Entrevistas de Cristina Ferreira e José Rodrigues dos Santos: descubra as diferenças.

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Imagem do Instagram de Cristina Ferreira

Nos últimos dias aconteceu uma das inevitáveis polémicas das redes sociais – que começou nos media tradicionais e a eles já está a regressar, depois do interlúdio no twitter e no facebook – sobre a entrevista de José Rodrigues dos Santos a propósito dos seus livros sobre campos de concentração nazis onde se levou a cabo o extermínio de judeus. Não quero aqui entrar na polémica central, se o gaseamento dos judeus foi uma medida humanitária, porque não era de todo isso que o jornalistas disse na entrevista. Em todo o caso, se foi branqueamento ou não do Holocausto, parece-me claro que foi. Desde logo, escrever livros sobre campos de concentração para entretenimento é branquear o Holocausto. Qualquer obra sobre os locais onde se completava o Holocausto (que na génese significa sacrifício) deve ser uma viagem ao horror, causar noites mal dormidas, provocar angústia. Tem de ser um documento da maldade e do sofrimento, não originar leituras prazenteiras ou filmes leves para acompanhar com pipocas metade doces metade salgadas. Mas vou deixar esta questão por agora.

Porque quero iluminar mais uns duplos critérios do mundo sexista que nos foram presenteados a propósito da entrevista sobre o livro de José Rodrigues dos Santos. O jornalista teve direito a entrevista na RTP, estação televisiva pública, para apresentar o seu livro. Ora a RTP, sendo pública, deve sem dúvida promover a produção cultural nacional. Até deveria fazê-lo mais em formatos leves na RTP1. Mostrar livros de autores portugueses, as peças de teatro que andam pelo país, os filmes de realizadores portugueses. Claro que a RTP2 mostra parte disto, mas as escolhas são questionáveis e os formatos claramente dirigidos à elite que vê a RTP2. Não há aposta em formatos para maior divulgação na RTP1, o canal público mais visto.

Mas JRS lá teve a sua entrevista em horário nobre para promover o seu livro. Na televisão pública, que promove de menos os escritores nacionais. Um livro de que vai receber direitos de autor fazendo entretenimento do maior crime de todos os tempos em que existiu humanidade.

O escândalo com esta opção programática da RTP? Nenhum. O repúdio por José Rodrigues dos Santos estar a promover um projeto seu onde vai ganhar dinheiro? Nem vê-lo. A indignação aconteceu, mas só pelo conteúdo da entrevista à roda do branqueamento ou não do Holocausto, de quão informado sobre o tema está o jornalista e se afinal os nazis eram humanitários ou afinal gente bera.

Ora comparemos com a entrevista de Cristina Ferreira na TVI sobre o seu livro Pra Cima de Puta. Uma estação privada – portanto com menos obrigações em termos de serviço público e com mais liberdade de escolha de conteúdos que uma televisão pública. Um livro sobre um tema urgente – o bullying online. Receitas que reverterão para associações com trabalho no combate ao bullying e ciberbullying.

Claro que existiu, na entrevista de indignação também pelo conteúdo – desde logo porque a muitos interessa silenciar o tema. Mas uma porção significativa da indignação foi para a própria da entrevista.

Horror, Cristina Ferreira estava a aproveitar-se da televisão de que é acionista para promover um livro seu. Como se sabe, as mulheres têm de ficar caladinhas e sossegadas a ver se alguém repara nelas, que é lá isso de se promoverem, de mostrarem o que produzem, o que pensam, o que querem no mundo, o que criaram, o que propõem. Se as mulheres se promovem são umas cabras ambiciosas, a serem esfregadas com o bom do dito ódio online, a ver se aprendem a não se exibirem. Ganaciosas, ambiciosas, mulheres desnaturadas que em vez de se preocuparem com os filhos e com a prática, muito discreta, da caridade, se tornam visíveis para ter sucesso. Claro que os homens já se podem promover. Nem há questão nisto. O mais natural do mundo.

O objetivo disto? Que as mulheres fiquem caladas para sempre, claro. Assim os homens (são quem tem o poder de decisão a maioria das vezes) fazem o que sempre fizeram: promovem outros homens, porque nem se lembram que as mulheres fazem coisas e pensam e criam e produzem, escapamos-lhes sempre do pensamento. Ou então seguem o clássico: ah, lembrei-me de um homem melhor, querem que escolha alguém menos bom só por ser mulher? (Que os homens podem ser medíocres que são sempre considerados bons, e as mulheres podem ser excelentes que são sempre fraquinhas. Vem nos livros.) Calha sempre os melhores serem homens, mesmo quando são assaz desinteressantes. Enfim.

A finalidade é clara: manter as mulheres na invisibilidade que sempre tiveram no espaço público, obrigar à penumbra os contributos femininos – mesmo os originais e cheios de valor -, a ver se só são descobertos dentro de décadas quando já não atrapalham os homens de hoje, continuar com o mito de, afinal, são as mulheres que não se querem expor nem participar.

Ah, mais outro rasgar de vestes: Cristina Ferreira que é acionista da TVI e estavam-lhe a promover um livro. Calamidade. Que horripilante instrumentalização de uma estação televisiva. O que aconteceria se a RTP fizesse o mesmo? Pois bem, a RTP promoveu um dos jornalistas da casa e ninguém questionou a opção editorial.

Fica claro que as objeções à entrevista de Cristina Ferreira, que não se verificaram com a entrevista de JRS, são na verdade incómodos quando uma mulher tem exatamente o mesmo comportamento que um homem. E cansa.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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