A idade não interessa.

0

Eram 10h da manhã de um dia já bem quente nos primeiros dias de setembro de 2018 quando entrei naquele café para deixar uma encomenda que me comprometi a entregar a pedido de uma pessoa conhecida. Era perto de casa. Uma zona nobre da cidade de Coimbra preenchida com escolas de todos os graus de ensino incluindo artes, uma grande área comercial e um dos jardins mais frequentados. Várias vezes tinha passado por ali inclusivé por ser usuária de alguns dos seus serviços que vão desde um sapateiro, costureira, fotocopiadoras, lavandaria e até lojas de roupa de marcas conceituadas. Naquele espaço específico nunca tinha entrado.

Dirigi-me ao balcão e expliquei ao que ia. A funcionária pede-me que aguarde por estar sozinha uma vez que já tem a bandeja cheia de cafés para entregar na esplanada. Neste compasso de espera há um fulano que se aproxima de mim quase roçando e inicia um sorriso baboso. Afasto-me. Olho em volta. Vejo mais dois homens a sorrirem-me. Começo a sentir-me desconfortável. Instintivamente pressiono contra o peito o envelope que levava como que a proteger o meu decote que não era nada de especial. Finalmente a empregada entra e repito que venho deixar aquele envelope que a pessoa x pediu para ali deixar cujo nome está escrito. Confirma que a conhece e aceita ficar com a encomenda. Se, inicialmente, pensei tomar um café foi intenção da qual imediatamente desisti. Só queria dali sair.

Quando já estava cá fora sou abordada pelo homem do sorriso baboso que me põe a mão no ombro e diz “lambia-ta toda”. Respiro fundo. Digo-lhe em surdina e tom firme para tirar imediatamente a mão e pôr-se a milhas. Obedeceu. Olho para a esplanada em socorro e vejo olhos libidinosos de machos esfomeados Naquele momento reparo que ali, num dia de semana às 10h de uma manhã de um Setembro quente, só estão homens a fixarem-me.

Nesse dia tinha decidido usar um longo e banal vestido de algodão pelo que, levantei a saia com a mão para poder apressar o passo não correndo, assim, o risco de tropeçar. Com o coração acelerado entrei no centro comercial e, sem pensar no assunto, fui direta aos lavabos onde lavei o ombro. Percebi, então, o motivo do despertar de tal excitação: o meu vestido era sem costas até ao meio o que permitia mostrar a minha tatuagem. A expressão “lambia-ta” era em referência a ela.

Mais tarde verifiquei que eram operários de um prédio que estava em construção nas proximidades que se encontravam na hora da pausa matinal. Tinha pensado fazer umas compras no supermercado mas a urgência de um banho ditou o regresso a casa mais cedo. Pus aquele vestido de que tanto gostava para lavar. Não voltei a conseguir vesti-lo.

Aos 58 anos passei a pensar na roupa que uso em função das minhas costas e da minha amada tatuagem. Penso muitas vezes que se fosse à noite, menos movimento, talvez não tivesse terminado assim.

Nestes dias tenho feito um flashback a muitas das situações pelas quais passei ao longo dos anos. Em verdadeiro perigo apenas duas. Numa não fui violada e deixada ao abandono numa serra, tal como Sarah Everard, por proteção do meu anjo da guarda. Não encontro outra explicação. Não a quero contar.

Porém há uma para a qual finalmente encontrei a resposta. Foi numa noite de verão em 1979 na rua em que morava. Aconteceu por volta das 23h. Acompanhada dos meus pensamentos sobre trignometria sou despertada por uma voz que diz “chega-te aqui, puta”. Olho e vejo uma enorme barriga iluminada pela luz de um candeeiro onde dentro de um jardim de uma vivenda, numa avenida de “gente de bem” um homem de calças para baixo se masturbava. Deixei cair os cadernos e livros na correria louca que encetei. Enquanto umas colegas da casa ficaram a tomar conta de mim outras e outros foram em grupo apanhar tudo e tentar surrar o tipo. Chegaram apenas com o material de estudo.

Hoje, passados 42 anos, percebi a impossibilidade: ele entrou para casa. Nunca o poderei afirmar a 100 % mas era, quase de certeza, o proprietário. Pai de uma amiga e colega com quem, também, costumava estudar para os exames do propedêutico. Ele sabia que àquela hora eu passaria ali vinda da casa de outra amiga comum a qual distava da minha apenas 10 número. Aquela ficava no meio. Só agora encontro explicação para depois desse dia a filha dele, conhecido na cidade, se ter afastado e nunca mais estudou connosco. A continuar não entenderíamos o motivo de não o podermos fazer em sua casa, como sempre fizéramos, até então. Contei-lhe o que tinha acontecido. Respondeu que iria falar com os pais. Nunca mais ouvi falar dela. A vida cumpriu o seu trilho. A minha memória apagou este evento. Regressou com estas novas circunstâncias.

Artigo anteriorFeminicídio ou direito ao espaço público: porque é que temos que escolher?
Próximo artigoMeghan Markle e a muito feminista ação de contar a sua história
Maria José Carrilho
Psicóloga desativada com uma costela, no feitio, de Brites de Almeida em que tal como ela é mais a fama do que o proveito. Entre 1960, em Trás-os-Montes onde fui parida e o Porto onde fui feita segundo rezava o meu pai quando farto das minhas impertinências desabafava "por que não fui à pesca nesse dia?" e hoje, Coimbra, do meu mundo fazem parte 5 rios, o primeiro dos quais no alto alentejo raiano e 12 localidades por chão onde muitas vezes me descalcei para ser alimentada. Não sei quem escreveu mas um dia li e tomei como minha "se vos contasse tudo o que penso e vejo seria internada" Saltimbanca me sinto desenguiçando o emaranhado das ideias, qual marioneta, no caos do mundo em que me sento a atuar no pequeno palco comandada por forças que não controlo.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Existe moderação de comentários. Os comentários anónimos ou de identificação confusa não serão aprovados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.