Melania Trump, o maior trunfo político de Donald Trump (e não é um elogio ao poder das mulheres)

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Imagem aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/12/03/internacional/1575410718_766953.html

Não, não digo que o maior trunfo político de Donald Trump é a sua mulher Melania como afirmação dos apurados instintos políticos da atual primeira dama americana, ou dos assisados conselhos políticos que lhe dá, ou do seu trabalho incansável que lhe traz dividendos com os eleitores, ou sequer das conexões internacionais ou políticas que lhe proporciona. Afinal Melania Trump é a primeira dama mais silenciosa de todos os tempos. Trabalha pouco, aparece pouco, continua com a sua vida relaxada. Aparentemente até se interessa por política, mas as ideias que tem são decalcadas do seu marido, envolve-se pouco, deixa o ativismo para o seu macho alfa. Não se trata propriamente de uma Abigail Adams, com as suas opiniões próprias marcadas que partilhava com o marido e filhos também presidentes americanos (John Adams e John Quincy Adams) – que as ouviam.

Quer dizer, Melania Trump é o maior ativo de Trump precisamente por isto: não ter opiniões políticas próprias, falar muito pouco, aparecer escassamente – mas, acima de tudo, deixar-se ser vista linda e bem vestida ao lado do marido. Melania é exatamente aquilo que o mundo trumpista quer de uma mulher: calada, pouco interventiva, e bonita para dar cachet ao seu homem quando é avistada com ele.

Melania é o adereço essencial para o sucesso político de alguém com as ideias de Trump. Ele é um carroceiro, um homem feio, gordo, velho, sem qualquer encanto retórico. O seu sucesso é medido pela quantidade de dinheiro que tem e por poder exibir que tem sexo com uma mulher linda como Melania. E isto, para o mundo trumpista, restabelece a ordem das coisas que os seus eleitores pretendem: os homens tratam da política e da economia, as mulheres ficam por casa, no ginásio, falam pouco, tratam de se manter atraentes para os seus homens. Tudo ao contrário do que se passa no mundo progressista americano, com as suas mulheres independentes, interventivas e opinativas.

Além do mais, Melania introduz um elemento de sonho nos eleitores de Trump – maioritariamente masculinos, nunca esquecer. Até nos homens das minorias Trump tem consideravelmente melhores resultados que junto das mulheres desses grupos demográficos. Melania é o tipo de mulher a que os eleitores de Trump gostavam de aceder. Funciona mais ou menos como as mulheres jovens pouco vestidas que antes se contratavam para posarem junto aos carros desportivos de prestígio nas feiras automóveis. Pretendiam convencer os possíveis compradores que a companhia de mulheres bonitas vem com os carros. Neste caso, vem com o voto em Trump.

Atenção, não estou a desprezar os outros fatores que levam uma parte da população a votar em Trump e a permanecer apoiante indefetível durante quatro inacreditáveis anos. Já escrevi sobre isso várias vezes. Porém o voto em Trump tem mais razões sociológicas e culturais que económicas. Explica-se mais com o identitarismo masculino, branco, rural, redneck, evangélico, ultra-conservador, anti-intelectual das populações dos estados sulistas e das grandes extensões do meio do continente norte-americano, que com as alterações sísmicas que a globalização ou as inovações tecnológicas trouxeram à vida do século XXI – ainda que estas reforcem tudo.

Neste sentido, o combate aos modos de vida modernos, ao feminismo e às mulheres independentes é algo intrínseco às ideias políticas que Trump tão bem elevou. A possibilidade de ser malcriado com todas as mulheres – como Trump delira ser, incluindo com a sua – por ser rico. A oportunidade de ter sexo e ser visto com uma ex-modelo – À conta de possuir uns milhões. Isto é o sonho de muitos homens trumpistas. (O Evangelho da Prosperidade é uma aberração muito popular nos eleitores de Trump. Um abundante sucesso económico é fulcral para este eleitorado.)

Por isso, Melania é o assessório que mais valoriza Trump. Trump não poderia ser casado com uma mulher da sua idade, ou somente medianamente atraente. Isso não lhe traria o élan que faz delirar os seus apoiantes. Trump também não aguentaria ao seu lado uma mulher forte e interventiva e que discordasse dele. Como todos os machões, Trump tem uma masculinidade frágil que não resiste à desconfiança e à discordância de uma mulher bonita. Ver inteligência numa mulher assusta-o (em boa verdade, não é o único, nem sucede só na direita trumpista).

Pelo lado de Melania, a necessidade que Trump tem dela para manter a sua imagem de homem com acesso a uma mulher bonita dá-lhe poder. Mas é um poder patriarcal – o poder das mulheres que só têm poder através dos homens da sua vida. Um poder que não significa nada, porque nos é dado (e pode ser tirado). O único poder que os sexistas aceitam que mulheres detenham. Por isso, triste. Melania é uma mulher no fundo dependente do marido, mesmo se ele também depende dela, sobretudo financeiramente dependente. O que, novamente, faz parte da ordem do mundo que Trump e trumpistas querem construir. Por alguma razão o atual presidente há dias, em comício, se gabava de estar a dar de volta empregos aos maridos das americanas. É o mundo onde ele e a sua mulher vivem: o das famílias dos anos 1950, onde o marido sustenta e a mulher cuida.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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