Kamala Harris, o poder do poder, o poder da representatividade – e a maldição da mulher de sucesso

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Kamala Harris no discurso de vitória. Imagem da Reuters.

Kamala Harris foi eleita vice-presidente dos Estados Unidos no dia 3 de novembro. No ano em que se comemorou o centenário da 19ª Emenda à constituição americana, ratificada em 1920, pela primeira vez uma mulher foi eleita para o ramo executivo da política americana. Cem anos. Demorou de mais. E é certo que Joe Biden é o presidente, e os vice-presidentes são geralmente figuras sem grande poder político próprio. Em todo o caso, Kamala Harris terá oportunidade de se dar a conhecer ao país, ficando de algum modo resguardada da fúria dos opositores (que geralmente recai nos presidentes), de criar alianças com outros democratas e, como todos os vices, ficará em posição privilegiada para uma futura candidatura à presidência. Tanto mais que Biden tem quase oitenta anos e provavelmente não fará dois mandatos.

A história de Kamala é de sucesso. Filha de imigrantes – a mãe indiana e o pai jamaicano, ambos altamente escolarizados -, criada sobretudo pela mãe (os pais divorciaram-se e o pai foi ausente), fazendo uso de oportunidades governamentais que eram dadas a minorias e a populações pobres, estudando numa prestigiada universidade originalmente criada para formar clérigos negros (a Howard University), fez carreira no equivalente do ministério público californiano, vindo a ser a procuradora distrital de São Francisco e procuradora estadual da Califórnia. Em 2016, foi eleita Senadora pelo estado da Califórnia.

Nas primárias do partido democrata para eleger o candidato a presidente, apresentou-se, mas a sua campanha depressa se esfumou (como todas, de resto, exceto as de Biden e Bernie Sanders). Foi das primeiras a desistir da candidatura, havendo na altura um debate à volta da desistência da única candidata negra – como de costume, a vida é mais difícil para as minorias. Ser mulher também não ajudou. A senadora Elizabeth Warren, que perdurou mais, também teve contra si um sexismo aguerrido durante todas as primárias.

Porém, nomeada candidata a vice-presidente, Kamala foi um excelente trunfo de Biden na campanha. Mulher. De cor. Com origens asiáticas. Foi uma das formidáveis interrogadoras durante a infame confirmação de Brett Kavanaugh como juiz do supremo tribunal. Um CV impressionante em se tratando do tópico ‘segurança’ – isto no momento em que os Estados Unidos parecem em guerra civil, quer pelos protestos anti-racistas quer pela violência incentivada por Trump, sendo que este pretendia capitalizar com o slogan ‘lei e ordem’ para aplacar a confusão que o próprio gerou.

Mais: era a parte energética da equipa presidencial. A idade de Biden contrastava com a segurança com que Kamala saía de aviões, entrava em palcos, dançava durante a campanha. Quase sempre de ténis Converse.

Kamala é uma moderada em muitos temas, sendo mais aguerrida nos temas que tocam aos grupos normalmente excluídos do poder: mulheres, minorias raciais, gays,…

Como Kamala disse no seu discurso de vitória – e, refira-se, raramente o vice-presidente participa nos discursos de vitória – (vestida de branco, a cor das sufragistas), a sua eleição provou que o país era de possibilidades para todas e todos. É marcante, de facto. Sobretudo depois de quatro anos de misoginia flagrante e declarada, de machismo elevado a ideologia dos republicanos, com um presidente suíno insultando mulheres da forma mais soez, com a mensagem sempre presente que as mulheres estão a sair do seu lugar, que os empregos são para os maridos, que os votos das mulheres casadas são decisão do marido, que o aborto – para se poder diabolizar mulheres – é o único assunto que conta, com um presidente protegendo assessores que em casa batiam nas mulheres, apoiando um candidato a senador predador sexual de adolescentes.

E anos de um racismo retinto, de menorização e de secundarização e diabolização constantes dos negros. Mas terminaram.

E, sim, o simbólico importa. A representatividade é importante. As pessoas, na sua diversidade, perceberem que o poder espelha aquilo que são – em vez de estar resguardado para reduto de homens brancos conservadores cinzentos, homogéneos e defendendo estritamente os seus interesses e os de homens iguais a si – é transformador. Perceber que há possibilidades, que se podem ter todas as expetativas, que não há caminhos vedados – isso é fulcral para manter sonhos, sugerir esforço para alcançar o sonho, sentir-se uma pessoa inteira que é acolhida em todo o lado.

As mulheres, brancas e negras, olharem para o topo do poder político e verem uma mulher abre horizontes, porque lhes diz que o poder de topo é para elas. É marcante uma Kamala Harris, como é importante uma Ursula von der Leyen ou uma Angela Merkel. Eu cresci com Margaret Thatcher, Indira Gandhi e Benazzir Bhutto como fenómenos políticos e de poder. Posso garantir que me marcou na convicção de que claro que as mulheres podem governar grandes países. E isto é muito mais importante que a ideologia destas mulheres.

Mas disse, lá em cima, que Kamala iria escapar à fúrias dos opositores por ser vice e não o topo do ticket, como dizem os americanos? Claro que não vai escapar. O mundo adora odiar mulheres bem sucedidas. Somos os melhores alvos para diabolizar. Todos os erros têm uma importância apocalíptica, são o mais corrosivo que se possa imaginar, nunca merecem perdão. A mínima inconsistência de uma mulher é prova de maldade intrínseca absoluta, mostra escancarada que não se pode confiar nessa mulher. Os erros são aumentados até ficarem gigantes. As concretizações e as vitórias são ignoradas, não se fala mais nisso, é como se não tivessem ocorrido. Se for preciso, atribuem-se os créditos a outras pessoas. Ou à sorte. Ao talento da dita mulher é que nunca se podem atribuir coisas boas. Esta é a forma mais usada para anular e atacar mulheres. Está nos livros. Distorcer a magnitude das derrotas e dos erros (aumentando-a) e das vitórias e dos acertos (tornando-os micriscópicos).

Os homens podem errar, podem mudar, podem espatifar um país – que é negócio como de costume, afinal são homens não são deuses. Uma mulher tem de ser perfeita e à mais inócua imperfeição há gritaria de repúdio. De todo o lado.

Donald Trump chamou-lhe ‘monstro’ na campanha. E, no dia seguinte ao tal discurso de vitória, as redes sociais inundaram-se de desgosto por Kamala Harris – não por Joe Biden, claro, afinal é homem, merece respeito. Diziam estas almas que Kamala é uma opressora dos negros por ter acusado e defendido a prisão de alguns deles quando era procuradora na Califórnia. Esta acusação a uma mulher negra vinha de pessoas de pele clara, para o ridículo ser ainda maior. E é uma democrata moderada, pelo que é quase uma genocida para certos setores.

Enfim, nunca falham, estas reações.

Mas termino. Por um lado celebrando que nos Estados Unidos o poder executivo seja pela primeira vez exercido no feminino. Que Kamala Harris represente uma panóplia de pessoas que normalmente não são representadas. E lembrando que estas pessoas que atiram sempre a uma mulher bem sucedida, venham do progressismo ou do conservadorismo, são parte do problema.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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