O vídeo de sexo no comboio e a turba moralista de pacotilha

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Não posso dizer que sei o conteúdo do vídeo de dois homens e uma mulher tendo sexo num comboio. Encontrei-o no twitter sem ter ainda conhecimento da polémica, pus play e mal percebi que tipo de vídeo era parei e denunciei-o. Nem sequer cheguei a perceber que existiam dois homens. Não sei se a cara da mulher se vê com pormenor – ou a dos homens.

O primeiro problema aqui: alguém ter decidido filmar a cena. Há uma alma que, perante uma cena daquelas, pensa filmar e partilhar com o grupo de amigos – ou com o mundo. Se se tratasse de um abuso sexual, curiosamente, provavelmente o voyeurista que filmou teria tratado de se escapulir, sem sequer interferir no abuso. Se estava incomodado com o sexo no comboio, chamava o revisor, gritava para pararem, tossia para dar a entender que tinham companhia. Nunca, absolutamente nunca, se dedicava a filmar.

É perturbante haver quem, perante um comportamento errado de outros, decide infligir sofrimento e vergonha para sempre às pessoas que, apesar de tudo, não estão a magoar ninguém nem a destruir propriedade nem a ofender direitos alheios. Faz pensar como objetos aparentemente inócuos, ou até úteis, como telefones conseguem exponenciar a maldade das pessoas.

Que não se deve ter sexo num comboio é óbvio. Já muita gente, se não a maioria, teve sexo em locais públicos, mas provavelmente tratavam-se de locais resguardados e onde apesar de tudo existia a expetativa de privacidade. Mas não é algo tão grave, mesmo no comboio, que justifique a devassa avassaladora cinematografada nas redes sociais, com vídeos guardados para sempre e que surgirão a espaços para atormentar a mulher que neles aparece. Ou justifique o moralismo reles de todos os que, sacudindo as mãos de felicidade com a desgraça alheia, enxovalham uma mulher que foi filmada durante um ato sexual num local público.

Dizem-me que são os três muito novos. Mesmo não sendo os filmados menores, não conseguimos todos ir buscar as lembranças dos disparates que todos fizemos quando tínhamos 20 anos e empatizar com três pessoas mal saídas da adolescência?

E este é o segundo problema. A censura e o julgamento da turba não se espalhou pelos três participantes na cena de sexo no comboio. Os dois homens escaparam. O problema foi só a mulher. Claro, os homens podem ter sexo sem qualquer censura. Faz parte de ser homem. É para aplaudir. Já uma mulher tem de ser recatada e casta – ou, se não for, trate-se como uma puta. E esta mulher estava com dois homens. Se fosse um conjunto de um homem e duas mulheres, bem, teria sido a glória para o homem assim filmado, não era? Que garanhão. E nem as mulheres que estivessem com ele seriam tão julgadas: afinal estariam conformes ao imaginário e moral caduca dos imbecis – um homem que tem várias mulheres.

Mas a rapariga do comboio não estava conforme. Sexo. Em local público. Com dois homens. São demasiadas transgressões para as mentes pequeninas e mesquinhas e maldosas suportarem. Portanto julgam-na. Dizem-me – não vi, que não participo neste enxovalho público – que um jornal fez uma capa com alegadas mensagens da rapariga (como as obteve?!) e que uma televisão teve um painel de várias pessoas a analisarem o comportamento dela – os rapazes passaram pelos pingos da chuva. Leio que o instagram dela foi invadido por mulherzinhas querendo fazer prova de virtude à conta da exposição alheia. E de homenzinhos reles ordinários gozando o prato.

As consequências da divulgação do vídeo para a jovem mulher vão ser devastadoras. Vai ser penalizada muito além do que merece o disparate que fez – um mero atentado ao pudor das outras pessoas da carruagem. E só ela. Já ocorreram casos de divulgação de vídeos deste cariz que resultaram em suicídio das mulheres. Com milhares de cúmplices. Quem participa nisto – na divulgação do vídeo, no julgamento da turba, no assassinato de carácter de uma mulher – devia ter vergonha. A desumanidade e a incapacidade de empatia estão em níveis de psicopatas.

O machismo de concentrar as críticas na mulher é revelador do ódio à liberdade sexual das mulheres. É algo que infelizmente não se pode parar. Mas os vídeos, sim, podem parar-se. Temos de começar a exigir dos legisladores que penalizem quem desta forma desproporcionada e cruel expõe outros, bem como as plataformas que ajudam a difundir para obterem mais audiência e engagement dos utilizadores. O escárnio e o nojo devem dirigir-se a quem propaga o enxovalho alheio, não aos filmados ou fotografados.

