O feminismo não é só branco, nem só classe média, nem só pobre, nem só negro, nem só hetero, nem só lésbico

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Em Bad Feminist, de Roxane Gay.

Num dos momentos esquizofrénicos do twitter, no fim de semana esteve a debater-se o feminismo não branco. Claro que esta é uma discussão com décadas noutros lados, mas por cá parece sempre que as pessoas saíram agora da Segunda Guerra Mundial e vão começar a debater aquilo que nos outros países ocidentais se entretiveram a discutir toda a segunda metade do século XX.

O incentivo foi um tuíte da deputada Joacine Katar Moreira. A deputada constatou que nunca tinha sido representada por feministas brancas, e que o feminismo branco é intrinsecamente racista e elitista. Não são palavras simpáticas. Mas são verdade. Não só a visão da deputada sobre quem a representa – e tem todo o direito a escolher quem representa e quem não, lá por ser mulher e negra não tem de levar com o que lhe dão e sorrir a agradecer – mas também o elitismo do feminismo branco e, muitas vezes, o racismo ou, pelo menos, a incapacidade de perceber que existem assuntos relevantes para contestação além dos problemas das mulheres da maioria branca de classe média.

Evidentemente as mulheres de minorias raciais têm desafios acrescidos em sociedades com maiorias brancas (ou han, na China, ou hindu, na Índia, que isto não é fenómeno ocidental). E geralmente estes desafios cruzam várias linhas: o sexo, a pobreza, o estatuto racial minoritário, a orientação sexual. Um mulher tem, por si só, menos oportunidades que um homem e enfrenta mais discriminações e risco de violência. Uma mulher pobre terá ainda menos oportunidades e maior risco. Uma mulher lésbica enfrenta mais preconceito. Uma mulher negra leva, além do sexismo, com o racismo – que não é pêra doce.

As questões raciais enformam a vida das mulheres negras. Não só nas perceções sociais e profissionais. Até os problemas de saúde que afetam mulheres negras nem sempre têm o mesmo padrão que os que afetam as mulheres brancas. Nos Estados Unidos, a mortalidade de bebés negros diminui, por exemplo, se o médico obstetra for também negro. Há cancros que afetam mais a população negra. Na covid, a morte de negros nos Estados Unidos (que felizmente têm os dados sempre desagregados por raças) é desproporcionalmente alta.

Mas também são questões sociais e económicas. Deixo um caso. Num artigo da Harvard Business Review sobre enviesamentos que empurram mulheres para fora das áreas STEM, Joan Williams concluiu que mulheres negras encontravam enviesamentos que se distinguem das brancas: têm de provar ainda mais que as brancas a sua capacidade intelectual; são mais confundidas com o pessoal da limpeza; mas não lhes é exigido comportamentos estereotipicamente femininos nem que trabalhem menos depois de terem filhos. Estas duas últimas curiosidades parecem positivas (e algumas mulheres negras fazem bem se as tornarem em vantagens competitivas), mas, na verdade, são racistas – porque estão simplesmente a excluir as negras da noção de feminilidade e de direito ao usufruto da vida familiar que se associa às brancas. É somente uma desumanização e menorização: não interessa que sejam femininas nem têm direito a usufruir da maternidade como uma branca tem.

Nada disto observação minha, de resto. Nem tem de ser. São as feministas negras que o afirmam, e é a elas que cabe este statement. Maya Angelou, Bell Hooks, Chimamanda Ngozi Adichie, Roxane Gay – todas constatam a apropriação que as femininas brancas fazem do feminismo para os seus problemas exclusivos. E como tentam elevar as mulheres brancas ao ser-feminino-referência-do-mundo. Assim como os homens julgam que são as pessoas-norma do universo e as mulheres uma derivação. Se as feministas negras o afirmam, se calhar era tempo de as ouvir, de aceitar o que dizem em vez de deixar de lhes pretender dar lições e explicar o que devem pensar sobre o feminismo. Digo eu.

Como é evidente, o feminismo tem de incluir as mulheres de minorias, as mais pobres, lésbicas, e tem de centrar as experiências de todas elas. As experiências das brancas não são as experiências das mulheres, e as experiências das mulheres negras não são as experiências das mulheres negras. Experiências de brancas e negras são experiências de mulheres. Não cabe às mulheres brancas determinar os assuntos que as negras dizem cair-lhes com danos na vida. Não há lugar para as mulheres brancas procurarem protagonismo para as lutas que não são suas. Não são as feministas brancas a decretar o que é o feminismo universal. Podemos – devemos- solidarizar-nos, empatizar, e, sobretudo, dar voz se outras mulheres tiverem mais dificuldade em captar os holofotes. Mas não temos de usurpar os lugares de liderança de movimentos que extravasam as nossas experiências. E, acima de tudo, há que deixar feministas não-brancas-nem-well-off falarem por si próprias, estabelecerem os seus termos, definirem problemas.

