As vítimas não têm de ser perfeitas para merecerem proteção, solidariedade – e justiça.

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Bruno Candé Marques morreu há poucos dias. Já escrevi sobre o que penso da correria de isentar de racismo as motivações do homicida – que, entretanto, soube-se que não estava arrependido e teria até dito que havia morto muitos como Bruno Candé – leia-se: homens negros – em Angola. O que atira por terra a inexistência de racismo. Mas não é isso que aqui me traz hoje quando estamos todos de férias, ou de regresso de férias, ou em preparação para férias.

Quando vieram a lume os insultos racistas que o assassino de Bruno Candé lhe dirigira dias antes de matar, logo correram contas falsas (já apagadas, sintomaticamente, se é que chegaram a existir) – depois seguidas pelos abutres políticos do costume – a contar ocorrências desagradáveis sobre o assassinado. Que atiçava a sua labrador contra os vizinhos. Que era quezilento. A TVI informou mesmo que estava referenciado pela polícia. Ao lado de muita gente que lembrava o ator e amigo e familiar com boas referências, surgiram os que o denegriram. A mensagem não era muito subtil: a vítima não era boa rés, não chorem demasiado a sua morte, não tentem averiguar pecados da sociedade à conta de pessoa tão pouco merecedora. Na verdade, não se perdeu muito que tenha morrido. Se virmos bem, vítima, vítima é o homicida que, coitado, foi levado aos extremos por tão mau carácter.

Não sei como era Bruno Candé Marques, nem a verdade sobre ele. E não quero saber, porque nada disso interessa. Como todas as pessoas, terá tido momentos bons e momentos sombrios, episódios de bondade alternados com práticas de egoísmo e desprezo pelos demais, capaz de amar e de sucumbir à maldade. O que interessa agora é que nada que tenha feito – mesmo se era quezilento ou viciado em drogas – justificou que um ex-militar o executasse, depois de andar à sua procura por vários dias e o apanhasse pacificamente sentado numa esplanada.

O mesmo se passou com o assassínio brutal de Beatriz Lebre. O assassino foi dado como um rapaz encantador. Já a assassinada poderia andar envolvida, ou ter andado, com o seu assassino ao mesmo tempo que tinha um namorado oficial. Como se a vida amorosa que uma jovem mulher decidisse ter com parceiros consensuais – e não faço ideia da verdade nestas histórias, e, novamente, não interessam absolutamente nada – fosse um qualquer tipo de justificação para ser assassinada. Ou que o assassino merecesse simpatia.

Como se não fosse normal as pessoas apaixonarem-se, desapaixonarem-se, terem dúvidas, esfriarem com duzentos quilómetros de distância. Isto se o que se alegou fosse verdade. Além de ser normal, nunca pode ser sequer usado para explicar um assassinato. Uma mulher tem todo o direito de se envolver com quem entender. Ou de parar de estar envolvida. Se os parceiros não gostam das condições, afastam-se.

Poderia dar mais exemplos de como se procuraram atenuantes para a violência no comportamento das vítimas. Penso porém que também têm ideias de casos.

Ora isto tem de parar. A violência NUNCA é explicada pelo comportamento das vítimas. A violência explica-se nos agressores e no comportamento dos agressores.

É vil escrutinar uma vítima a propósito da violência ou dos maus tratos que foram exercidos sobre si. É tentar justificar a agressão com o merecimento dessa agressão usando as características da vítima. O tradicional victim blaming.

A sociedade naturalmente protege os agressores – porque vêm normalmente dos grupos protegidos. Ou porque as vítimas são, usualmente, dos grupos com menos estatuto (mulheres, ou de raça não dominante, ou pobres). Como diz Kali Tal, todas as forças se unem para calar as vítimas e para as impedir de informar do que as vitimizou. Incluindo este escrutínio – que é destinado a dissuadir as vítimas de contarem a sua história.

E é este o objetivo da procura da imperfeição nas vítimas. Como se só alguém perfeito, impoluto, celestial merecesse simpatia quando sofre de violência. Ou valesse a pena dispensar-lhe justiça. Pretende-se assim isentar de punição os agressores, porque normalmente provêm dos grupos que a sociedade mais valoriza. E pretende-se calar as vítimas, se calharem não chegar a ser mortas.

Devemos contrariar este hábito que garante impunidade aos agressores e duplamente vitimiza as vítimas.

 

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