Mrs America, retratos de mulheres. E dos tempos, e dos caminhos da política de 2020.

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Vejo por aí muitos comentários sobre Mrs America, a mini série de televisão que a HBO lançou este ano, informando que conta a história de Phillys Schlafly, a mulher que parou a ratificação da Equal Rights Amendment (ERA) pelo número de estados necessário nos Estados Unidos (e que consagraria na constituição americana a proibição de discriminação em função do género). Nada mais errado. Mrs America é um produto televisivo com muitas camadas, umas mais evidentes e exploradas que outras, mas que no conjunto a tornam a série televisiva mais interessante que vi nos últimos tempos.

É uma série sobre mulheres (e feita por mulheres; a argumentista Davhi Waller é mulher, bem como várias das realizadoras). É uma série sobre política. É uma série sobre relações de poder e relações de pessoas com poder. É uma série sobre feminismo – e sobre a construção machista do mundo. É sobre vitórias e falhanços. E, na verdade, é sobre muito que se passa atualmente, em 2020, na política americana.

Existem por aqui spoilers, portanto quem gosta de permanecer em suspense não deve continuar. Mas na verdade o que se conta na série é história – e todos sabemos como termina: a ERA não foi ratificada e não faz parte das Emendas da Constituição Americana.

Sim, o contexto de fundo é a aprovação da ERA no Congresso, 1972, grande vitória do movimento feminista, com mulheres high profile tanto do lado democrata como do republicano. E Phillys Schlafly (representada pela soberba Cate Blanchett), uma senhora conservadora que tinha escrito uns livros e tentava sem sucesso uma carreira política, criou um movimento de mulheres tradicionais, mães de família sem profissão fora de casa, que gerou um lóbi estrepitoso contra a ERA.

Porém isto é só o fundo do cenário. Porque Mrs America, tanto do lado das mulheres pró ERA como das anti ERA, é sobre a condição e o tratamento das mulheres no mundo político. Schlafly na verdade não queria saber da ERA. Apesar de conservadora não lhe interessavam as lutas femininas de um lado ou outro. E em boa verdade o que ela desejava uma carreira política, não somente ser mulher de e mãe. Schlafly era especialista em assuntos de Defesa e Segurança, as suas paixões.

Mas os políticos de Washington não queriam saber da opinião de uma mulher sobre Defesa. Isso era assunto para homens, claro. (Ainda hoje reconhecemos esse padrão. O Sol há dias convidou uma capa de jornal cheia homens, e só homens, para comentar o Orçamento de 2021. Não há mulheres economistas e que tenham coisas a dizer que valham a pena sobre a repartição de dinheiros dos impostos pelas várias políticas, estão a ver?) O único assunto em que permitiam a Schlafly ter voz era na discussão das pretensões feministas de consagrar a ERA. Donde, para ter voz, foi por aí que avançou.

Schlafly, para ter voz política relevante nas áreas que apreciava, teve de montar todo um show para alegadamente proteger a família tradicional.

Para isso vai contribuir grandemente para a viragem muito conservadora, obcecada unicamente com o assunto aborto, que o partido republicano vive até hoje (em doses crescentemente patológicas). Também ensaia os métodos baixos por que são conhecidos agora os republicanos, desde as fake news, a desinformação e a falsificação de conteúdos. Schlafly repetidamente inventa casos judiciais, que apresenta nas suas newsletters ou nos debates em que participa, onde alegadamente os malefícios da ERA prejudiciais para a vidas das mulheres já se fazem sentir. Mente sobre as opositoras. Chega a fabricar uma cassete distorcendo inteiramente as palavras de uma das líderes do movimento feminista, Bella Abzug.

A descida à ignomínia do uso do racismo para agitar a causa, que não é recusada pelo movimento de Phillys, vê-se na aceitação da proteção do Ku Klux Klan. De resto, percebe-se um partido republicano em clara rampa deslizante para uma ideologia castradora. De partido que é o proponente inicial da ERA nos anos 40 (sim, foram os republicanos!), passando pela fase Gerald Ford extremamente favorável às pretensões feministas, até ao partido que tem como posição central combater os direitos das mulheres.

Mas a série não é só sobre Schlafly e o seu movimento. O lado feminista é também mostrado com igual abundância, bem como Gloria Steinem (Rose Byrne), Betty Friedan (Tracey Ullman), a já referida Bella Abzug, Shirley Chisholm (a primeira mulher, negra, a candidatar-se numas primárias para a presidência). Além da convivência muitas vezes agreste entre as feministas mais célebres, e da camaradagem e da amizade e sororidade, vemos outros temas (por vezes subtis) do feminismo de segunda vaga. Betty Friedan que não queria incluir as lésbicas nas lutas feministas. As feministas de cor, que não se sentiam representadas nos grupos feministas demasiado brancos, criando lateralmente as suas plataformas.

E, no fim, o que a série mostra é que os homens políticos, sejam republicanos sejam democratas, estavam (estão) muito pouco interessados em avançar a condição das mulheres até à igualdade de direitos plena. O interesse é somente parecerem interessados de modo a obterem os votos. Em boa verdade, Gloria Steineim queixa-se da série televisiva por mostrar mulheres contra mulheres e não acredita que tenha sido Schlafly a derrotar a ERA, mas sim as grandes empresas, lideradas por homens, que não pretendiam custos salariais mais elevados se tivessem de pagar igual às mulheres e homens. Mas esta realidade também transparece na série. Os democratas boicotaram a luta pela legalização do aborto (uma cena de uma convenção democrata é épica na traição). Jimmy Carter enxovalha publicamente Bella Abzug e o movimento feminista. E os republicanos, com Ronald Reagan, depois de usarem os contactos de Schlafly, bem como o entusiasmo do seu movimento conservador, deixam-na exatamente no mesmo sítio que ela própria criou, com o seu movimento mas sem nenhum real poder político nas áreas que adorava.

A série é visualmente muito bonita, a estética comestível e saborosa dos anos 70 está perfeitamente revivida. E ainda assim dá uma lição difícil de tragar mas verdadeira: as mulheres, de qualquer ideologia, só podem contar consigo próprias.

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