A diabolização de Aung San Suu Kyi. Ou: as mulheres não têm direito à ‘realpolitik’

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Imagem de Post Conflict Research Center.

Sempre me inquietou, em todos estes últimos anos, a demonização de Aung San Suu Kyi no ocidente resultante da ausência de condenação que exibiu face à perseguição e da expulsão (e campos de refugiados, e mortes, e violações e todos os abusos conhecidos) dos rohingya na Birmânia. Não por considerar que tal condenação não fizesse falta – fazia, claro. Mas talvez por sempre me ter interessado pela história de Aung San Suu Kyi que, de modo tão dramático, se entrecruzou com a história da Birmânia. Recordo-me de, bem jovem adolescente, ver as notícias dos muitos anos de prisão domiciliária daquela senhora – tão profundamente oriental: força interior férrea numa aparência delicada – na sua casa junto ao rio em Rangoon. É uma biopic, vale o que vale, mas o filme The Lady, de Luc Besson e com Michelle Yeoh, dá uma boa ideia de como Aung San Suu Kyi pagou caro preço por promover algum tipo de liberdade política em Myanmar: o pai, Aung San, um dos que conseguiram obter a independência à Grã-Bretanha, foi pouco depois assassinado; o casamento ficou em distância compulsiva a partir do momento em que Suu Kyi não pôde sair de Myanmar, ordens da ditadura militar, e ao marido não permitiam entrar; a liberdade por muitos anos; a vida dos filhos.

Não conseguia não me questionar – de cada vez que lia as ferozes, e justas, críticas a Ausn San Suu Kyi sobre os rohingya – se o silêncio criticado não se deveria à necessidade de contemporização da política birmanesa com os militares, à procura de um equilíbrio de poder que salvasse uma democracia periclitante. A ditadura que Aung San Suu Kyi conseguiu substituir era imposta por membros das forças armadas e os militares continuaram a deter grande poder – não somente das espingardas mas também político.

Perguntava-me igualmente se esta diabolização de Aung San Suu Kyi – que, efetivamente, não era culpada pela perseguição aos rohingya e não tinha capacidade para a parar -, esta hostilidade declarada do Ocidente, a retirada de confiança não ajudaria a tornar o poder (já no fio da navalha) de Aung San ainda mais tremido. E, donde, ainda menos capaz de ajudar os rohingya e os restantes birmaneses. Paralelamente, o autor das perseguições aos rohingya, o militar Min Aung Hlaing, um homem, tem escapado às críticas e censuras internacionais. Que se concentram na mulher que não as concretiza nem tem poder para impedir. Curioso, não é?

Claro que num mundo perfeito Aung San Suu Kyi ter-se-ia oposto às perseguições (e etc.). Sucede que não vivemos num mundo perfeito. Aung San Suu Kyi não é uma líder perfeita. Mas alguém é? Sobretudo em países com escassa cultura democrática, onde os atropelos aos direitos humanos são frequentes. Que líder não tem de contemporizar com quem despreza? Não tem de engolir sapos em benefício de um bem maior? Quem não negoceia e, por vezes, fecha os olhos às características menos palatáveis da contraparte da negociação para salvar algum resquício de dignidade e liberdade às populações?

Olhando para o lado ocidental: quantas vezes não se aceitaram, e apoiaram, líderes com muitos esqueletos no armário pela razão simples que eram menos maus que as alternativas? Incontáveis vezes. Campanhas de relações públicas foram feitas em prol de líderes bastante questionáveis mas que, enfim, perante as demais escolhas possíveis até ganhavam certa aura de democratas de razoável cepa.

Que esta complacência da realpolitik não se tenha estendido a Aung San Suu Kyi é intrigante. Perante o golpe que os militares levaram a cabo recentemente, depois de o partido de Aung San Suu Kyi ter ganho eleições com números esmagadores, estando novamente A Senhora em prisão domiciliária, fica claro que o seu poder era limitado e vigiado pelos militares. Também resulta pacífico que a retirada de apoio do ocidente a Aung San lhe debilitou o poder e facilitou aos militares a decisão do golpe. E que nada na ação do ocidente beneficiou os rohingya e a sobrevivência da democracia birmanesa.

Toda a situação é de nos deixar perplexos. Navalny, o opositor russo de Putin, é um nacionalista com ideias de extrema direita. E, ainda assim, é protegido pelos países ocidentais como estratégia para criar uma alternativa ao crescentemente autoritário e antidemocrático Putin. Guaidó, na Venezuela, aparentando não ter um excessivo talento para a política (ou, então, uma grande tendência para golpes falhados), nem estratégia, fazendo parte da oligarquia de origens europeias que a maioria da população detesta, conseguiu, não obstante, ser reconhecido como presidente venezuelano pela maioria dos países europeus. Há relações magníficas entre países europeus e americanos e outros países onde direitos humanos são atropelados semanalmente.

No entanto, no caso de Aung San Suu Kyi foi diferente. Porventura, parte é desilusão por não ter tido a fibra moral que se esperava de alguém que aguentou prisão domiciliária por anos, vergou uma ditadura militar, ganhou um Prémio Nobel da Paz. Porém, não consigo deixar de associar a diabolização de Aung San Suu Kyi àquele velho costume de exibir uma extrema exigência em se tratando de mulheres. Os erros são sempre apocalípticos, imperdoáveis, demonstradores da qualidade diabólica e destrutiva das mulheres. Já os erros dos homens, mesmo se também com impacto mais devastador na vida dos outros, é negócio como de costume.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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