Foi um dos muitos livros que me ofereceu, imensos, tantos. Todos com amor. Com um amor que eu nem sempre pressenti. Pai, este texto que escrevo agora para os meus filhos foi um dia para ti. Um dia, mais tarde, quando as forças deles não estiverem já embebidas pelas minhas, o que ora escrevo fará, talvez, sentido.

A caixinha de folhinhas queridas
Há imagens que nos definem uma vida inteira, e a minha é a de uma menina pequenina, de cabeça cheia de sonhos e de livros, a guardar “folhinhas queridas” numa caixinha pequenina de metal. Essa menina queria ser professora. Ainda cá está, encolhida num cantinho, à espera de que eu pare de lutar para a poder ver. Escrever este texto é, também, uma forma de a deixar sair, de lhe devolver a voz que os anos de máscaras foram abafando.
Porque uma mãe que se perdeu de si própria dificilmente consegue acompanhar os filhos a encontrarem-se. Antes de vos poder dizer “sede quem sois”, tenho de me permitir ser quem sou: sem verniz, sem personagem, sem os sonhos emprestados que nunca foram meus. É esse o trabalho silencioso que faço todos os dias, e que faço por vós, mesmo quando parece que o faço apenas por mim.
A luta para me fazer ver
Lutei muito para me fazer ver, para me mostrar — a medo, aterrorizada. Sempre a tentar cortar com as barreiras de quem não sou e nem nunca fui. Numa luta cansada, solitária e egoísta. Algo desenfreada. Muito sentida.
Mascarei-me. Máscaras que não servem a ninguém mais do que a mim, e que se entranham, que custam a arrancar, que se fundem em mentiras disfarçadas de sonhos que não são os meus. Cresci rodeada de muito amor e de muito medo, em proporção igual. Aprendi a seguir, copiar, transladar. A sonhar sonhos velhos, já vividos, possíveis, com felicidade mínima garantida.
A menina que ainda vive cá dentro
Nunca me viram. Nua. À minha barriga, ao meu coração, às minhas costas, pernas, rabo, coxas. Entranhas, desentranhas. Limpa, suja. Crua, carne, sangue. Alma. Ser. Eu. Como sou. Como sempre fui. Aquela menina pequenina, tímida e feliz, que gostava muito de comer, que tinha a cabeça cheia de sonhos e de livros, que guardava as “folhinhas queridas” numa caixinha pequenina de metal e que queria ser professora.
Essa menina ainda vive cá dentro. Vi-a no outro dia, num cantinho, encolhida, à espera. Esperava pela paz. Que eu deixasse de lutar para a poder ver. Para me ver a mim. Quando a guerra contra nós próprios nos dá tréguas, vejo-me a mim e também a vós, meus filhos.
Vejo as pessoas que são
Vejo as pessoas que são. Tão diferentes de mim. Tão cheios. Tão únicos. Tão vós. Com orgulho escondido na felicidade de escolher vestir para a escola uma meia de cada cor. Com traquinice disfarçada num sorriso, quando se rouba o telemóvel do pai para jogar aquele jogo escondido no vão das escadas. Com prazer na gulodice de andar a surrupiar os torrões de açúcar do açucareiro e a lamber a tampa do jarro do doce. Com teimosia certa em fazer a nossa própria moda, desconformada, desalinhada. Com medo escondido na força, quando me dizem “eu sou o dono de mim próprio”.
| Não vos prometo | Prometo-vos |
|---|---|
| Saber onde estaremos amanhã | Que, se ainda cá estivermos, estaremos todos juntos |
| Que teremos sempre casa e agasalho | Que o medo nunca vos tire a liberdade de ser quem são |
| Corrigir os dias mágicos | Juntar ainda mais meias, de todas as cores |
| Silêncios tristes | Criar silêncios alegres; ouvir, sorrir, sonhar convosco |
O que vos prometo
Não vos prometo nada. Não sei onde vamos estar amanhã (sequer se vamos cá estar), se teremos roupa para nos agasalhar, se teremos casa para nos abrigar. Mas, se ainda cá estivermos, estaremos todos juntos. Todos com uma meia de cada cor, se isso nos trouxer felicidade.
Vou tentar, com muita força, que o medo que sinto de que caiam, se magoem, se percam ou adoeçam nunca seja a barreira que impeça a liberdade de serem quem são. Vou forçar-me a apagar o erro que seria corrigir esses tão mágicos dias feitos de uma meia de cada cor.
As minhas promessas, em lista
- Juntar ainda mais meias, mais coloridas, meias de todas as cores.
- Esconder o açucareiro num sítio ainda mais óbvio.
- Criar silêncios alegres.
- Ouvir. Sorrir. Sonhar os vossos sonhos convosco.
- Aceitar os vossos medos, que são só medos, e não são reais.
A vós, meus filhos: que todos os sonhos que tenham sejam sonhos ainda não vividos, não sonhados. Sonhos que estão onde estão os dragões, os ladrões e os papões — e todos os “ões” que por vezes não vos deixam dormir. Aí mesmo. Mas sabem que mais? Vamos juntos, lá onde estão os vossos sonhos. E sei que vou ter muitos medos, ainda mais do que vocês. Mas não faz mal. São só medos. Não são reais. A vocês, meus filhos, com todo o meu amor. E a mim, que sou muitas coisas, mas também sou escritora. Um dia, talvez, leiam isto e reconheçam nestas linhas a mãe que, sem saber, vos andava a pedir licença para ser ela própria, inteira e sem máscaras.
