Acabei de ter uma troca de comentários irrelevantes com uma senhora que acha que os pretos também são racistas, e que isso justifica que sejam vítimas do mesmo. Também é de opinião que: os traumas cada um trata dos seus e os problemas de integração social também. 

Estamos cada um por sua conta… Tento imaginar como será viver num mundo pessoal com estes valores, e é difícil e assustador. 

Depois do momento de ultraje, respiro um bocadinho e lembro-me que as visões do mundo são construídas por histórias. Histórias pessoais. Dou um passo atrás e relembro-me que a máquina tem sempre razão. A máquina humana diga-se. Mesmo que nem sempre esteja certa. Às vezes é mesmo um bug do sistema. 

A reacção de culpar a vítima é transversal a muitas culturas. Julgar esta tendência como uma coisa individual não é proibido, mas fica muito aquém da compreensão do fenómeno e, por isso mesmo, pouco faz para o transformar. Não é eficiente atacar o sintoma sem compreender a causa. A única forma de transformar é através da compreensão do fenómeno, da educação tanto a nível mental como emocional, e de uma transformação interior.

Estamos programados para sobreviver. É um instinto básico a procura por segurança. Quando a segurança não existe, fazemos o que for preciso para nos sentirmos seguros, mesmo que isso implique criar uma mentira. “A mente mente.” Mente sempre que isso seja um benefício em termos de sobrevivência ou em termos de segurança. 

Em algumas situações a culpabilização da vítima é mais comum, como os casos de violência sexual, doméstica ou racismo. Mais penoso é que também a vítima frequentemente se culpa a si própria. “Talvez eu não me tenha esforçado o suficiente para impedir.” “Aconteceu porque eu merecia.” “Sou eu o problema?”

Há mecanismos que nos levam a culpar a vítima, e até para a vítima se culpar a si própria. São mecanismos de defesa inadequados que se tornam o bug. O tal que precisamos corrigir sem partir a máquina onde o programa corre. Há tantos racistas, tantos agressores, tantos homofóbicos. Não se pode exterminá-los. Tem que haver outra solução.

1 –  As pessoas culpam as vítimas para poderem continuar a sentir-se seguras.

Achar que a culpa é da vítima é uma forma de fingir que nunca aconteceria connosco. Teríamos tomado melhores decisões, usado melhores estratégias, reagido de formas mais inteligentes. Sentimos conforto em acreditar que estamos seguros porque somos superiores à vítima de alguma forma. É uma forma de evitar admitir que na realidade o mesmo poderia acontecer connosco ainda que tivéssemos tomado todos os cuidados. No caso da vítima, se assumir que causou a situação, pode acreditar que, mudando o comportamento, estará protegida no futuro, sente algum poder sobre a situação. É uma forma de continuar a enfrentar um mundo que provou ser perigoso com a sensação de uma réstia de controle. “Vou garantir que não volta a acontecer.” 

2 – Crença num mundo justo

Gostamos de acreditar que o mundo é justo e que se agirmos bem tudo correrá bem connosco. Este “pensamento mágico” é contrariado diariamente pela realidade. Mas… preferimos continuar a acreditar no nosso pensamento protector do que reconhecer a realidade de que muitas coisas são totalmente aleatórias. Perante factos que colocam em risco as nossas crenças, preferimos negá-los para manter as crenças. 

3 – Sentimos necessidade de punir alguém

Quando alguma coisa má acontece sentimos necessidade de punir alguém para que tudo volta à normalidade. Não é apenas que punimos as vítimas, gostamos de castigar os maus, parece que achamos que punir alguém é a única forma de podermos seguir com as nossas vidas. 

4 – O preconceito retrospectivo

Quando pensamos num evento passado, temos tendência a acreditar que houve sinais e que deveríamos ter previsto o resultado. Esta tendência, quando aplicada às vítimas, leva-nos a pensar que também elas deviam ter  previsto e evitado o que lhes aconteceu.

Não falamos “apenas” de abuso sexual, violência doméstica ou racismo. Também em relação a situações de saúde, perdas financeiras imprevistas ou até morte procuramos culpar comportamentos passados pela situação actual. 

Faliu? Devia ter previsto a crise. Adoeceu? Com certeza teve comportamentos de risco. Escorregou na calçada? Devia ter ido de ténis.

Mais uma vez destina-se a deixar-nos seguros, imaginando que conseguimos prever ou prevenir todos os contratempos. 

4 – Identificação com o agressor

As vítimas parecem indefesas e os agressores parecem perigosos, muitas vezes escolhemos ficar do lado do mais forte. Se eu for amigo dele, não me vai fazer mal. Por isto é tão frequente pessoas que fazem parte de grupos de risco serem as primeiras a culpar a vítima. E tristemente pessoas que foram vítimas e que desculpabilizaram o agressor, continuarem a fazê-lo relativamente a outras vítimas. 

Esta forma de funcionar que existe para nos dar seguranças, na verdade retira segurança. Se formos nós a vítima, vamos também ser culpabilizados em vez de protegidos. A tendência a culpar a vítima não é inevitável. A resposta é reconhecer esta tendência e a procura de uma relação que alimente a empatia.

 A culpabilização da vítima é uma segunda traumatização que afeta o já delicado processo de recuperação. E sabendo tudo isto somos responsáveis por nos educarmos e educarmos outros acerca deste tema. É importante que nos debrucemos sobre o assunto.

O trauma é inevitável, mas o stress pós traumático não. E o segundo depende sobretudo da forma como a pessoa traumatizada é acolhida pela sua comunidade.  

https://www.verywellmind.com/why-do-people-blame-the-victim-2795911
https://www.theatlantic.com/science/archive/2016/10/the-psychology-of-victim-blaming/502661/

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