Usar máscara é o patamar mínimo de respeito pelos outros, atualmente

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O governo vai propor à Assembleia da República que legisle o uso obrigatório de máscaras no exterior e fora de ajuntamentos. Faz bem. (Ao contrário da proposta da instalação obrigatória da app StayawayCovid. Mas deixemos este tema para outra ocasião.)

Não apoio a medida do governo por nenhum desejo absurdo de usar máscara permanentemente. Como toda a gente, prefiro respirar sem máscara. E, quando ando pela rua, nas subidas de Lisboa, cansa-me bastante subir com máscara, confesso. Já estou a ficar especialista em máscaras que me incomodem menos. Prefiro as bico de pato – porque mantêm-me um espaço livre com ar à frente da boca, absolutamente salva-vidas. E também prefiro máscaras de algodão ou, até, de seda (sim, já tenho algumas), porque são mais agradáveis e respiráveis para a pele. Também tenho noção de quão daninho ambientalmente é o uso continuado de máscaras descartáveis – pelo que se deve incentivar o uso de máscaras reutilizáveis e laváveis.

E, no entanto, apoio o uso obrigatório de máscaras nos próximos tempos e até se controlar a pandemia de covid. Vamos a qualquer site que forneça os números do coronavírus e o número total de casos está com uma linha cada vez mais inclinada e vertical – isto é, estamos novamente numa fase de contágio exponencial do coronavírus. O número de mortes, felizmente, tem-se mantido abaixo da primeira vaga da primavera – ou porque o vírus está mais fraco ou porque as terapêuticas estão mais afinadas. No entanto, se os contágios explodirem – e, continuando, explodem – o número de mortos também crescerá. Bem como o de internamentos e de doentes nos cuidados intensivos.

E, em boa verdade, as objeções que se levantam ao uso de máscaras obrigatórias não pegam. Sobre a inutilidade das máscaras – nem vou elaborar. Todos os estudos demonstram a eficácia de métodos barreira, concretamente as máscaras, para prevenir o contágio de vírus respiratórios. Havia estudos feitos para a SARS em 2003 e até para gripes normais. Com a covid, mais estudos se fizeram que comprovam a utilidade das máscaras.

A objeção de ser um atentado à liberdade individual também não colhe. É, mas é da mesma forma que é um atentado à liberdade individual as pessoas não poderem andar nuas na via pública. Não podem, de facto. Nada de nudismo fora das praias designadas. Não é proibido só por ser um ataque grosseiro às convenções sociais que recomendam um mínimo de roupa, como por questões de higiene e saúde de todos – tal qual no caso das máscaras. Também é um atentado à liberdade individual a proibição de burqas e niqabs no espaço público (que também apoio desde sempre) – porque a convenção social reprova o cobrimento total, pelo símbolo que é de subjugação das mulheres e por questões de segurança comunitária (e das próprias, por acaso; o véu integral é um ótimo esconderijo para as nódoas negras da violência doméstica. Mas deixemos igualmente este tema para outras calendas.)

O modo como nos vestimos e como nos apresentamos perante outros é em sim mesmo uma forma de nos relacionarmos com os ditos outros. Não há direitos absolutos de nos apresentarmos como bem entendemos, porque pode colidir com os direitos alheios. Concretamente, o direito a movimentar-se com segurança e sem perigos de saúde pública originados pelos corpos de terceiros. No caso das burqas, há até o direito das mulheres que só as usavam por pressão familiar e da sua comunidade, ou para escapar a assédio. Atualmente, e enquanto durar a presente situação, se nos protegemos a nós, aos demais e à comunidade com o uso de máscara, há toda a licitude na obrigatoriedade. Ninguém tem direito a ser um perigo para a saúde pública.

A objeção de as máscaras serem, elas sim, indutoras de riscos para a saúde é ainda mais ridículo. Além de muitos profissionais de saúde passarem dias inteiros atrás de máscaras, mesmo em tempos que não são de pandemia, só mesmo alguém desconhecedor do mundo pode alegar que as máscaras são um risco. No norte da China, nas zonas industriais e de uso dessa fonte de energia pouco limpa que é o carvão (muito abundante por lá), incluindo em Pequim, graças à poluição atmosférica, os habitantes desses locais usam máscaras diariamente durante anos (sobretudo na rua e nos interiores com ambientes não filtrados). Inclusive crianças. Não consta que tenha existido mortandade provocada pelo uso de máscara.

Claro que nestes assuntos, com certos tipos de personalidade, é como com as reivindicações feministas. A conversa nunca termina, porque se inventam sempre mais objeções depois das anteriores se demonstrarem falaciosas. Pelo que a solução é mesmo legislativa. Obriga-se ao uso. E aplique-se também censura social. Há que informar quem não está de máscara que não tem o direito de por outros em risco.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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