava, necessariamente, que a cria não dispusesse de grande espaço para crescer. Portanto, quando uma semana depois regressei a casa, tinha ordens de repouso absoluto. Cumpri.

Na consulta de rotina das 36 semanas, ficou decidido fazer o parto às 38 por razões “logísticas”, a cria estava em posição pélvica e, havendo manifesta falta de espaço, a probabilidade de dar a volta era diminuta.

No dia e hora marcados comparecemos. Não me lembro de nada em especial (não sei se por efeito de alguma medicação) e nem da entrada para o bloco operatório me recordo. Contudo, com precisão cirúrgica, tenho bem presente, a certa altura, de ver uma luz a aumentar gradualmente de intensidade, ouvir vozes e alguém atrás da minha cabeça me perguntar se estava bem.

Sim estou. Parece que me arrancaram um dente.

Fizemos-lhe muita coisa menos arrancar um dente.

Na manhã do dia seguinte já na cama com a minha bebé – só no parto fiquei a saber que tinha parido uma menina -, cheia de dores e a mal me conseguir mexer, aparece-me a Drª Teresa com o seu habitual encantador sorriso.

– Bom dia, Mari Jose (para ler com pronuncia espanhola pois foi sempre assim que me tratou desde que nos conhecemos) estou aqui para contar o que lhe aconteceu. Pedi para ninguém o fazer. Fiz questão de ser eu.

Descreveu-me, com todo o pormenor, os procedimentos a que foram obrigados, devido ao choque anafilático com edema da glote. Contou-me que pela primeira vez na vida deu graças por ter tido cirurgia geral e que mentalmente chegou a visualizar onde me haveria de cortar a traqueia para eu respirar mas felizmente tal não foi necessário. Cada segundo contava. Falou-me da equipa, suspensa, à espera da sua decisão:

–  Primeiro a mãe. Poderá ter mais filhos. Um bebé sem mãe não é nada.

Ainda hoje não encontro explicação para ter escrito os temas que escrevi, aqui na Capital Mag. Saíram, ponto! A única que me parece plausível, para quem acreditar – eu acredito – é que existe um apelo da minha ancestralidade…

Essas mulheres amparadoras de outras mulheres e aparadoras de crias.

Mulheres que, partindo de Cáceres, entraram no Nordeste alentejano e, em resultado de todos esses úteros, aqui estou hoje. Como se tivesse sido chamada a ser a sua continuadora no muito que sabem estar por fazer…

Resgatar a mulher na sua função exclusiva, como ninho da vida.

Na minha primeira experiência de parir estive entre a vida e a morte. Uma mulher decidiu pela vida de outra. É uma questão sem resposta, sei. Porém coloquei-a…

Como seria se em vez de uma mulher fosse um homem a decidir?

Na cidade, onde pari duas crias, há um debate antigo sobre a necessidade de uma nova maternidade. Foi com uma enorme alegria que tomei conhecimento no dia 24 de Março de 2021 do movimento “Nascer em Coimbra” o qual apoio sem reservas. Teresa Sousa Fernandes é uma humanista dos sete costados, como por cá todos reconhecem. Por isso, daqui, da minha singela experiência pessoal, que sei não ser única, proponho que a nova maternidade venha a receber o seu nome.

Piki, Teresa, Manuel, Maria José

Artigo anteriorA Meghan da porta ao lado
Maria José Carrilho
Psicóloga desativada com uma costela, no feitio, de Brites de Almeida em que tal como ela é mais a fama do que o proveito. Entre 1960, em Trás-os-Montes onde fui parida e o Porto onde fui feita segundo rezava o meu pai quando farto das minhas impertinências desabafava "por que não fui à pesca nesse dia?" e hoje, Coimbra, do meu mundo fazem parte 5 rios, o primeiro dos quais no alto alentejo raiano e 12 localidades por chão onde muitas vezes me descalcei para ser alimentada. Não sei quem escreveu mas um dia li e tomei como minha "se vos contasse tudo o que penso e vejo seria internada" Saltimbanca me sinto desenguiçando o emaranhado das ideias, qual marioneta, no caos do mundo em que me sento a atuar no pequeno palco comandada por forças que não controlo.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Existe moderação de comentários. Os comentários anónimos ou de identificação confusa não serão aprovados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.