Fotografia por Jon Sailer em Unsplash

Até já tinha o texto escrito, as palavras escolhidas, as rimas feitas. Até já estava prontinho para sair. Mas não. O texto que me propus escrever esta semana não iria ser agora publicado. Um inusitado e estrondoso COCOROCÓ decidiu ontem embalar-me a adormecer e teimou em acordar-me hoje pela manhã. E é à força de me manter tão acordada tal ressonante COCOROCÓ que concedo rescrever o texto de hoje.

E esta história poderia ser sobre um famoso galo qualquer, sobre os direitos dos animais, sobre vegetarianismo ou veganismo, até sobre galanteio, mas afinal de contas é sobre ser mulher. 

Há uns 3 anos atrás, fazia eu parte de um grupo de ‘mindfulness’, quando no momento de partilha sobre o que nos afligia ousei dizer que me pesava ser mulher. Que me pesavam as ancas quando estavam demasiado ‘inchadas’ para caber no biquini daquele verão, que me pesavam os pés quando estavam feitos ‘oito’ dos oito (pelo menos) centímetros dos saltos dos sapatos que usava no escritório. Que me pesavam os cabelos sempre pintados, a maquillage sempre pronta, o baton sempre aprumado. Que me pesavam os vincos das t-shirt mal passadas pelo ferro dos meus filhos. Que me pesavam as dietas mascaradas de perdas súbitas de apetite. Que me pesava o organizar, o planear, o cozinhar, o comprar, o arrumar. Que me pesava o período e o risco assumido de usar a saia-travada em tais dias de aviso. Que me pesavam todas as pílulas que já tinha tomado. Que me pesou a barriga das gravidezes desejadas. Que me pesava o peito de ter amamentado. Que, por fim, me pesava o desafio de querer ser ouvida sem ser por ser mulher.

E eu na ingenuidade, agora revelada, daqueles tempos, atribuía todos aqueles pesos ao facto de, por eu ser mulher, OS OUTROS (eles!) esperarem de mim grandes coisas. Coisas enormes, sempre surpreendentes e, espante-se, feitas na perfeição desde o alto dos entre-oito-e-doze-centímentros daqueles benditos-que-sexy-que-me-sinto saltos.

Para meu grande espanto, a audiência na sessão não tugiu nem mugiu. Ficou-se. Das mulheres na sala nem um suspiro. Do único homem presente um silêncio perdido nas agonias que mais tarde nos viria timidamente a revelar.

Mas aproveitando um leve franzir de sobrolho alheio, insisti. Desta vez dirigi-me apenas ao público feminino. “Mas não se sentem também assim? Que por serem mulheres têm que ser super-heróis. Quer faça chuva ou sol que têm de estar sempre disponíveis, sempre em cima do acontecimento, a antecipar o mosquito que poderia morder o mais pequeno dos gaiatos, ou cair na tigela de sopa da sogra ou na taça de café do CEO do escritório. Não sentem que têm que aguentar o olhar desalinhado do colega e fingir que não perceberam a piadinha sexista do costume. Por favor!!! NÃO???!!! Não acredito!”

E fiquei ofendida. Tão ofendida – por pensar que mesmo naquela sala de refugio não davam as mulheres a cara – que nunca mais lá pus os pés.

Mas o facto é que sei agora como verdade – disse-me o galo ontem à noite e um galo nas vésperas de se dar ao sacrifício de uma mesa de Natal nunca mente – que o peso era meu! Só meu, imagine-se!!!

Que vem de mim, das minhas entranhas, esta imagem de perfeição e de esbelteza, bem como este desígnio de constantemente provar ser maior do que a minha própria sombra. Que vem de mim e de mais ninguém. Que não vem deles!

Que sou eu quem me comparo às modelos desta vida. Que sou eu que convido à piadinha fácil, por em vez de declarar não aceitar preferir fingir que não oiço. Que sou eu que aceito ganhar menos do que o colega da secretária ao lado, em vez de bater o pé pelo justo troco do meu exímio labor. Que sou eu que me ponho em pontas em vez de desenformar dos lindos sapatos os meus mais que doridos pés. Que sou eu que aceito que porque quem engravida são as mulheres temos de ser nós a tratar do planeamento familiar, e vai que troca a pílula por um implante qualquer.

Que, sim, que sou eu que não me julgo igual!

Pois bem. Fiquem sabendo!

O mundo não é um mundo de homens!

Este mundo não é nem de homens nem de mulheres!

É dele! Tem vida própria. Sem identidade de sexo.

E nós, mulheres, onde ficamos neste mundo assexuado?

Em nós! Sem aceitar a cadeira casta onde alguma religião, família ou sociedade nos poderá querer sentar.

Ficamos no amor e compaixão por nós próprias e pelo nosso mais-que-imperfeito corpo, na honestidade de sermos quem somos e de saber de onde provimos, na admiração e na responsabilidade pelas nossas escolhas e no respeito por aquilo que decidimos ir deixando para trás.

E assim sendo, meus queridos todos, despeço-me.

Com o desejo que cada um de vós neste Natal – previsto tão menos tumultuoso do que vem sendo nosso costume – aproveite a quietude anunciada para revelar ao mundo o seu âmago no mais íntimo e retumbante dos COCOROCÓS.

Gritem-no do alto da vossa capoeira e se capoeira não tiverem do cimo da vossa cadeira enquanto se trincha o galo mesmo a meio da vossa ceia de Natal.

COCOROCÓ!

COCOROCÓ!

COCOROCÓ!

#TIMETOWAKEUP#COCOROCÓ

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