Assédio sexual e a política do machismo institucionalizado – The Loudest Voice

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Annabelle Wallis as Laurie Luhn, Seth MacFarlane as Brian Lewis, Sienna Miller as Elizabeth Ailes, Russell Crowe as Roger Ailes, Naomi Watts as Gretchen Carlson, Simon McBurney as Rupert Murdoch and Aleksa Palladino as Judy Laterza in THE LOUDEST VOICE.

The Loudest Voice, a série televisiva que se pode ver na HBO, sobre Roger Ailes e a sua criação, o canal Fox News, é um retrato do mundo que ninguém deve perder. Não só por exibir o que é um assediador e um agressor sexual compulsivo – Ailes terminou demitido da Fox depois de acusações muito badaladas de assédios e abusos sexuais continuados e generalizados – mas também o que é a ideologia atual do partido republicano (que, de resto, Ailes ajudou a definir): além de isenção de escrúpulos completa na atividade política, há uma misoginia e até uma deliberada humilhação do sexo feminino como pilar estruturante ideológico. Algo que bem se vê, parecido, na atuação de Donald Trump – o expoente máximo das ideias e dos métodos políticos preconizados por Roger Ailes.

Ailes é claramente um homem que odeia mulheres: via-as como objetos para usar/abusar sexualmente e para torturar psicologicamente e profissionalmente. A história dos assédios é sobejamente conhecida. Porém, o que mais incomoda nos sete episódios de The Loudest Voice é a forma como esses assédios encaixam – e se tornam sintomas não só inevitáveis como mesmo procurados – no mundo que Roger Ailes quis criar.

É um mundo verdadeiramente alienado, distópico, onde os canalhas e as canalhices imperam. Os objetivos de Roger Ailes – para uma estação de notícias, recorde-se, e onde trabalham jornalistas – estavam a milhas de preocupações de informar a população, oferecer a verdade possível, escrutinar o poder. Antes, centravam-se em ganhar dinheiro, aumentar as audiências, radicalizar os seus espetadores, apelar aos seus instintos mais grunhos e cavernícolas, atacar de forma descontrolada os democratas, os estilos de vida urbanos e modernos e ideias políticas como a distribuição de riqueza ou cuidados de saúde universais. O ódio de Ailes à esquerda americana raia a loucura, mas é bem credível porque o vemos todos os dias nos setores trumpistas e nas novas direitas mundiais, inclusive a portuguesa. Tudo é apresentado, histericamente, como socialismo ou comunismo. E a maligna esquerda, os maldosos democratas ou os aleivosos Clinton são apresentados como as causas do que de mal acontece debaixo do sol – incluindo, claro, a investigação aos assédios de Ailes. O espírito persecutório e conspirativo de Ailes não tem limites: os adversários são demónios absolutos que precisam de ser esmagados.

Para conseguir tudo isto, Ailes desinforma, espalha mentiras através da Fox News, deturpa factos, difunde informações cuja aderência à realidade é mera coincidência. A estação televisiva é um instrumento de fazer política – baixa – sem qualquer intenção de fornecer jornalismo e verdade a quem lhe dá audiência. (No que permanece. O nível de desinformação da Fox News sobre a pandemia de covid está num nível que já passou a criminoso.)

Este mundo que Ailes quer criar é, evidentemente, um mundo de supremacia masculina. As mulheres servem para entreter as vistas dos homens e para sexo. O mundo é para ser comandado por homens como Ailes: vingativo, mesquinho, mau, paranóico. Muito embora, claro, todos os abusos venham embrulhado numa retórica muito cristã, de grandes valores familiares, de um conservadorismo muito moralista. É um bom retrato das novas direitas atuais: querem fazer-nos acreditar na corrupção moral dos adversários enquanto pagam a atrizes pornográficas para não falarem dos encontros sexuais, apalpam e beijam mulheres sem consentimento, forçam sexo. (Lembram-se de Trump, certo?)

Portanto, sim, The Loudest Voice não retrata só os assédios sexuais de Roger Ailes. Retrata o mundo que explora sexualmente e humilha mulheres, explica a conivência de todo um meio com comportamentos de exploração de mulheres, explica os mecanismos que se usam para calar mulheres – incluindo os infames non disclosure agreements que pululam pela série televisiva, pelas pessoas que rodeiam Trump e pelo resto do mundo misógino. E retrata a paranóia da direita alt right, com a sua ausência de escrúpulos, o uso indiscriminado de mentiras, de golpes, de desinformação, de radicalização.

É um incomodativo mas voraz retrato do mundo que teve como expoente a presidência de Donald Trump. Que, se os deuses ajudarem, termina a 20 de janeiro de 2021.

Imagem em https://time.com/5615609/the-loudest-voice-showtime-review-roger-ailes-show/.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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