E as aulas de cidadania de que se fala agora por aí – aí está um tema que também é imprescindível ser dado a todos os alunos: o respeito pelos outros que se concretiza em não divulgar vídeos, áudios ou fotografias que embaracem e desvalorizem e destruam outros.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

6 COMENTÁRIOS

    • Caro João Mota, esta plataforma recusa-se a promover machismo. Desde sempre que pretendemos ganhar audiência através da qualidade dos textos, não de discussões de rebolar na lama com sexistas na caixa de comentários. Do mesmo modo, está escrito claramente que não aceitamos comentários que se destinem a menorizar outros com base em sexo, raça, etc. Isto inclui o machismo, que tresanda em todos os seus comentários. Não há nenhuma decência em publicar comentários machistas. Não há decência em publicar indecências. Não há decência na sua exigência – na casa dos outros, com os recursos dos outros – que publiquemos comentários atentatórios da dignidade desses outros. A publicação do seu comentário não seria decência, seria a aceitação de que a minha menorização por um sexista é lícita. Está a pretender impor-me que discuta e publique visões atentatórias da minha dignidade. Este espaço é de quem o mantém e de quem nele escreve. As regras estão explicadas. Se não concorda, pode não frequentar. Chama-se a isso liberdade. E pode publicitar as suas visões sexistas do mundo nas suas plataformas. Não espere é que outros que emprestem visibilidade para que possa verter ódio e opressão em cima desses mesmos que lhes dão visibilidade. Certamente, de tão talentoso que é, tem plataformas e audiências que amplifiquem as suas mensagens, certo? Ou afinal está à espera que seja uma pessoa coitadista e pseudofeminista e que não usa os neurónios a dar visibilidade ao seu ponto de vista sexista?

  1. Bem, se calhar talvez fosse bom ter visto o vídeo para perceber algumas coisas, não? A maior parte das cenas foram os próprios que filmaram! E a visada chegou mesmo a afirmar que agora é que seria famosa, rindo da situação. Tem 22 anos, não é nenhuma criança. Chega deste coitadinhismo pseudofeminista. Quanto a esta frase “Vai ser penalizada muito além do que merece o disparate que fez – um mero atentado ao pudor das outras pessoas da carruagem”, nem merece comentários… Se tem dois filhos, junte uns neurónios e pense.

    • João Mota, obrigada por me recomendar usar os neurónios. Como ‘sabem’ os homens que falam de coitadismo pseudofeminista, as mulheres, pobrezinhas, não pensam. O facto de não se conformarem à gloriosa ordem patriarcal é só mesmo falta de inteligência nossa. Quanto ao que disse, não interessa quem gravou o vídeo. Nem se quiseram de facto divulgá-lo. Isso não dá o direito a outros de o divulgarem. Já existiram inúmeros vídeos não sexuais nas redes sociais publicados pelos próprios, muito embaraçosos e que se tornaram virais em posts e tuítes de gozo alheio. É miserável fazer isto. Se alguém não entende, por imaturidade ou problemas psicológicos, que está a fazer figuras tristes, isso não dá o direito a outros de gozarem o prato. Entendo que não percebe isto. É uma questão de falta de valores da sua parte. De resto comum a quem fala em pseudofeminismo. Os homens que pretendem dar lições a uma mulher do que é feminismo (fazer mansplaining sobre feminismo é tão cliché), além de serem narcisistas e sem noção, são sempre machistas.

      • Concordo em pleno com o texto, sim é verdade que são jovens adultos, inconsequentes, provavelmente até poderiam estar sobre o efeito de alguma droga… Um indeterminado número de variantes. Sou mãe de um rapaz e se o meu filho estivesse no lugar de um daqueles dois, a conversa cá em casa era outra porque significava que nós os pais teríamos falhado em alguma coisa na educação. Ensinamos ao nosso filho que a intimidade dele com a ou as namoradas é para ser guardada, para nunca expor a intimidade perante os amigos a dizer que fez ou aconteceu para ficar bem na fotografia. A partilha continua destes vídeos é inaceitável, mesmo que eles o tivessem feito era mais fácil controlar a eliminação do que metade do país andar a divulgar.

      • Susana, sem dúvida. Também tenho dois filhos e a questão de imagens e vídeos de outras pessoas em situações embaraçosas é um ponto importante da educação, bem como a necessidade de se protegerem neste mundo onde tudo pode ser filmado. Mas o facto é que toda a gente tem atos e comportamentos que, se filmados ou fotografados, teriam imenso potencial de dano reputacional ou embaraço. Ninguém está sempre preparado para ser filmado. Tenho inúmeros momentos desses na minha vida, como temos todos, não se tratam apenas de questões sexuais. Pelo que há esta aprendizagem – e produção legal – a fazer. Não se divulgam conteúdos com potencial embaraçoso de terceiros. É uma responsabilidade de cidadania de cada um.

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