Nem, na verdade, tem de existir um dogma feminista. O feminismo não tem de ser um combate igual para todas as mulheres, porque as circunstâncias variam. Não só localmente, pelo mundo todo, como sociologicamente dentro de uma comunidade. O feminismo tem de ser uma conversa que vá incluindo cada vez mais mulheres em busca de igualdade de direitos, liberdades e – muito importante – oportunidades. De mulheres sempre livres de violência. A sororidade é essencial, mas há espaço para a convivência de caminhos e tónicas diferentes. E que não se esgotam no ‘radical’, ‘liberal’ ou o que seja.

As lutas feministas não se podem esgotar em mulheres muito escolarizadas participando nos lugares de poder político e económico – ainda que não caiam os parentes na lama por se defender isto mesmo, que o feminismo também não pode excluir as mulheres do topo profissional, nem olhar para o lado se as mulheres bem sucedidas afinal tiverem o sucesso limitado porque o pico está reservado aos homens. Desde logo porque as mulheres mais bem sucedidas têm todo o direito a ter os seus sonhos e as suas ambições – tal como os homens. E porque a parte simbólica de ter mulheres ocupando lugares visíveis de poder é brutal para a mudança de costumes. Também não pode haver lugar ao ódio às ‘femocratas’, como se escrevia num livro feminista carregado de ódio que li há uns tempos.

Para mim, o feminismo tanto tem de protestar para que as mulheres mais ambiciosas e bem sucedidas tenham reais oportunidades de chegar ao topo, quanto com a precariedade laboral ser em Portugal sobretudo feminina – o que leva a piores salários, projetos de vida mais dependentes de outros, e – como se vê no momento atual com a crise da covid – um desemprego que escolheu maioritariamente mulheres.

Tanto tem de valorizar as experiências das mulheres brancas – a raça e o maior conforto monetário não protegem as mulheres brancas de violência e discriminação por serem mulheres – como de mulheres negras ou de outras minorias. Tanto deve pugnar para que haja representação política de mulheres quanto ter consciência que as mulheres imigrantes são as que mais risco correm de ser prostituídas. Tanto deve exigir igualdade de direitos independentemente da orientação sexual ou identidade de género quanto só admitir políticas públicas com avaliação do impacto de género – porque normalmente as políticas públicas austeritárias, por exemplo, são mais madrastas para as mulheres pobres. Tanto se deve preocupar com o gender wage gap – que se alarga nas mulheres mais escolarizadas – quanto com o maternity wage gap, que penaliza as mães. Tanto precisa de garantir que as políticas culturais dão voz a mulheres artistas quanto com a segurança dos transportes públicos, onde se movimentam as mulheres mais pobres. As questões do trabalho reprodutivo dizem respeito a todos os níveis da pirâmide.

Preferencialmente, também não deve confundir questões de carreira de topo e representatividade no poder (político e económico) com reivindicações feministas brancas, e questões de pobreza com feminismo negro. As mulheres negras têm iguais capacidades (mesmo se encontram mais entraves) para o sucesso profissional, e há muitas mulheres brancas pobres e pouco escolarizadas.

E, já agora, que não embarque na tão machista exigência de perfeição às mulheres, e à argumentação que uma má escolha de feministas é um atentado à credibilidade do feminismo. As mulheres negras já foram aconselhadas a um papel secundário aos homens negros em prol da luta pelos direitos civis vingar nos Estados Unidos. Bell Hooks em Serei Eu Uma Mulher? descreve-o de modo pungente. Os homens negros não estavam interessados na emancipação das mulheres negras, que foram obrigadas e escolher entre combater o racismo ou o sexismo. As mulheres brancas foram educadas em sociedades racistas e patriarcais e também com facilidade têm solidariedades familiares, culturais, sociais que põem à frente da luta ao machismo – e esquecem mesmo o anti-racismo, mesmo quando recusam o sexismo. Não há lados sem pecadilhos.

Já as feministas brancas, e os homens, não precisam de esbracejar por serem colocados fora do protagonismo do feminismo negro. Podem adotar a nobre missão de ajudar a dar voz a quem tem mais dificuldade em obter os holofotes.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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